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Criança ainda, ouvia as histórias dos acontecimentos em Miracema. Recordo-me bem que elas eram diferentes, quando se referiam às Bandas de música. De um lado minha avó paterna, Esmeraldina Caldas de Souza, uma das fundadoras da Banda Sete de Setembro e do outro lado, meu pai, Nelson Thomaz de Souza, que contava os feitos da Banda XV de Novembro, pois seguiu o amor de meu avô Francisco por ela. Cresci nesse ambiente musical. Meu pai tocava sax e clarineta, sempre me incentivando, e, minha alma tocada pelos acordes das grandes composições me ensinaram a amar e aprender música. Nunca me esqueço da época das festividades das Bandas. Quando iam se aproximando Setembro e Novembro, nossa casa se movimentava, começavam os preparativos. Embora “rivais” nas apresentações musicais das Bandas, minha avó e meu pai lutavam pelo mesmo ideal: verem ambas brilharem em seus dias de comemorações. A madrugada era esperada. Acordávamos cedo e ficávamos na porta de casa aguardando a Banda que parava para cumprimentar a família. Após a saudação, partíamos para a Sede, a fim de tomar o café da manhã com os Diretores e os músicos. Á tarde era a posse da nova Diretoria, em seguida o baile infantil e à noite era a vez dos adultos. Lembro-me em minha adolescência da conversa entre as colegas. O assunto era fazer vestido novo e a “Vida Doméstica” era a revista de moda escolhida para a procura do que iríamos mandar confeccionar. As Sedes das Bandas eram distantes uma da outra, apenas por um trecho da Rua Cel. José Carlos Moreira com a esquina da Rua Francisco Procópio. Para ajudar manter o seu patrimônio, cada Banda acolhia um cinema: O Cine Sete de Setembro e o Cine XV (hoje Supermercado Hono). As Diretorias das mesmas para incentivar os músicos, conseguiam com os proprietários dos cinemas ingressos gratuitos para eles e as famílias. Houve uma ocasião, em que a Sede da Banda XV de Novembro precisou de conserto e daí, os instrumentos foram guardados na gráfica de meu pai, presidente dessa entidade por quase vinte anos. Ainda vem a minha memória, que durante esse tempo, o café da manhã para os músicos na data comemorativa XV de Novembro, era oferecido aqui em nossa casa. Meu pai abria a gráfica, arrumava o balcão e ali fazia a festa nas primeiras horas do dia. Era tradicional. E assim foi durante vários anos. Reformaram a Sede, e, com tristeza, vi sair um a um os instrumentos para a mesma, cujos ensaios eram feitos às quartas-feiras à noite e aos domingos pela manhã. Àquelas horas eram sagradas para mim, ficava sentada na porta de nossa casa ouvindo o Sr. Ernestino, regente, ensaiando os famosos dobrados. A disputa era acirrada, pois no mesmo horário a Banda Sete de Setembro também preparava seus músicos para as sempre perfeitas apresentações. E eu nesse meio, ouvindo e guardando toda aquela dedicação e amor pela cultura musical que convivíamos dentro de casa. Como já escrevi em várias crônicas, que o mundo dá voltas e que tudo passa e, um dia “infelizmente”, a Banda XV de Novembro teve seu fim, terminando como Clube XV de Novembro, conhecido como “Piscina”. Com seu término, também sua música se extinguiu, aquela que encheu nossas ruas de alegria, trazendo pessoas às janelas para vê-la “passar”, como canta Chico Buarque. Os olhos daqueles que se dedicaram anos e anos à Banda, encheram-se de lágrimas, embora a consciência musical não perdesse de toda a esperança. Mas foi em vão, acabou mesmo. Faltou conhecimento e amor aos sucessores por esse pedaço da história de nossa cidade. Com tudo em minha alma, habitava a “Velha Banda Sete de Setembro, a qual aprendi a amá-la como minha avó. A alegria da música fez morada dentro de mim e a reverencio todas às vezes que ela se apresenta. Através dela adquirimos amigos. Quando o Lions Clube foi fundando, meu querido Lauro Carvalho e nosso grande amigo Fernando Botelho, conseguiram com o leão Hélcio Bastos, presidente da Banda, que as reuniões do Clube fossem feitas na Sede da “Velha acolhedora”. Ali o Lions permaneceu durante anos e anos, porém um dia, os leões sentiram a necessidade de colaborar com a “Velha senhora”, dando inicio a uma reforma. Como disse, adquirimos amigos no decorrer da vida, para isso tem que ter a alma desprendida e desprovida de inveja, rancores, mas apenas a disponibilidade de ajudar, contribuindo para o melhor. Nessa pequena, mas necessária obra, Lauro Carvalho como presidente do Lions e o leão Hélcio Bastos tiveram um amigo, o leão Alverne Rocha. Grande conhecedor da filosofia da entidade e particular amigo de nossa família, que não mediu esforços para estruturar tudo aquilo que a Sede necessitava. Sob seu trabalho leonistico, foram feitas: sala para guardar os instrumentos, um escritório, uma cozinha e dois banheiros. Tudo isso construído com fundos arrecadados através de rifas, almoços, bailes de Debutantes e pelos próprios leões, sem nenhuma subvenção e nem outras benécias. Na época, a Banda também teve a ajuda de Elmunteged Delate, cuja loja embaixo da Sede permitia que ele improvisasse peças para consertar vários instrumentos, porque a condição financeira era precária, mas a Banda sempre teve amigos. E assim foram eles. Nunca serão esquecidos. Talvez para muitos não haja interesse em conhecer essas histórias que procuro lembrar e passá-las. Acontece que um dia desses, ouvi a seguinte pergunta: -“Você sempre foi XV de Novembro, AGORA, passou para a Sete de Setembro”? No momento, não respondi, mas a pergunta não me saiu da cabeça e então resolvi replicar através desta crônica ou “relato”: Toda a história que vivi e vivo é porque tenho de berço e respeito às DUAS BANDAS DE MÚSICAS entrelaçadas em minha alma. Mas, vamos tocar a história pra frente. Tivemos por quatorze anos Celestino Tostes como presidente (agradeço-lhe o título que me foi conferido no ano de 2008 de Sócia Benemérita da Banda Sete de Setembro), acompanhando jovens, procurando sempre incentivá-los e deixando-lhes um brilhante maestro, Wellington B. Marques, que nasceu com o dom para a música. Há vários domingos vou à Padaria pela manhã e não tenho visto o “VELHO CASARÃO CENTENÁRIO” de portas abertas, recebendo os músicos para os ensaios tradicionais, porém dias atrás, soube que a Sede está para ser reformada “internamente”. QUE ÓTIMO! Merecem aplausos os que querem conservá-la. Nada é mais digno do que respeitar o “mais velho” e reconhecer as tantas Histórias e alegrias dadas ao povo, pelas apresentações da “VELHA CENTENÁRIA”. Como diz a filosofia hindu “O velho não se julga, apenas obedece”. Então, pelos lindos dobrados e arranjos que a “Velha Banda” proporciona aos miracemenses e por ser Patrimônio Cultural de nosso povo, deve ser mantida independente, respeitada e também conhecida sua HISTÓRIA. |