Pág.4-Nº106-Set/08
                                                                          

Mágica

 Tudo em nossa vida é mágica, sei...
 Milhares e milhares eu calculo.
 Atrás das nuvens se esconde o astro-rei,
 A borboleta dentro do casulo.

 As cascas guardam os gostosos sabores,
 Todas as sementes na terra são vidas,
 O néctar escondido nas flores.
 A pimenta oculta essências ardidas.

 Os pensamentos são cofres - segredos.
 Dentro do olhar existem tantas chagas,
 A vida não nos mostra o seu enredo.
 É no coração que o amor se propaga.

 As pessoas não demonstram o que são.
 Não há verde nas folhas sem a clorofila,
 Uma palavra se torna agressão.
 
 Também o sonho só nasce em cartola,
 É só emoção, esperança vai em fila,
 Mágica-amor que jamais desconsola.

 


                             
O XANGÔ DE BAKER STREET:

       um romance policial às avessas ( parte I)

  Na contemporaneidade, o “olhar diferente”, daquele que sempre esteve à margem do chamado “cânone cultural”, perdeu o vínculo de subordinação que o mantinha distante e sem voz. A eliminação das fronteiras bem definidas que delimitavam o espaço do mesmo e do outro, conjugada à desconstrução dos pilares rígidos em que se apoiavam os estudos literários fez emergir indagações poderosas e imperiosas de grupos “minoritários” que compunham um contexto periférico e subalterno.
  Nesse espaço de indagações cada vez mais pertinentes, a historiografia e a crítica literária contextualizaram-se e passaram a contribuir de forma mais eficiente para uma descolonização cultural iminente.
  A fim de aprofundar e de estudar mais de perto a questão do discurso periférico partimos da análise do processo de carnavalização enquanto ruptura de paradigmas bem estruturados e que possibilitam uma nova visão sobre os discursos subalternos.
  O tema deste ensaio consiste na análise do processo de carnavalização, bem como de uma nova visão sobre os discursos subalternos, valendo-se do romance O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, que a partir dos mecanismos de reescritura e apropriação modificadora, promove a descolonização cultural.
  Ambientado em 1886, o romance O Xangô de Baker Street, de Jô Soares se passa durante a primeira e cultuada turnê da legendária Sarah Bernhart ao Brasil em plena Bella Époque tropical. Caracterizado como romance policial, o presente texto tem como cenário a elaborada reconstituição de uma época na qual encantos ingênuos e pitorescos faziam parte de um Brasil com sabor europeu. Porém, neste quadro, a cidade do Rio de Janeiro europeizada, serviu apenas como palco para uma narrativa nitidamente contemporânea.
  O romance O Xangô de Baker Street consiste numa trama marcada pela mistura de realidade, de fatos históricos e de ficção, ou seja, que se vale de “empréstimos” de personagens, como por exemplo, do famoso detetive Sherlock Holmes, de Conan Doyle, para desvendar assassinatos no Brasil.
  Nesta narrativa os valores de uma nação interagem com os de outra modificando hábitos e costumes e este diálogo cultural precisa dar conta de uma complexa rede intertextual de culturas diversas. Neste caso, as apropriações modificadoras aparecem para subverter a ordem estabelecida possibilitando que a voz do subalterno possa ter lugar num processo de carnavalização do gênero policial, de personagens reais e fictícios e da própria História do Brasil em fins do século XIX.
  Em tempos passados, quando a influência eurocêntrica atingia as produções periféricas em grau mais acentuado, o romance policial, mesmo aqueles produzidos e publicados nos grandes centros europeus, também eram considerados literatura marginal. Ainda que um autor como Conan Doyle tivesse expressão de vendagem e grande aceitação por parte dos leitores que compunham a massa, sua literatura nunca foi considerada como nobre para os padrões europeus. No entanto, na contemporaneidade, com o dissolvimento das margens e fronteiras, o romance policial precisa ser visto sob um novo ângulo e o romance policial brasileiro sob uma ótica bastante instigante. Esse assunto promete ser bem interessante e profícuo, por isso continuaremos na próxima coluna. Até!!!

 
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