Pag.6-Nº126-Maio/10

 

                           

Bem – te- vis no Outono

 

 
  Os bem-te-vis do meu quintal têm se multiplicado, robustos e belos. Voando por ali com os outros pássaros que, também, já não são poucos, para minha alegria fazem a festa todos os dias. No início, constituía-se, apenas, um casal namorador, curtindo intensamente todos os recantos do espaço, desde a água que encontram para se banharem até as árvores verdinhas onde podem se deleitar, debatendo-se numa intensa festa. Apoderaram-se de vez da velha mangueira, ali vivendo e fazendo seus ninhos acompanhados hoje de filhos e amigos, provavelmente.
  Com o início do outono estão variando seu canto de maneira mais forte e especial, fazendo diferente a entonação, como que saudassem a nova estação com arte renovada. Numa sinfonia cheia de alegria, nova e esfuziante, mostram que percebem a mudança do tempo que se inicia. Na verdade, as manhãs realmente mudam em cada virada de estação e os pássaros entendem muito bem as sutilezas da natureza e agradecem felizes.
  Assim, cedo têm começado um ensaio diverso, menos repetitivo e monótono como até a pouco faziam. Não deixam nunca de dizer, "bem-te-vi," como se vissem tudo realmente mas, na euforia desses dias de outono, podemos perceber uma arte inusitada de cantar como se suas criações pendessem para o impressionismo ou, até mesmo, se tornassem meio abstratas, talvez. Modulam o seu eterno refrão , mas com uma iniciação de floreios característica dos cantores quando querem sair do lugar comum de suas interpretações . É quase quando dizemos – esse cantor está floreando ao cantar. Em seguida, vem o característico bem-te-vi glorioso alegrando a madrugada.
  Paro, escuto e sorvo atentamente o prazer daquela beleza inocente, "cantoria de pássaros no meu quintal" e agradeço a fidelidade da natureza, pensando no valor das pequenas, verdadeiras e belas coisas que a vida nos oferece. Ah, se soubéssemos sempre reconhecer e valorizar nossas pequenas coisas, aquelas que estão ao nosso alcance e das quais chegamos a desdenhar, cansados e fartos! Se, na madrugada, nossos olhos se abrem tristes e o coração se mostra temeroso das tribulações, imediatamente, aquele burburinho de aves alegres e soltas nos ensina a força do otimismo e da esperança para o enfrentamento do novo dia . É a própria vida que se manifesta cheia de pureza e significado. Ali, certamente, podemos crer que se instala a própria expressão da Verdade.
  "A verdade é filha do tempo", é essência da vida manifestada em seu estado mais simples e puro. Será ousadia minha conjugar gorjeio de pássaros com verdade da vida? Não sei. Só sei que nessa fala tento expressar verdade e beleza como amiga inconteste que sou do puro e do belo.
  Como poderei da verdade desdenhar? Quando? Nunca!

Ao amigo Wilder Leal Alvim, poeta, compositor, idealista cultural e membro da AML, meu Preito de pesar.





Retrato em preto e branco

 

                                                            

Hoje olhei com saudades as fotos coladas no álbum
de recordações de um passado não muito distante.
Nele fiquei contemplando aquelas imagens
tão vivas na minha memória, apesar de algum tempo.
Todo retrato é um pedaço de papel onde está guardado
pedaços de nossas vidas que marcaram época.
Até hoje guardo na memória mil reflexos
de todas aquelas imagens. Frágeis como gotas de cristais!
As fotos ficaram alguns anos guardadas numa caixa e ao vê-las,
me fizeram recordar nossa juventude cheia
de brilho, de entusiasmo, de garra.
Arroubos da mocidade vividos por nós.
Todo retrato tem sua voz pungente. Voz que ecoa.
Voz que ninguém ouve mas todos entendem, olhando as fotos.
É a oratória do silêncio.
As fotos em preto e branco conseguiram captar os estados
da alma naquele exato momento fazendo-me rir
e até me emocionar recordando tanto
encantamento, tanta pureza.
Nos retratos em preto e branco, vejo a essência da vida.
Mostram detalhes que ficariam escondidos pelas cores.
Vejo a magia dos olhares, cheios de mistérios onde tento
decifrar alguns e não consigo. Verdadeiros enigmas.
Olhei por longos momentos. Quanta saudade desse tempo!
Essas fotos mostram o reflexo da nossa alma naquele momento.
Vale a pena recordar e sonhar! Sonhamos sonhos lindos!
Transformamos esses sonhos lindos em realidades
como um presente muito especial

 

Onde houver andorinhas, Wilder você será sempre lembrado em seus versos, tão lindos!
As andorinhas marcaram seu território quando, ao redor da capela,
voaram muitas em bandos, parecendo se despedir de quem as homenageou
numa linda canção. Com certeza, já com saudades da voz doce e meiga.
Voz essa que cantava:
"Voa andorinha, até a capela da cidadezinha onde nasci...
"
O JORNAL LIBERDADE DE EXPRESSÂO perdeu uma pessoa muito especial.


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