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COTA PARA NEGROS
Vamos imaginar uma corrida, entre dois grupos competindo entre si. A distância a ser percorrida é do Centro da Cidade do Rio de Janeiro para o Centro da Cidade de São Paulo, nas seguintes condições: atletas com idades iguais, correndo a pé, mesmo tipo de calçados, mesmo horário de partida, mesmos socorros, porém o Grupo A sai de Aparecida e o B sai do Centro da Cidade Rio de Janeiro, rumo ao Centro da Cidade de São Paulo. Tenho eu uma leve impressão de que o Grupo A, o que sai de Aparecida, seja, obrigatoriamente, vencedor. Parece que nem quota de quarenta por cento resolve a questão do Grupo B. Este só ganhará a corrida se todos os seus componentes forem gênios das pernas, e, ainda, contar com um tipo de inércia geral do outro. Nós, raça negra, estamos na desvantagem. O negro brasileiro se encontra há 500 anos na situação do imaginário Grupo B, correndo contra regra do jogo, em condições desiguais, pois perdemos, ou deixamos de ganhar, com a escravidão, o habitat, a liberdade, a Pátria, a família, o idioma, a religião, o direito de ir e vir, enfim, a cidadania e tudo mais, e, mais, a auto-estima. Sempre enfrentando mudanças bruscas na regra do jogo. Só gênio, como foi Chico Rei, pode marcar ponto na terrível corrida a que fomos submetidos. Rocha Pombo, em História do Brasil, 8a Edição, página 129, é quem diz: "O negro não teve por si misericórdia de nenhum coração.No seu exílio, nunca teve uma alma a cuja piedade pudesse recorrer nas suas amarguras. Todo aquele mundo, surdo e fechado, tinha para ele a mesma repulsa que se tem pelo simples animal". E podemos afirmar que até agora as oportunidades fazem rir. A cota para o negro não é oportuna, é tardia. O Serviço Social no Brasil, sonolento e sem imaginação, joga contra. Portanto, qualquer cota, seja lá no que for, em benefício do negro, uma raça que em momento nenhum cruzou os braços, será como aplicar regras justas para o jogo, para a corrida da existência de um competidor reconhecidamente valoroso. O negro não quer, nem precisa de favor. Quer e precisa de reconhecimento e oportunidade legal. As palavras seguintes são, também, do mesmo historiador Rocha Pombo, História do Brasil, 8a Edição, página 128, final: "Estudando-se o negro sob o ponto de vista do concurso que prestou à raça branca na formação da nacionalidade, tem-se de reconhecer que ele representa em toda a nossa história um contingente de primeira ordem". A cota, ainda discutida, causando espantos e dúvidas, são portas que já deveriam estar abertas a uma raça que sempre correspondeu nas letras, no esporte, na música, na alegria, na bravura e principalmente no trabalho.
reinasci@live.com
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