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Tema: Água
Eu sei, não há nada igual, Como água que bebemos. Se acaba morte total, É um alerta: Preservemos
Tema: Terra
Se a Terra tivesse fala, Gritaria os seus lamentos. Mas sua beleza se cala, Pra enfeitar nossos momentos
Tema: Natureza
Mãe Terra, Mãe Natureza, O progresso te invade. Ninguém pensa na tristeza: Amanhã serás saudade.
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“Cantando as razões fantásticas de se estar na vida”, frase do colunista Hamilton Vaz Pereira do Jornal O Globo, me fez refletir. Realmente a vida está sempre a avisar-nos e para que tudo aconteça, devemos estar prontos para receber o que vem dela. Por tudo isso, é que numa manhã tranquila fui à Igreja Matriz e após orar comecei a observar minuciosamente seus detalhes e eles foram saltando aos meus olhos. Cada um fazia com que eu voltasse nas datas e épocas. Me surpreendi. Quantos anos esse templo me acolhe e presencia minhas preces de agradecimentos, alegrias, saudades, tristezas, preocupações e, sobretudo a minha vida espiritual. Observando o altar principal, via Santo Antônio com tranquilidade parecendo contar fatos de minha história presenciada por Ele durante tantos anos. Fui olhando os altares. No altar mor, senti falta da mesa da comunhão que o separava do corpo da Igreja. Era toda torneada, de madeira de lei. Para receber à Sagrada Hóstia ele era coberto por toalhas de linho e renda. Mais tarde, colocaram sobre a mesma uma comprida pedra mármore. Houve mudanças e ele foi retirado, apenas as duas portinhas se encontram na Casa da Cultura. Dirigi meu olhar para os altares laterais. Não sei quantas vezes ajudei Climene Moreira arrumar as flores no de Santa Terezinha. Não sei quantas vezes na infância meus olhos se enchiam de lágrimas ao ver o busto de São Tarcísio. Não entendia o porquê dele não ter corpo como as demais imagens. Dezenas e dezenas de vezes aos pés de Nossa Senhora das Dores ficava com vontade de chorar ao sentir seu olhar de tristeza e ao mesmo tempo tinha medo d’Ela falar comigo (criança cria cada coisa que não se explica) e então corria para junto de minha avó. Nessa manhã, fui novamente a seus pés e confirmei o que sentia. Chorei com Maria Santíssima, mas, de alegria, de poder ali estar a tantos anos e vê-la acompanhar Seu Filho Jesus pelas ruas de nossa cidade. O som da matraca e o canto de Maria Madalena aumentavam a tristeza que invadia minha alma infantil e então segurava forte na mão de minha mãe, como pedindo ajuda para aliviar o que sentia. Caminhei até a porta principal, sentei-me no último banco e olhei o teto. Aquela abóboda pintada de azul, contornada de dourado me trazia paz. Com isso podia descerrar a cortina das lembranças e enxergar mais além. Olhando para o lado direito, através da porta, embora fechada, visualizei a escadaria em caracol que dá acesso ao coro. As ladainhas de maio vieram tomar conta da minha mente na recordação da voz de D. Zilda Gonçalves entoando o “Tantum ergo” e nos hinos religiosos emitidos pelo órgão tocado por D. Marisa Damasceno. Tudo isso enchia de espiritualidade a Igreja que deixou em minha lembrança o cheiro de incenso, marcando a saudade de um tempo e também a razão fantástica de estar vivendo. Minha alma procurava nos cantos da Matriz e nos bancos, que eram diferentes no meu tempo de criança, mais e mais recordações. De repente, em um canto, junto ao altar de São Sebastião, vi o PÚLPITO todo esculpido, imponente, em um belo trabalho de marcenaria, de onde os sacerdotes faziam a Homilia. Na época de criança, nosso pároco era o Padre José Nicodemos. Homem alto, porte elegante e grande orador. Quando falava do púlpito encantava, porque passava a palavra de Deus de maneira que todos entendiam e respeitavam. Recordo-me bem. A senhora Dorvila Barbi Moreira morava no número setenta, da Rua Flores, em frente minha casa. Naquela ocasião, ela fornecia refeições para o sacerdote. Muitas vezes brincando com sua filha Magali Moreira, sabíamos que o Padre estava chegando, pois na Matriz o relógio batia onze horas e ele era pontual, também pelo perfume que usava. Íamos correndo lhe pedir a benção e ele em brincadeira dava um “coque” em nossa cabeça, dizendo ser em nome do nosso Anjo da Guarda. Padre José Nicodemos era homem de atitude, foi ele que tomou providência no triste acontecimento da morte dos dois prisioneiros da Cadeia Pública de Miracema. Eles trabalhavam com enxada, abrindo o campo de aviação e morreram de apanhar para que fossem rápidos. Padre Nicodemos procurou os políticos da época e com um abaixo assinado do povo ao Governador, pediu a demissão do Tenente Coaraci que era o Delegado, transferindo-o para Niterói. Após vários anos, o Padre partiu daqui para o Rio de Janeiro e foi ser Capitão Capelão do Exército. Substituindo-o, chegaram o Padre Joaquim Taumaturgo e sua irmã Zizi. Ele adquiriu um apelido de “toma tudo”, porque era “pidão” como diziam. Fumava charuto, andava depressa e nem se importava como o chamavam, pois pedia mesmo para a Igreja e sempre conseguia. Nos domingos, quando subia no púlpito para pregar o Evangelho o final todos já esperavam, era: pedir, pedir e pedir. Ninguém se aborrecia, até achavam graça da naturalidade dele ao fazer. Após lembrar tudo isso, no mesmo instante perguntei a mim mesma: Pra onde foi o Púlpito? Por que não valorizavam o que fazia parte da história da Igreja? Conservar essas obras seria mostrar atualmente aos jovens e aos visitantes que nosso povo é cultural, mas, infelizmente não as guardaram. Meus olhos continuaram procurando e minhas lembranças trouxeram à tona os “confessionários”. A Igreja mudou, evoluiu e essas peças não são mais utilizadas. Se não me engano, eram três ou quatro. Essas relíquias artesanais que faziam parte do patrimônio da Matriz foram testemunhas da vida de centenas de pessoas que neles se ajoelhavam e aliviavam suas almas ao depositarem seus pecados aos pés de Deus, através do sacerdote. Felizmente um deles se encontra na Casa da Cultura Melchiades Cardoso, graças ao conhecedor e amante da cultura, Marcelo Salim. Fiquei um tempo ainda a questionar: por que essas peças não permaneceram num compartimento da igreja como um pequeno museu? Por todos os templos que você vai, seja na Europa, América e aqui no nosso querido Brasil, encontramos preciosidades de centenas de anos, que não ocupam lugar, pelo contrário, ajudam a contar a história da religião do lugar. Permaneci sentada e olhando mais uma vez para cima, o vi pendurado seguro no teto por uma grossa corrente: o brilhante lustre de cristal que ilumina nossa Igreja há tantos e tantos anos. Sempre quis saber o número de contas que o compõe. Em criança deitava no banco e tentava contá-las, enquanto minha avó rezava. Nunca consegui. Ora dormia ou despertava com o desfiar do terço, terminando a ladainha. O relógio da Matriz bateu marcando dez horas daquela manhã e me fez despertar de lembranças tão sublimes. Então senti que ele fazia parte também da Casa de Deus e pela vida vinha marcando minhas horas de cantar as “razões fantásticas” de viver.
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