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Herança do atraso: o Jeitinho Ibérico
"Roberto Campos, a maior inteligência brasileira nos últimos cinquenta anos falava em três heranças nacionais: a indolência do índio, a magia do negro e o jeitinho ibérico. Vamos comentar esta última. O JEITINHO IBÉRICO - quando chegaram ao Novo Mundo os ibéricos trouxe- ram consigo uma cultura institucional viciada por séculos de nepotismos, apa- drinhamentos e favorecimentos. Os países da América Latina importaram e im- plantaram aqui este modelo de Portugal e Espanha: instituições inefi cientes, onde os reis tinham poderes absolutos e sustentavam a nobreza esbanjadora mesmo quando a renda vinda das colônias encolhia. Então aumentavam os impostos so- bre o povo para sustentá-la. É assim que funciona aqui. Temos em Brasília 513 reizinhos na Câmara e 81 reizões no Congresso para 27 estados, média de 19 de- putados e 3 senadores por estado. Nos EEUU são 455 deputados e 100 senadores para 50 estados, média de 8,7 deputados e 2 senadores por estado! É muito bom viver em país rico como o nosso! As instituições de um país são expressões fi éis da mentalidade dos seus repre- sentantes. Não há como explicar ou entender a ação desta raça gananciosa do dinheiro público, coveiros da esperança e do futuro dos jovens brasileiros. Per- manecem todos de pé durante as sessões, cochichando nos ouvidos, combinando a canibalização do dinheiro público e planejando o próximo golpe. A promulga- ção de leis aleatórias “tapa buracos” é uma especialidade nacional. Os remendos na Constituição por si só não levam um país à frente. Sem instituições fortes uma nação não sai do atraso nem da pobreza. Se não forem de boa qualidade e confi á- veis nunca haverá crescimento econômico sustentado de longo prazo. Nosso Congresso virou casa de interesses particulares onde impera o jeitinho ibérico. São cerca de dez mil funcionários, serviçais que vão reelegê-los nos pró- ximos pleitos. Não representa o povo, mas os próprios congressistas. Lá eles per- manecem indefi nidamente até caducarem. Os mandatos de deputados e senadores se prolongam em suas famílias. São lideranças corruptíveis revelando atitudes e estilos políticos que se encontram na mesquinharia e no fi siologismo, represen- tando o lado pior da política que só trabalha em benefício próprio. São corpora- tivistas impunes que se escondem atrás da imunidade parlamentar. Perderam a consciência moral, dissolveram os costumes, sepultaram a ética. A honestidade está em debandada, os caráteres estão corrompidos. A prática é a conveniência, os interesses pessoais. Não há princípio que não seja desmentido. Nossa legislação não garante os direitos de propriedade e não impede que índices de remuneração das poupanças e investimentos se desvalorizem da noite para o dia toda vez que há aperto monetário. Sem estas garantias ninguém é louco de investir no longo prazo sob o risco de perder tudo. Ninguém se respeita, não há solidariedade nem interesse pelo cidadão. É cada um por si e todos contra o povo. Ninguém mais crê na honestidade dos homens públicos. A classe média debate-se progressivamente na estupefação e na inércia. O povo está na miséria monetária e intelectual. Serviços públicos defi cientes nos tratam como se estivessem prestando-nos um favor. Bancos, companhias de água, esgoto e telefonia nos roubam descaradamente. A Petrobrás nos vende gasolina de péssima qualidade misturada com álcool e água. Pagamos álcool com água pelo preço de gasolina pura! Ta bom ou quer mais? Convivemos com a mediocridade e o grande perigo é o aparecimento dos “sal- vadores da pátria” que sempre surgem nos tempos de miséria cultural. Estão transformando nosso povo num povo de pedintes, dependentes agressivos, sem dignidade nem vergonha. Ao invés de premiarem o mérito incentivam o fracasso, desagregando as famílias e colaborando com a paternidade irresponsável, pro- movendo o ócio, criando o lumpesinato que é a camada da população que vive em miséria extrema, formada de indivíduos desvinculados da produção social, desprovidos de consciência política, que se entregam a atividades marginais que vão de fl anelinhas a viciados em drogas, passando pela prostituição e o roubo. Estamos vivendo o princípio do caos social. Só não vê quem não quer. O relógio de nossa realidade está andando para trás há muito tempo. O Brasil só progride quando nossos políticos estão dormindo. |