Pág.8-Nº118-Set/09


Tema: Primavera

Depois de chorar as dores,
Tempo de podas sofridas.
Na primavera mil flores,
Desabrocham agradecidas.

Tema: Casa

Não adianta pintar por fora,
Pra linda a casa ficar.
Se em minha alma o luto mora,
Por alguém não mais voltar.

Tema:Vestimenta

Nenhum agasalho sustenta,
O frio que estou sentindo.
Não existe mais vestimenta,
Só lágrimas me cobrindo.

Tema: Opulenta

Você que se alegra e mora,
Na vida opulenta e rica.
Em sua derradeira hora,
Nada vai, riqueza fica.

 Aquela tarde de agosto dava a impressão de estar em plena primavera, de tão azul que era o céu e da brisa agradável balançando as folhas das árvores. Veio uma vontade imensa de ler um bom livro, desfrutando daquele espaço. Sentei-me no banco do jardim onde se encontra gravado a inscrição “Tipografia Souza”, que foi de meu pai. Naquele recanto, permaneci completamente isolada. É engraçado como poucas pessoas passam por ali.
Antes de começar a ler, fiquei a observar. Daquele lugar via-se todo o jardim. Ao meu lado esquerdo, estava a antiga escadaria que leva à Praça do Coreto, e, ao lado dela o imponente Jardim da Infância Clarinda Damasceno. Pareço ouvir a algazarra das crianças brincando no pátio, o piano da professora Maria do Carmo Soutinho tocando músicas infantis e as vozes das professoras iniciando os alunos no mundo do conhecimento e na arte teatral, surpreendendo os pais nas apresentações de seus filhos. Com olhar divagando para o outro lado, deparei-me com a beleza daquela árvore, pendendo suas flores amarelas como cachos de ouro, a acácia. Ali estava um lindo pedaço de minha Miracema, representado naquela aléia da Praça D. Ermelinda.
A brisa mais forte agitava as folhas das palmeiras, como se estivesse despenteando os cabelos de mulheres esguias, em toda sua elegância. Os fícus bem aparados, brilhavam com suas folhas tocadas pelo sol, bendizendo o tempo ali existente Então me dei conta do que estava fazendo ali. Abri o livro para ler.
Passado alguns minutos, ouvi um choramingo de criança vindo em minha direção. Era um menino reclamando, enquanto sua mãe o advertia do dever de casa que tinha pra fazer. Ele contestava, dizendo que só queria ler a “historinha e não escrever”. Imaginei que seria interpretação de texto.
Parei a leitura e deixe-me assaltar pela lembrança de uma viagem que fiz com meu pai a São Fidélis. Fomos fazer uma visita ao tio Aristóteles Caldas. Pra mim foi inesquecível. Ele morava com a família numa casa muito grande, com um comprido jardim lateral e um varandão. Atrás tinha uma cerca que dividia o pomar do jardim e ao fundo, o rio que corta a cidade, o Paraíba do Sul.
A casa era enorme, e ao lado da sala de estar havia uma biblioteca que encheu meus olhos de criança. Nunca tinha visto tantos livros juntos num só lugar. Perto da porta, uma “escrivaninha” e atrás dela, uma cadeira com um espaldar bem alto. Tio Aristóteles era irmão de minha avó Esmeraldina e do tio Aristobulo, avô de Cibele Caldas. Homem metódico e muito culto.  O que mais me encantou  foram os versos (poesias) que ele dizia e escrevia.
Chegamos quase na hora do almoço, pois tínhamos ido de trem. Fomos recebidos com muita alegria e logo à prima Telinha veio ao meu encontro, me levando pela mão, a fim de mostrar todos os lugares mais agradáveis da casa. Além dela, havia mais irmãos e entre eles somente um homem – Ataíde – mais tarde formou-se em advogado (pai do Dr. Carlos Esmeraldino Caldas, famoso cirurgião plástico, atuando no Rio e Niterói).
Os tios Aristóteles e Haidê eram extremamente agradáveis. Após o almoço, foram para a varanda conversar (os adultos) e nós crianças ficamos por ali no jardim. A tarde já se aproximava e o café do lanche foi servido, porque meu pai e eu tínhamos que voltar no trem da noitinha. Foi então que meu encanto aumentou pelo tio Aristóteles, quando ele declamou várias poesias (pra mim naquela época, eram “versinhos”). Fomos para a estação e de lá até aqui, conversei com meu pai, sempre o questionando: como o tio falava e escrevia tantas coisas bonitas? Quem ensinou a ele? Como eu poderia aprender? Coisas de CRIANÇA.
