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À noitinha, na trilha paralela ao milharal, seu Zequinha andava apressado em direção àquilo que ele chamava de sua casa. À sua frente, rodopiavam com o vento folhas já envelhecidas e secas, indo ao seu encontro sem cerimônia. Enquanto isso, por de trás do cafezal, a lua começava a mostrar sua luz para mais tarde iluminar todos os cantos. Ao chegar à porteira, foi saudado pelo Manhoso um cão branco malhado de marrom que latindo chamou a atenção das pessoas da casa. A porta aberta, deixava aparecer lá dentro uma lamparina acesa em cima da mesa. Entrou, já dando ordens para que sua irmã pusesse água no fogo para ferver. Em seguida, foi ao quarto, onde deitada numa enxerga com esteira a mulher pálida, suando e amedrontada lhe dirigiu o olhar e ele apenas disse: - Ele já tá chegando. Daí a instantes, ouviu-se o tropel de cavalo e logo entrava na casa o farmacêutico Emiliano, com seu terno de linho branco, chapéu e uma valise que lhe era indispensável. Foi logo tirando o paletó e lavando as mãos numa bacia de ágate bem descascada, mostrando o tempo de uso. Dentro do quarto, a batalha foi travada entre o farmacêutico e aquele que estava querendo ver à luz da vida. Foram horas de espera. Aos poucos chegaram as comadres rezadeiras e na sala, se é que se podia chamar de sala. Elas com ramos de arruda benziam os cantos e a porta do quarto. Depois, ajoelhadas desfi aram o terço e a cantoria a Nossa Senhora do Parto. Após três horas de luta para chegar ao mundo, o menino chorou dando mostras de quanto queria viver e enfrentar seu destino. O farmacêutico Emiliano pernoitou ali na casa. Era assim que seu Zequinha a chamava. Ela era feita de pau-a-pique coberta de sapê, com apenas três cômodos, rodeada de sempre-vivas coloridas e uma grande fi gueira que dava sombra servindo para os bem-te-vis fazerem ninhos. Para ele era sua mansão, ou melhor, seu castelo. Tinha sido construída pelas próprias mãos e com amor a Mariquinha. Morena bonita de olhos verdes e duas tranças que naquele momento lhe dava a continuidade de seu viver: seu fi lho. Dona Mariquinha tinha sofrido muito e o cansaço dela e do farmacêutico Emiliano não deu para acordálos cedo, ao clarear o dia com a sinfonia das cigarras. O sol já havia despontado e começava a aquecer todo o fi rmamento. As comadres rezadeiras fi caram também para uma ajuda porque o seu Zequinha já tinha partido para a lida no roçado. O tempo passando, o menino crescendo e o farmacêutico sempre a cavalgar, atendendo: um aqui, outro acolá; fora aos domingos em que sua farmácia no sítio enchia-se de gente para consultar e conversar e como pagamento de seu atendimento recebia galinhas, porcos, cestas com frutas. Tudo era signifi cado de alegria, pois ele tinha escolhido seu destino que era servir em sua profissão e naquele lugar, chamado Belmonte. Belmonte, um belo elevado onde a casa do Emiliano ficava bem no alto. Dali podia-se ver a várzea lá Novembro de 2009 embaixo, que mostrava um verde luminoso quando plantada de arroz e depois tornava-se dourada, quando os pendões começavam a amadurecer. Durante o inverno, via-se pouco essa beleza, pois fi cava encoberta pela neblina, principalmente na parte da manhã. À noite, mesmo no escuro com o brilho da lua, ela resplandecia com as gotículas do orvalho. Um lugar grandioso em beleza e no carinho do Velho Emiliano, assim ele era chamado. É para ser guardado na lembrança, juntamente com seu cavalo branco “Gaúcho”, sua risada gostosa que enchia aquele recanto nas horas de folga e dos “causos” dos compadres e amigos. O menino que nasceu naquela noite, como muitos outros, recebeu o nome do farmacêutico e também tornou-se seu afi lhado. Há muito tinha se mudado daquele lugar, não dando mais notícias fazia tempo. Mas, outros foram nascendo e povoando a redondeza e a vida... passando. Um dia, o Velho Emiliano foi a Itaperuna e devido à idade resolveu mudar-se para lá. Nas idas e vindas do seu viver, precisou de uns exames e teve que se internar para fazê-los. Para isso, mandaram um enfermeiro recolher o material necessário. De repente, ele encarou o farmacêutico e abriu um imenso sorriso, exclamando: “- Padrinho”! Os dois se abraçaram e o afi lhado contou todas suas andanças pelo mundo até se tornar enfermeiro e também que em breve seria pai. A amizade foi se fortifi cando, até que fi nalmente chegou o dia do novo ser nascer e para surpresa do Velho Emiliano, o afi lhado em agradecimento o convidou para assistir seu fi lho ver à luz da vida. O farmacêutico emocionado chorou pela primeira vez, não imaginando quantos colocou no mundo, sem ter tido a oportunidade de sentir a emoção daquele momento, por causa da preocupação em cuidar também das mães. Ele sempre contava como se sentia feliz em ter podido ajudar tanta gente, e deixar dezenas de afi lhados espalhados pelos lugares próximos. Ao Velho Emiliano que viveu num lugar tão bucólico e cheio de lembranças, de alegrias, de saudade dos belos dias no Belmonte dedico-lhe esse simples poema, retratando realmente o seu interior e aquele lugar que não me sai do pensamento. Ao primo e amigo Velho
Uma vida de lutas constantes, Sempre pensando em servir alguém Criou família, raízes na terra Tudo enfi m para fazer o bem. Velho no nome, porém alma infantil Na alegria perene de viver Enfrentou barreiras, mas sempre altivo Não importando o que poderia ter. Agora no Belmonte tudo é triste Não ouve mais o Velho a gargalhar Dorme tranquilo lá no alto da colina Deixou saudades para os que souberam amar. Lembranças doces e eternas...
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