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Minhas Mãos
Orientadas pelos meus olhos, guiadas pelo meu cérebro, companheiras fi éis, perfeitas e obedientes às minhas vontades, obrigado por existirem. O que seria de mim sem vocês? Ah! minhas mãos de recém-nascido no colo de mamãe, movimentando- se desordenadamente na direção do rosto daquele anjo que me dedicava tanto amor! Mãos com as quais aprendi a pegar na mamadeira, na chupeta e brincar. Que me permitiam segurar as mãos dos meus pais pedindo a bênção, que me ajudavam a engatinhar, a agarrar os objetos para conhecê- los. Ah! Minhas mãos postas nas orações noturnas, que enlaçavam o pesco- ço de meus irmãos em abraços de amor. Que seguraram o primeiro lápis orientado por minha professora das primeiras letras – minha mãe. Que davam parabéns sinceros. Ah! Minhas mãos agarradas às pernas de meu querido pai, imorredoura saudade, quando conversava com os amigos e me deixava de lado. Que do ônibus acenaram para ele no adeus defi nitivo quando da praça me seguia com olhos tristonhos na despedida que seria eterna, pois não o veria mais com vida, que não puderam resgatar minha mãe em seu último momento! Ah! Minhas mãos que consolaram tantos no fi m de suas vidas, transmi- tindo fé e calor humano tentando descobrir a origem de dores e sofrimen- tos na tentativa de aliviá-los; mãos que pediram paz e ajuda divina quando se esgotavam os recursos de que dispunham. Que nunca se levantaram para agredir. Que mentiram muitas vezes para não tirar a esperança dos pa- cientes, que sempre procuraram acalmar os ambientes e consolar os afl itos. Que assitiram tantos choros comovidos nos nascimentos e tantos prantos de desespero nos desenlaces! Ah! Minhas mãos que assinaram angustiadas tantos atestados de óbito rezando preces para descanso eterno daquelas almas; que seguraram li- vros até alta madrugada e dissecaram tantos corpos desconhecidos para manejar com destreza o bisturi. Que concederam tantos favores e negaram tantos outros por absoluta impossibilidade. Que prometeram e cumpriram quando possível. Que deram boas vindas e que despediram. Que oferece- ram muito e muito não puderam dar. Que tantas vezes foram injustamente humilhadas mas nunca desistiram! Que salvaram dirigidas por Deus! Ah! Minhas mãos que angustiadas afagaram crianças, jovens e velhos nas suas agonias. Que se curvaram para erguer tantos desesperados. Que apludiram e apuparam. Sempre estendidas para os cumprimentos e reco- lhidas quando desprezadas. Que trêmulas de emoção abraçavam toda mi- nha família. Que trouxeram meus fi lhos e dois netos à vida! Ah! Minhas mãos que vão sendo paulatinamente consumidas pelo tem- po, perdendo o viço e o brilho que se apagam lentamente e já não possuem tanta fi rmeza, tanta resistência, tanta força... Ah! Minhas mãos com as quais ainda posso abençoar meus fi lhos e meus netos com um armor sempre renovado, abraçar toda minha família, cum- primentar meus amigos que são muitos, levar fl ores ao túmulo de meus pais... Ah! Minhas mãos, eternas e dedicadas companheiras, tantas vezes elo- giadas, tantas vezes desprezadas, tantas vezes acusadas injustamente, tan- tas vezes incompreendidas, um dia vocês repousarão cruzadas sobre o meu peito, protegendo meu coração e guardando nele perene saudade de meus familiares e de meus amigos pela eternidade. |