O trem apitava nas curvas, soltava baforada de fagulhas e estas esfriavam no ar, voltando como cinzas, sujando muitas vezes os passageiros. Recordo-me do meu pai usando guarda pó (era um sobretudo que colocava sobre o terno para preservá-lo da poeira e das cinzas do trem). Durante a viagem meu pai contava que várias pessoas da nossa família Caldas, eram poetas (então, para mim, os que faziam “versinhos”) e que também gostavam de escrever contos. Nessa conversa, ele me disse que quando jovem na época que colocou a gráfica nos anos vinte, também escrevia trovas para o jornal “O Buril” (1921). Naquela ocasião ele nunca me mostrou os seus escritos, dizia ter emprestado os exemplares a uma pessoa e não se lembrava mais a quem tinha sido.
Como disse Paulo Coelho na revista do jornal O Globo: “Não se mede o tempo como se mede a uma estrada, já que damos saltos gigantescos para trás (lembranças) e para  frente (projetos)”. E o tempo passou realmente pra mim, até uns anos atrás, a senhora Lúcia viúva do Tenente Ivonete Padilha, mandou-me entregar uns jornais que dizia só me interessar. Quando os recebi, voltei àquela viagem de trem, em que meu pai me contou que também escrevera algumas trovas em sua juventude. Nos jornais estavam os comprovantes.
Tudo isso me foi despertado pela conversa que ouvi daquele menino com sua mãe sobre querer apenas ler as “historinhas”, me fez parar  e relembrar. Por um milésimo de segundos, quase interferi na choraminga do garoto, para dizer-lhe como é importante ler e interpretar, pois foi assim que comecei a gostar de fazer “versinhos”. Mas, apenas acompanhei-o com o olhar e me vi novamente sentada na ponta da mesa de jantar na casa da chácara (devia ter uns cinco anos) contando para meu pai a historia da “borboleta amarelinha” que minha mãe tinha lido para mim. Como voltam as lembranças e nos fazem tão felizes quando nos é ensinado a valorizar o que ouvimos e aprendemos durante a infância. Uma infância bem estruturada nas ondas da música e românticas poesias ficam guardadas para o resto da vida.
O sol no mês de agosto ainda é um pouco frio e vai procurando o ocaso rápido, a brisa jogou para junto de mim uma folha desgarrada e me alertou que já estava na hora de sair daquele espaço tão sublime.
Sai dali, fui caminhando pela calçada e de repente passa pela rua, pedalando sua bicicleta, aquele homem honesto, amigo e discípulo de meu pai na gráfica: Chico da Gráfica (Francisco Sales)
Nisso tudo que escrevi, não podia deixar de incluí-lo e homenageá-lo como apaixonado por poesias e como as fala bem.
Chico da Gráfica, de memória brilhante que sempre nos faz lembrar grandes poetas, como nosso Gilberto de Carvalho e nosso inesquecível mestre Dr. Hermes Simões Ferreira.
Chico da Gráfica, quase ninguém fala seu nome: Francisco, que deve ter sido lhe dado em honra a São Francisco de Assis  protetor dos animais e da natureza, então, ele também foi um POETA.
Não imagina Chico, como foi para mim gratificante estar sentada naquele banco, naquela tarde com cara de primavera, ouvir as lamúrias daquele menino sobre o dever de casa, relembrar poesias ditas por familiares e poder guardá-las na alma. E pra finalizar aquele dia, Deus o colocou passando por mim, para que esta crônica tivesse um final como este.
Em lembrança ao meu pai que o respeitava como jovem, foi assim que você chegou à nossa gráfica, como adulto, foi se fazendo sob nosso teto, como funcionário, nunca chegou atrasado, nunca faltou e que sempre honrou o chão que pisou na Tipografia Souza. E nesta lembrança, eu lhe dedico uma das trovas de meu pai, do jornal: “O Buril”, órgão critico, humorístico e noticioso de publicação semanal, da propriedade do “Bloco Pega e Larga” (Formado por jovens de Miracema). Esta trova é do nº. 09, Miracema, 22 de maio de 1921 – Ano I, dedicado a minha mãe, quando a conheceu e também de sua volta do exército.

“Vou casar-me duas vezes!
Faça o mesmo quem quiser,
Já casei com minha pátria,
E, vou casar com quem me quer.”
Neguinho (apelido de
Nelson Thomaz de Souza - meu pai)


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