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DEZEMBRO EM MIRACEMA Reencontro com o Papai Noel |
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Dezembro é tempo de prestação de contas, embora a consciência a exija no nosso dia a dia. Dezembro é a síntese do tempo. Por ser o último mês do ano, simboliza o final de uma jornada e nos faz revisitar os momentos por que passamos. No balanço do que fi zemos ou deixamos de fazer, chegamos a um resultado moral, positivo ou negativo. A paz espiritual é o alvo almejado, consciente ou inconscientemente. É a busca incessante do equilíbrio interior que nos dá força para irmos em frente, na procura de uma vida útil e alegre, posto que sofrida. A vida sempre vale a pena viver. Nessa tarde de dezembro, ao chegar à velha casa dos meus saudosos pais, dirigi-me ao quintal e, percorrendo com os olhos cada cantinho do seu, vi as janelas dos quartos que se abrem para uma área interna. Parei e meus pensamentos voltaram ao passado. Recordei dos natais da minha infância e lembrei dos presentes colocados atrás da porta, onde o sapato era deixado com a cartinha endereçada ao Papai Noel. Como toda criança, levantava e, ansioso, logo corria para pegá-los. Lá estavam os brinquedos indicados na carta e, às vezes, outros, generosamente acrescentados pelo bom Velhinho, que nunca se esquecia de mim. Acreditava que assim também acontecia com os meus amiguinhos, embora alguns, muito pobres, aparecessem de mãos vazias naquela manhã, quando as crianças se reuniam na rua para exibir seus novos brinquedos. Certamente, por algum motivo, teriam deixado seus presentes em casa, pensava eu, crédulo da induvidosa imparcialidade do Papai Noel. “...Como é que Papai Noel, não se esquece de ninguém, seja rico, seja pobre, o bom Velhinho sempre vem.” Continuei ali, parado, olhando para as janelas. Lembrei que há muitos anos não falava com Papai Noel. A gente cresce, esquece e passa para os fi lhos os desejos e os sonhos infantis. De repente, assaltou-me a vontade imensa de escrever uma carta para o Papai Noel. O súbito impulso trouxe-me a certeza da sua existência e do seu poder absoluto para atender aos pedidos dos que lhe escrevessem. Não, não Lhe pediria aquele brinquedo materialmente desejado e exigido pela criança insaciável, que não se contenta com pouco e nem se importa se o “Velhinho” terá condições de suportar o peso do saco com os presentes. Não, o presente que pretendia pedir não teria a força da matéria. Seu conteúdo era exclusivamente espiritual e se destinaria à consciência dos homens e se refl etiria na alma dos contemplados. Sentei-me à mesa da sala de jantar, onde tantas vezes convivi com meus pais e meus irmãos, e passei a escrever a carta. Miracema, dezembro de 2.009. Estimado Papai Noel, Depois de tanto tempo, volto a Lhe escrever e, por isso, quero, antes de tudo, pedir-Lhe perdão por essa falta injustifi cável. É que a vida atribulada e cheia de percalços nos leva para longe e nos faz, muitas vezes, esquecer das pessoas de quem tanto gostamos e que nos são imensamente caras. Sei que me perdoará, porque tem um coração muito grande, porém, sem espaço para rancores ou vinditas e também por compreender as fraquezas e os defeitos dos homens, incluindo o da ingratidão, embora esta seja imperdoável. Papai Noel, ainda confi ando na sua infi nita bondade, quero, agora, pedir-lhe algo diferente. Talvez o derradeiro pedido. Prometo que não mais O perturbarei, até porque, se atendido for, e tenho certeza que o serei, nenhuma razão restará para outros pedidos e novas súplicas. Não, não quero a felicidade, “brinquedo que não tem”, de que fala a comovente canção natalina. O presente que eu quero, na verdade, não é só para mim. É para todos os viventes deste Planeta: homens, mulheres, crianças, jovens, velhos e também para os animais e as plantas. Para os oceanos, rios e lagos. Para as montanhas, as campinas e as fl orestas. Enfi m, peço-Lhe a preservação a natureza tão maltratada pelos homens. Mas, de nada valerá este presente, se não vier acompanhado de um outro maior. Este tem seus destinatários certos. São os oprimidos, os que sofrem da doença e da fome causadas pelas guerras, pelo egoísmo e o desamor das pessoas. Eu Lhe peço Papai Noel: acabe com as guerras e faça reinar a paz no mundo; extirpe da terra a miséria e a injustiça; imponha a consciência do bem e alimente os espíritos com o sentimento da solidariedade, afastando o preconceito, o egoísmo e a maldade. Papai Noel, sei que me atenderá e desde já estou eternamente agradecido. Ao fi ndar, peço-Lhe para não reparar esta carta junto ao meu chinelo atrás da porta. É porque o sapato já está muito pesado para os meus pés cansados.
Feliz Natal
José Geraldo Antonio |
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