Velha, desgastada pelo tempo, ela permanece esguia. Suas palmas sempre tocadas pela brisa balançam muitas vezes enlouquecidas, procurando chamar a atenção. Seu tronco já carcomido pelos tantos anos de vida não perde a elegância, mantendo sua imponência, marcando a história da Praça D. Ermelinda.
Ultimamente venho observando-a e a percebo tristonha, embora o sol a enriqueça com seu calor e o riso das crianças que brincam ao seu redor, mesmo assim, ela parece isolada. Fico a olhá-la. Lá do alto, suas palmas sacodem e vez ou outra cai uma delas, sem vida, como um pedido de socorro.
Os que ali passam não entendem ou não querem entender que ela pede ajuda, atenção e está lutando para se manter de pé.
E, assim, os dias vão seguindo seu rumo. A criançada continua fazendo algazarra à sua volta, os balanços rangem, o som e a alegria da inocência nos brinquedos fazem a marca daquele espaço. Quantas confidências ela ouve daqueles que sentam no banco a seu pé! Quantas alegrias, encontros de amigos, tristezas, o vento leva até suas palmas! Ela solidária, guarda tudo como segredos. Quantas pessoas passam por ela e vão em frente sem ao menos lançar um olhar para aquela que faz parte do belo conjunto de palmeira! Muitas de suas companheiras também não estão aguentando o tempo e começaram dar sinais de envelhecimento, mas ainda não apresentam o aspecto triste e solitário daquela que é a primeira de muitas.
Um domingo desses fui à Praça. Sentei-me no banco em frente a ela para acariciá-la com o olhar e vi com surpresa que apresentava umas palmas novas e embaladas pelo vento parecia cantar uma bela cantiga de amor.
Fiquei intrigada, seria para quem? Fui olhando ao redor e me deparei com o canteiro atrás de mim cercado de pequenas rosas e bem à sua frente um IPÊ, ainda bem acanhado, começando a florir, com dois lindos ramos cor de rosa.
As flores começavam a abrir e chamavam a atenção pela sua beleza. Então vi que a palmeira tinha se apaixonado por ele. Senti que ela estava se renovando e suas palmas batiam desordenadas como aplaudindo o IPÊ pela sua juventude e seu desabrochar.
No ar, veio um perfume de vida nova, poesia, que me fez imaginar e criar uma cena de amor. Só saí daquele embevecimento quando da aproximação da Tana (Sebastiana Guedes) que chegou ali para admirar o IPÊ e me contou como ele fora plantado naquele lugar pelo Rotary Club. Ela o vigiava sempre e estava feliz em vê-lo florescendo. Disse-me que acompanha o seu crescimento e naquele instante, senti que o IPÊ agradecia com a beleza de suas flores àquela que ia visitá-lo todos os dias. Veio uma aragem de repente e ele jogou várias delas no chão.
Ali, ficamos conversando por alguns instantes e quando nos despedimos, caminhei em direção à palmeira. Coloquei a mão em seu tronco e pareceu-me sentir sua pulsação. Em seus vasos a seiva corria rápida levando nutrientes para suas palmas. Percebi que ela queria viver mais para poder presenciar ainda por muitos anos o IPÊ florir. Foi um sentimento puro e apaixonado, como se a palmeira ao vê-lo jovem, lutando para crescer, mostrando sua beleza através do tempo que a fizesse ter vontade de viver enquanto puder.
Saí dali, vendo como o amor muda e dá forças àqueles que dele necessita. Não importa que os seres sejam diferentes, mas, que um possa doar ao outro um sentimento profundo, pelos menos, de amizade.
E assim é a vida de cada pessoa. É necessário que elas saibam se respeitar para viverem a felicidade.
No programa “Expresso Brasil” da TV Senado, o expresso fez a viagem a Santa Catarina. A apresentadora do programa de origem alemã veio de lá ainda criança, na época da guerra. Ela mostrava a cultura desse Estado e num passeio a uma praça, sentou-se no banco, embaixo de uma enorme árvore de cento e vinte e nove anos de existência. Confidenciou à reportagem que ali começou a namorar e que findou em casamento. Agora, com o passar dos anos, ela e o marido voltam sempre àquele local para: “Vencer o tempo olhando a natureza”.
Vi que minhas visitas à Praça D. Ermelinda, estavam sendo como as deles, realmente é uma das maneiras mais bonitas de passar o tempo.
No mês de julho, meu amigo KK Mello esteve na Casa da Cultura Melchíades Cardoso, lançando seu livro “Crônicas, Reminiscências e Paixões.” Miracemense apaixonado e para retratar melhor suas lembranças da terra natal, colocou na capa do mesmo uma foto da tela em que ele está pintando a Igreja Matriz, ladeada por duas lindas palmeiras.
KK Mello artista plástico e dos melhores entre os de nossa terra, procurou eternizar a Praça D. Ermelinda, pintando o que ela tem de mais precioso, as quase centenárias, esguias e “descabeladas” palmeiras.
Com isso, elas me inspiraram a homenageá-lo:
KK
Carlos que é KK, não canta como “Gardel”
Ao contrário, escreve “Crônicas,
Reminiscências e Paixões” e no
“Liberdade de Expressão” deixou
O que tem no coração
Saudade, recordação.
Alma de artista ele tem
Une as cores com pinceladas e
Guarda nas telas
“Um mundo de sonhos”, de
Sentimentos sempre constantes
Tudo transforma em poesia
O amor, a tristeza, a alegria.
Privilegiado pela vida, com
A ajuda de Deus
Carlos que é KK, teve
Hylda como mãe,
E Manoel como pai
Com eles aprendeu o bem viver
O doar, a vida e o vencer.
De Deus, Thereza ele ganhou
E a sua família Ele abençoou.
Miracema, ele nunca esqueceu
E embalado pelo “Amor e Paixão”
Lembra sempre com emoção o
Lugar que o viu nascer e se
Orgulha de Miracemense ser.