Pág.8-Nº120-Nov/09


Tema: Alma

Quanto mais o tempo passa,
Mais a sua vida transcende.
A saudade voa e laça,
A sua alma à minha prende.

Tema: Finados

Finados, saudade acorda,
Desce lágrima dorida.
Minha dor na pedra borda,
Início e fi m de uma vida.

Tema :Flores

Na calçada tantas fl ores,
Esperam ser abraçadas.
E vão com soluço e dores,
Deixar saudades gravadas.

Tema: Chuva

A chuva mostra tristeza,
Chora com a extinção sentida.
Lágrimas da natureza,
Ao ver a Terra agredida.

  À noitinha, na trilha paralela ao milharal, seu
Zequinha andava apressado em direção àquilo que ele
chamava de sua casa. À sua frente, rodopiavam com
o vento folhas já envelhecidas e secas, indo ao seu
encontro sem cerimônia. Enquanto isso, por de trás do
cafezal, a lua começava a mostrar sua luz para mais
tarde iluminar todos os cantos.
  Ao chegar à porteira, foi saudado pelo Manhoso um
cão branco malhado de marrom que latindo chamou a
atenção das pessoas da casa. A porta aberta, deixava
aparecer lá dentro uma lamparina acesa em cima da
mesa. Entrou, já dando ordens para que sua irmã pusesse
água no fogo para ferver. Em seguida, foi ao quarto,
onde deitada numa enxerga com esteira a mulher pálida,
suando e amedrontada lhe dirigiu o olhar e ele apenas
disse: - Ele já tá chegando. Daí a instantes, ouviu-se o
tropel de cavalo e logo entrava na casa o farmacêutico
Emiliano, com seu terno de linho branco, chapéu e
uma valise que lhe era indispensável. Foi logo tirando
o paletó e lavando as mãos numa bacia de ágate bem
descascada, mostrando o tempo de uso.
 Dentro do quarto, a batalha foi travada entre o
farmacêutico e aquele que estava querendo ver à luz da
vida. Foram horas de espera. Aos poucos chegaram as
comadres rezadeiras e na sala, se é que se podia chamar
de sala. Elas com ramos de arruda benziam os cantos e
a porta do quarto. Depois, ajoelhadas desfi aram o terço
e a cantoria a Nossa Senhora do Parto.
  Após três horas de luta para chegar ao mundo, o
menino chorou dando mostras de quanto queria viver
e enfrentar seu destino.
  O farmacêutico Emiliano pernoitou ali na casa. Era
assim que seu Zequinha a chamava. Ela era feita de
pau-a-pique coberta de sapê, com apenas três cômodos,
rodeada de sempre-vivas coloridas e uma grande
fi gueira que dava sombra servindo para os bem-te-vis
fazerem ninhos. Para ele era sua mansão, ou melhor,
seu castelo. Tinha sido construída pelas próprias mãos
e com amor a Mariquinha. Morena bonita de olhos
verdes e duas tranças que naquele momento lhe dava a
continuidade de seu viver: seu fi lho.
  Dona Mariquinha tinha sofrido muito e o cansaço
dela e do farmacêutico Emiliano não deu para acordálos
cedo, ao clarear o dia com a sinfonia das cigarras.
O sol já havia despontado e começava a aquecer todo
o fi rmamento.
  As comadres rezadeiras fi caram também para uma
ajuda porque o seu Zequinha já tinha partido para a
lida no roçado.
  O tempo passando, o menino crescendo e o
farmacêutico sempre a cavalgar, atendendo: um aqui,
outro acolá; fora aos domingos em que sua farmácia
no sítio enchia-se de gente para consultar e conversar e
como pagamento de seu atendimento recebia galinhas,
porcos, cestas com frutas. Tudo era signifi cado de
alegria, pois ele tinha escolhido seu destino que era
servir em sua profissão e naquele lugar, chamado
Belmonte.
  Belmonte, um belo elevado onde a casa do Emiliano
ficava bem no alto. Dali podia-se ver a várzea lá
Novembro de 2009
embaixo, que mostrava um verde luminoso quando
plantada de arroz e depois tornava-se dourada, quando
os pendões começavam a amadurecer. Durante o
inverno, via-se pouco essa beleza, pois fi cava encoberta
pela neblina, principalmente na parte da manhã. À noite,
mesmo no escuro com o brilho da lua, ela resplandecia
com as gotículas do orvalho.
  Um lugar grandioso em beleza e no carinho do
Velho Emiliano, assim ele era chamado. É para ser
guardado na lembrança, juntamente com seu cavalo
branco “Gaúcho”, sua risada gostosa que enchia aquele
recanto nas horas de folga e dos “causos” dos compadres
e amigos.
  O menino que nasceu naquela noite, como muitos
outros, recebeu o nome do farmacêutico e também
tornou-se seu afi lhado. Há muito tinha se mudado
daquele lugar, não dando mais notícias fazia tempo.
Mas, outros foram nascendo e povoando a redondeza
e a vida... passando.
  Um dia, o Velho Emiliano foi a Itaperuna e devido
à idade resolveu mudar-se para lá. Nas idas e vindas do
seu viver, precisou de uns exames e teve que se internar
para fazê-los. Para isso, mandaram um enfermeiro
recolher o material necessário. De repente, ele encarou
o farmacêutico e abriu um imenso sorriso, exclamando:
“- Padrinho”! Os dois se abraçaram e o afi lhado contou
todas suas andanças pelo mundo até se tornar enfermeiro
e também que em breve seria pai. A amizade foi se
fortifi cando, até que fi nalmente chegou o dia do novo
ser nascer e para surpresa do Velho Emiliano, o afi lhado
em agradecimento o convidou para assistir seu fi lho
ver à luz da vida. O farmacêutico emocionado chorou
pela primeira vez, não imaginando quantos colocou no
mundo, sem ter tido a oportunidade de sentir a emoção
daquele momento, por causa da preocupação em cuidar
também das mães. Ele sempre contava como se sentia
feliz em ter podido ajudar tanta gente, e deixar dezenas
de afi lhados espalhados pelos lugares próximos.
  Ao Velho Emiliano que viveu num lugar tão
bucólico e cheio de lembranças, de alegrias, de saudade
dos belos dias no Belmonte dedico-lhe esse simples
poema, retratando realmente o seu interior e aquele
lugar que não me sai do pensamento.
 
  Ao primo e amigo Velho

  Uma vida de lutas constantes,
  Sempre pensando em servir alguém
  Criou família, raízes na terra
  Tudo enfi m para fazer o bem.
  Velho no nome, porém alma infantil
  Na alegria perene de viver
  Enfrentou barreiras, mas sempre altivo
  Não importando o que poderia ter.
  Agora no Belmonte tudo é triste
  Não ouve mais o Velho a gargalhar
  Dorme tranquilo lá no alto da colina
  Deixou saudades para os que souberam amar.
 
  Lembranças doces e eternas...   

 
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