Pág.2-Nº120-Nov/09
                       

             

        
 
                             Ao lado da varanda de minha casa existe um muro. Sobre ele uma nesga de terra se posicionava
sem vida, sem importância. De repente, tudo se modificou, pois naquele espaço foi edificado um
pequenino canteiro. As mudinhas foram logo plantadas e o verde transformou o ambiente na
benfazeja e vivificante esperança. As flores pouco a pouco começaram a desabrochar, espalhando
cores naquele cantinho que se tornou encantado aos olhos de todos os que descobriram nele a
vida que surgia.
  Acontece que algumas pessoas não estão preparadas para a conservação do belo ou para
sentir a poesia existente na natureza. Contagiadas pela beleza das flores, iam logo arrancando as
mudinhas. O canteirinho foi acabando e aquele pedacinho tornou-se novamente sem importância,
feio, triste, sem vida.
  O responsável pela organização daquele pequeno mas agradável ambiente, não desanimou,
continuou a recriar a realidade desejada por ele e recomeçou o replantio. Ele obedeceu todos os
cuidados para a reorganização de um jardim, mesmo sabendo que se tratava de um só canteirinho
e com o risco de ser novamente exterminado.
  De acordo com o pequeno espaço, selecionou novamente vários tipos de plantas rasteiras e
as pequeninas flores foram cuidadosamente organizadas de acordo com as suas variadas cores.
Montinhos coloridos salpicaram beleza para que os beija-flores e as singelas borboletas pudessem
perceber a carinhosa surpresa.
  Continua um zelo só. Todos os dias, esse alguém cuida daquele santuário que graças à sua
boa vontade, ao amor pela natureza o milagre voltou a acontecer. Oferece feliz a sua constante e
dedicada presença para que as plantinhas continuem vivas.
  O canteirinho está realmente lindo, simpático, florido e tomei a liberdade de chamá-lo “nosso”,
pois todos os dias eu fico namorando, tomando conta e percebendo com alegria que mais flores
já desabrocharam.
  Ele deu atenção à arte de recomeçar sabendo que “A paciência traz mais frutos do que a força”.
Resta-nos pedir a todos que não arranquem mudinhas. Se for da vontade de alguém adquirir alguma
espécie, o dono do pequeno jardim promove logo uma entrega serena e amigável de um ou mais
galhinhos. É só pedir. Ele sabe muito bem que quanto mais mudas forem espalhadas, mais a natureza
se mostrará enfeitada e agradecida, presenteando a nossa vida com a beleza sempre renovada.
  Aprendi com Maurício Moreira, autor desse lindo canteiro, que: “Onde há uma vontade, há um
caminho”. E o dele e o dos vizinhos estão enfeitados de ternura e encantamento. Todos continuam
expressando uma especial alegria por viverem essa reconfortante festa que a natureza oferece como
sinal visível de constante gratidão.
  Nossos agradecimentos com louvor e dentro deles uma rosa imaginária desabrocha toda cercada
pelas flores que ele mesmo plantou. E ela é hoje dedicada a você, Maurício! Ricarda Maria



          

                        

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Editorial

                              

  
                                  A PRESENÇA DA SIMPLICIDADE

 Quando a simplicidade se faz presente em nossos momentos, temos sempre a certeza de que
somos felizes. Transformamos o que é opulento e sofi sticado, na ingenuidade que se transforma
na verdadeira e sublime sabedoria. Passamos a perceber em todos os lugares o valor das pequeninas
coisas e, também, dos simples fatos que constroem a nossa história: o sorriso de uma criança,
o olhar penetrante e sábio de um idoso, a liberdade contagiante de um jovem, o entrelaçamento
entre as famílias, a presença confortante dos vizinhos, as paisagens interioranas embutidas nas
saudades.
Se esse comportamento reside dentro do ser humano, a ambição de ser o primeiro ou de ter
um lugar de honra, não oferece a ninguém chances de crescer e de melhorar o universo interior. Só
existe espaço para a morada de bagagens supérfl uas, pesadas de vaidade. A alma e o pensamento
são preenchidos pelo atoleiro da miséria humana que é a vaidade.
É necessário sempre reciclar os nossos momentos transformando a fama, o desejo de aparecer,
de ser notado, de ser ou ter mais, pela doçura incomparável da simplicidade. Só ela constrói a
pureza, escreve a história que todos entendem, gostam e fazem questão de participar dos enredos
que a compõem.
O mundo de cada um não deve somente receber a visita da modéstia, mas fazer dela um inquilino.
Assim, imitaremos a natureza que sempre mostra no silêncio todas as suas maravilhas,
roupagens plenas de pureza e de SIMPLICIDADE.  
                                                                                                                          Ricarda Maria




                          

               Memória é a lembrança que alguém deixa de si, quando ausente ou
               após sua morte. Reminiscência é a imagem lembrada do passado ou
               fragmento que resta de algo extinto "(Houaiss)

       

 

     

   As empregadas domésticas nos idos de 1940 e 1950, assim como nas décadas anteriores, agregavam-se às famílias, numa tradição que vinha das mucamas. Fossem cozinheiras/arrumadeiras ou pajem, tomavam partidos nos conflitos familiares dos patrões (ainda que não revelados) e exteriorizavam suas preferências pelas crianças da casa. Lembro-me da Marta, negra bonita, integrante de uma prole de oito (8) irmãs. Suas características marcantes, além da beleza física, eram a bondade que seu sorriso revelava e a paz que sua calma impunha. Em Miracema, naquele tempo, havia o serviço de alto-falante da Prefeitura – PM 4, que transmitia informações e músicas. Após a transmissão da Voz do Brasil, reiniciava-se a programação musical que atendia a pedidos formais para homenagear aniversariantes, namorados, amigos e parentes. A atividade encerrava-se às 21 horas. Quando completei dez (10) anos de idade, o bolero Assim se passaram dez anos fazia muito sucesso nas rádios, na versão cantada por Emilinha Borba. Naquela noite, já tão distante no tempo, ouvi o locutor da PM 4 anunciar (a memória não conseguiu identificar se Chiquito, Sebastião Couto ou Mocinho): “ A pedido, vamos ouvir, em homenagem a José Geraldo, o bolero Assim se passaram dez anos”. Este foi o presente da Marta. O único daquele meu aniversário que ficou para sempre na minha memória.

                                                                                                   José Geraldo Antonio

 
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