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Velho Mestre
"Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam muitos anos, e são muito bons. E há outros que lutam a vida interia, estes são imprecindíveis." Brecht.
Alto, magro e já grisalho, eu o via freqüentemente às tardes na Praça Dona Ermelinda. Ele chegava com seu passo miúdo, andando com dificuldade, em direção a uma das esquinas para “bater uns papos” com os amigos. Os olhos de uma vivacidade ainda juvenil dançavam nas órbitas, observando e irradiando simpatia. No entardecer de sua vida ainda mostra sua sensibilidade esmerada, cumprimentando todos discreta e indistintamente. Quem o conheceu exercendo sua profissão se lembra de sua caligrafia perfeita e de sua arte na distribuição da matéria no quadro. Seu caminhar é o de um Septuagenário. O peso dos anos e o trabalho comunitário que desenvolvera durante sua vida tornaram-no cansado, mas ainda permanece uma aura de humildade que salta aos olhos e que o tempo não apagou. Uma grande simplicidade, o olhar calmo e a serenidade, chamam a atenção de todos. Passa quase despercebido por sua discrição. Vivendo em um país pobre e sofrido, destacou-se pelo talento e venceu pelo esforço. Rígido e exigente compartilhou com seus discípulos momentos de êxito e de dificuldades. Lutou por um ideal, agiu para melhorar outros homens, esforçou-se para transmitir seus conhecimentos que adquiriu com sacrifício e muita luta. Suas aulas que ensinavam a somar esforços, diminuir fracassos, multiplicar êxitos, dividir conhecimentos e equacionar problemas, orientavam seus alunos para as soluções exatas, as operações certas, as ações objetivas, evitando o erro que reprova. Especializou-se em um dos ramos mais difíceis da ciência, e dele fez seu apostolado. Perseverante e determinado nunca desanimou, acreditou no seu trabalho, realizou-se nele e viveu dele com dignidade. Sua vida foi de inteira dedicação ao ensino, a dedicação própria daqueles que têm uma missão a cumprir. Sabendo desde cedo que sem educação não há liberdade, procurou compartilhar com seus alunos o conhecimento da geometria e da álgebra, dos números e das equações, transmitindo a noção de que a verdadeira função do professor consiste em orientar o jovem desde cedo, combatendo a humilhação do analfabetismo para construir uma nação forte e poderosa, honesta e honrada Descobriu por conta própria ainda na mocidade que a falta da instrução leva à exclusão social, dificultando o direito à sobrevivência com dignidade e liberdade; que a falta do saber constitui um dos mais baixos degraus da dignidade humana, e que um povo pobre e mal orientado como o nosso acaba abraçando incontinente o lixo cultural que vem de países do chamado primeiro mundo. Foi aquele humilde professor do ensino médio e fundamental que lutou sozinho pela própria educação e que gostaria de ver na prática o crescimento cultural dos seus alunos, oferecendo a eles uma educação esmerada dentro de padrões éticos definidos. Gratidão, carinho, reconhecimento, é o mínimo que os estudantes e o povo de Miracema lhe devem. Homens como você, meu caro professor, são imprescindíveis. Receba estimado e insigne mestre José João Felicíssimo o meu abraço e a minha admiração pelo seu grande valor também como cidadão, extensivos a todos os seus abnegados colegas professores miracemenses indistintamente, que dignificam o ensino e que lutam incansável e obstinadamente para educar a juventude da nossa terra.
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| Brincando de ser Artista
Após ser alfabetizada, aquela menina começou a ser escolhida para dizer poesias, cantar ou representar. Era necessário que se valorizasse um pouco de arte nas Escolas. Explicar porque era ela a escolhida, não sei. Talvez por existir poucos talentos na precariedade das Escolas. Também nem ela mesmo sabia se possuía algum. Nem passava pela sua cabeça tal coisa, graças a Deus. Era apenas uma menina, humilde, lourinha, esforçada, entusiasmada e sonhadora. Eu sei que foi assim: Fez teatro amador durante sua infância e adolescência, satisfazendo-se no palco como amadora e tomava gosto pela grande emoção dessa arte. Era como se vivesse um sonho. Estar no palco dando cores a outras vidas, tendo novas oportunidades e, na mentirinha, tudo crescia em sua alma nunca repartida. Eram só de prazer aqueles momentos felizes. Um belo dia, não sei se levado por seus valores religiosos ou por falta de sensibilidade, seu pai lhe deu um basta: - Não vai mais fazer teatro, já está mocinha e isto não fica bem. Não se discutia antigamente. Só se obedecia e se acreditava no que lhe era imposto, embora, muitas vezes, frustrada e amargurada. O tempo passou, a menina cresceu e, no palco da vida, fez seu teatro real: namorou, casou, escreveu, pintou e, atenta aos sonhos até cantou. Nunca esqueceu, porém, a decepção de ter perdido a chance de desfrutar sequer, mais um pouquinho, do que conhecera no passado. Com as transformações da vida, a menina nunca se deixou levar pelo lado negro de sua alma que pudesse transformá-la numa infeliz sofredora. Mesmo porque, entre o desejo e a realidade, existia a incerteza de possuir os requisitos necessários para artista. Só sabia que o desejo era maior. Representar é viver o sonho de se reinventar, de se entregar a outro mundo cheio de magia numa convivência momentânea de interação completa entre o palco e o público. A rotina pode perdurar por toda a vida, mais a alma tem que estar apta à renovação e despertar para o que lhe faz bem. Na idade adulta, a menina teve a sorte de poder sempre que possível, freqüentar teatros e agradecida, isso lhe satisfazia afinal. Aos setenta e um anos alguém bateu à sua porta lhe dizendo: -Quero que você faça o papel de Emília na peça da terceira idade. -O quê?Não podia ser verdade!Subir ao palco e brincar de ser artista?! Fazer logo o papel de Emília? Menina, sapeca, boneca, mentira! E o sonho de sonhar tornou-se realidade. Concluindo: De mil maneiras escrevemos poesias Com mil palavras demonstramos emoções Tantas maneiras nos damos a ver quem somos Na realidade como estamos e pensamos. De outras tantas bem ou mal interpretados Isso não importa, é natural, é coisa nada Levar a vida dividida, esfacelada Não oferece o que queremos nesta estrada. Tornar veredas mais amenas e agradáveis Tentando de mentira nova vida Distorcê-la da forma que foi escrita No palco, brincando de ser artista.
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