Pág.2-Nº139-Jun/11

    Ganhei, de um grande amigo,  alguns vasinhos de violeta. As roxas simbolizando a minha dor.
Coincidência ou não, vieram mais vasinhos com esta cor. A rosa em dois tons  me  sugere  sentir a beleza da vida que vem, explode e mora na natureza. Eu os coloquei em minha janela que ficou com um semblante diferente, bonitinho. As violetas transferem carinho e um sentimento de ternura que me envolve cada vez que vou visitá-las em sua nova residência.
    Não era o meu desejo que a minha casa se aparentasse triste como a dona. A janela da frente fica sempre aberta, com grade, exigência da época em que vivemos. É assim conservada para que circule  nos outros cômodos  o ar puro que emana da nossa Praça. 
    São vasos pequeninos, mas enchem a varanda de encantamento natural, deixando em nosso olhar mensagens simples entendidas por todos os que amam  a natureza, o belo. Os vasos maiores desaparecem diante das minúsculas belezas oferecidas pelas misteriosas violetas. Elas são as primeiras que chamam atenção quando alguém chega à nossa casa ou passa pela calçada.    
     Minha varanda é o meu jardim. É pequena, mas guarda um exuberante vaso de folhagem que alegra o verde vindo de outras plantas como a samambaia, os coqueiros e o meu estimado manacá que quando floresce cobre o meu espaço de poesia. As plantas sempre me oferecem um sorriso de saudade e compartilham comigo de todos os meus momentos: alegres ou tristes.
    Quem tem sensibilidade observa cada vasinho de violeta e pergunta logo: - O que você faz para que elas se conservem tão bonitas?  Respondo: - É muito simples. Coloco um copo com água gelada nos pratinhos de dois em dois dias e não as mudo de lugar.  Elas não gostam de serem  carregadas de um lado para o outro. Ofereço-lhes sempre o meu olhar de carinho,   converso um pouquinho, declarando o meu amor por cada uma delas. As outras plantas entram também em nosso colóquio diário.
    Fico pensando: Elas parecem com a dona que também prefere ficar quietinha no seu canto, curtindo cada cômodo da casa onde estão esparramadas as saudades que não são poucas.
    Entre os vasinhos de violeta, surgiu em meu pensamento uma  linda rosa. Ela é oferecida ao Fernandinho que distribui magnífi cas flores para ornamentar todos os nossos momentos: alegres ou tristes. E deixou a minha janela mais viva, mais atraente, mais cheia de cores, símbolo vivo da saudade que continua morando em minha janela.”

                           
             EDITORIAL

                                                              Ricarda Maria
 

        
                           Viver é saber lutar

        Em nossa pequenez pensamos: tudo poderia ser diferente. Mas, ao mesmo tempo, amarramos os fatos e compreendemos -   os espinhos existem. São eles que protegem as rosas.
      Pensando, refletindo, cedemos e sentimos que nem tudo pode ser conforme desejamos. E a aceitação nos convida a trocar os problemas por frequentes saídas. Só não existe solução para a morte. Assim, deixamos de  lado os  fracassos para  lembrar e edifi car em nossas lembranças as glórias construídas por nós.
      Não podemos desejar nunca um mundo sem lutas. Se tudo fosse perfeito, morreríamos. Sem os desafios não teríamos o que enfrentar e a monotonia, na certa, iria nos empurrar para dentro do poço do desânimo, sem projetos, sem ações.
      Viver é saber lutar, esperar, transformar, vencer todos os abismos existentes. Viver é sentir a maravilha de termos encontrado as soluções desejadas. E, se nós não a encontrarmos, outros momentos virão, outros sonhos tomarão conta da nossa vida. O importante é ter consciência de que a luta continua, não devemos desanimar nunca até que os sonhos se transformem em feliz realidade.
      Não podemos  esmorecer,  mas  balançar, acordar os nossos desejos na certeza absoluta de que todas as realizações dependem de nós. É preciso não só perceber, mas ter fé.
“Depois da noite vem o amanhecer”. Após o vendaval vem à brisa. O Outono chega e as folhas caem. A Primavera explode, enfeitando não só a natureza, mas o nosso interior com as mais lindas e perfumadas flores.

 
  

               Memória é a lembrança que alguém deixa de si, quando ausente ou
               após sua morte. Reminiscência é a imagem lembrada do passado ou
               fragmento que resta de algo extinto "(Houaiss)

 

       
                               O CACHORRO E O MAR
 

        Ao longe as embarcações aparecem imobilizadas sobre as águas.
À direita e à esquerda a mata atlântica se debruça sobre o mar com seu verde exuberante, fechada, sem caminho à vista.
As ondas envolvidas nas espumas vêm e voltam, ressoando intermitentes as pancadas na praia.
Solitário, sentado na areia, com os olhos fitos no mar sem fim, está o cão de pelo marrom e branco à espera interminável de alguém que um dia partiu. Em intervalos marcados pela intensidade da saudade, soturnos uivos rompem o silêncio e o melancólico som invade o mar à procura do seu destinatário.
Depois de muito esperar, como num ritual que se repete dia a dia, o cão se retira, sabendo-se que voltará no dia seguinte, na mesma hora matinal, na esperança de ver chegar aquele que partiu e, nessa vontade, antegoza o momento sublime, balançando o rabo e lambendo as próprias patas.
Também, em algum lugar, na montanha ou na praia, só e com os olhos perdidos no horizonte sem fim, sempre haverá um homem ou uma mulher à espera de alguém que partiu e, antegozando o desejado reencontro, como o cão enjeitado e faminto, se jogará nos braços ausentes e afogará os desejos no oceano de lágrimas derramadas pelos caminhos da desesperança.

 

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