Pág.3-Nº118-Set/09
              


O ANCIÃO 

 

      

"Jamais prive uma pessoa de esperança. Pode ser que ela tenha só isso!"


Com lágrimas nos olhos e o andar trôpego ele chegou. A face abatida indicava não estar bem de saúde. Desceu com certa dificuldade de sua charrete, cumprimentou meu pai retirando o chapéu da cabeça colocando-o sob o braço esquerdo numa atitude respeitosa e humilde. Era um pequeno proprietário, velho conhecido. Tinha vindo para uma consulta. Estava sozinho e parecia assustado. Queria privacidade. Talvez chorasse e não gostaria de testemunhas. As mãos tentavam disfarçar sua angústia, trocando o velho chapéu de palha de uma para a outra, nervosamente. E assim ele falou:
- "Doutor, estou desesperado, disse com o lábio inferior tremendo. Sofro muito. Venho fazendo tratamento, sem melhora. Sinto muitas dores no estômago, mal consigo andar. Vomito tudo o que como. Emagreço dia a dia. Não tenho apetite. Acho que vou morrer. Já me disseram que tenho pouco tempo de vida”.
Tinha aproximadamente 80 anos, vestia uma camisa e uma calça de pano riscado espesso muito largas pela extrema magreza. A cueca também de pano áspero amarelado ficava por fora da camisa. Calçava um par de botas “meio cano,” bem usadas. As maçãs salientes do rosto mostravam ter sido um homem forte. As mãos grandes e calejadas indicavam trabalho pesado. A musculatura já atrofiada encontrava-se flácida e sulcos profundos riscavam-lhe o rosto do nariz ao queixo. Cabelos brancos cobriam-lhe a cabeça, e possuía uma grande dignidade na expressão. A testa mais clara pelo uso do chapéu mostrava-se úmida de suor. Com um lenço amarrotado enxugou os olhos de um cinza profundo ainda molhados pelas lágrimas. 
Levantou-se após a consulta, mas voltou a assentar dando a impressão de que as forças abandonaram-lhe as pernas. Estava profundamente abatido e desnutrido. Olhou para o chão como se procurasse algo, passou os olhos pelas paredes para ganhar tempo e organizar as idéias. Sorriu sem graça, como que pedindo desculpa pela fraqueza, respirou fundo, ficou de pé com um pouco de dificuldade e apoiando no braço esquerdo do médico amigo caminhou para a porta com passos lentos. Meu pai o estimulou com esperança. Ao terminar a consulta parecia revigorado pelo carinho e estímulo.
Com um derradeiro aperto de mão, colocou o chapéu na cabeça, subiu com esforço em sua charrete, chicoteou o cavalo ainda suado pelo esforço da chegada e partiu na direção de seu destino.
Não mais o vi. Morreu em casa poucos dias depois junto da família numa tarde de chuva, a natureza lamentando a sua partida. Foi enterrado em seu pequeno sítio.
Naquele dia eu o vi sumir na poeira da estrada levantada pelas patas de seu cavalo. É possível que hoje, no firmamento, sua alma esteja envolvida pela poeira das estrelas que desde a eternidade cobrem de luzes cintilantes seu pedacinho de terra tão amado, que o viu nascer, crescer e em cujo seio seu corpo dorme o sono eterno.



             

 

- A gratidão da maioria dos homens não passa de um desejo secreto de receber maiores benefícios. ( La Rochefoucauld)

- Depois da ingratidão a coisa mais difícil de aceitar é a gratidão. (Henry W. Beecher)

- Quem recebe um favor nunca deve esquecer; quem faz nunca deve lembrar. ( Charron)

- O único defeito que não pode ser perdoado é a hipocrisia. (Willian Haglin)

- Todo homem é culpado pelo bem que não fez. (Voltaire)

- Para reformar um homem é preciso começar pela avó dele. (Victor Hugo)

- O homem é um pedaço do universo que recebeu vida. ( Hemerson)

- A inveja dos inimigos é uma forma  de admiração muito mais sincera que a lisonja dos amigos. (D. Quixote)

               

                                                 O Sonho

 

Um sonho não pode ser uma coisa desmedida, inteiramente além de nossas posses.
Nossas aspirações têm limites e proporções. Se não nos calcarmos neste princípio, poderemos nos deparar com sérias decepções.
Por outro lado, viver sem sonhos é insípido e sem graça, quase impossível.
O que vejo hoje é a inconformidade geral, é a ânsia constante do caminho mais rendoso, sem perceber seus próprios talentos e vocações.
Eu quero que meu sonho tenha o tamanho que caiba nas minhas mãos e que seu preço  não onere a ninguém. Que seja capaz de me proporcionar prazer a cada passo de sua realização, tendo a paz e a felicidade como companheiras de viagem, colhendo flores e frutos após a conquista do mesmo. Que me traga estabilidade emocional no seu todo e para sempre. Que eu não me torne, depois de muita luta, a escrava sem contento.
Quero galgar vagarosamente uma escada, sabendo  que cada degrau me conduzirá ao alto, tendo a certeza de que tal escada nunca desaparecerá de meus pés. Que eu me contente em sair do chão, valorizando paulatinamente o que consegui, e, ao olhar para trás, não veja ninguém caído.
Também se adiarmos o momento de viver o que sonhamos, corremos o risco de perder a energia que nos impulsiona nesta batalha, que poderá ser importante e decisiva em nossas vidas. Não podemos, portanto, descuidarmos do que acontece à nossa volta, isto é, de estarmos atentos às condições  favoráveis ao nosso empreendimento.
Como sempre existe o caminho desconhecido que poderá nos amedrontar, o que não  poderá nos faltar é coragem. Deus se encarregará de nos conduzir neste nosso querer, nesta busca e, sem que se perceba, chegaremos a mares nunca navegados.
Pois os caminhos sempre estarão abertos para todos. E é Deus, também, que se encarregará  de nos mostrar os limites e, antes de tudo, antes do sonho, eu tenho que ser EU.
Alguém disse um dia: “ se você não puder ser uma árvore no topo da colina, sinta-se bem sendo um arbusto no vale”.
O nosso sonho é único, carregado de esperança que nem sabemos de  quê, mas ansiamos por um dia abrimos a janela e vermos algo a mais. Embora não pensamos que, ao abri-la, nem sempre é ideal o que se vê.



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