Pag.1-Nº125-Abr/10

  

                                                                                    

Há 43 anos Kubitschek     esteve   em  Miracema

                                                                                
                                                                                            José Luiz D. Ferreira, Maurício Monteiro e JK em Miracema

  Dois anos após ter sido cassado, o ex- presidente Juscelino Kubstischek retornava ao país no dia seguinte às eleições gerais. Vivia exilado em Paris num pequeno apartamento de dois quartos emprestado por um amigo no Bouleverd Lanes. Já estava enfarado de viver no exterior e mesmo aconselhado por amigos para não voltar, deliberou retornar para enfrentar os processos- Os I.P.M. Na porta do avião recebeu uma intimação para depor na parte da tarde numa Delegacia na Tijuca. Não demorou muito, resolveu retornar para o exílio, já não suportava mais ficar horas sentado numa cadeira de Delegacia de Polícia.
  No ano seguinte estava de volta e, nos idos de 1967, decidiu não mais viver longe da Pátria. Tempos depois é que soube de sua correspondência com o escritor José Montello que dizia: "Estou tão cansado, meu amigo, que só desejo dormir ainda que seja o sono eterno". Somente no mês de julho consegui o segundo encontro com ele e aceitei uma carona sua num D.K.Vemag da Av. Vieira Souto até Botafogo. Bom ouvinte sempre nos deixava à vontade naquela prosa vadia, até que recitei um trecho de um discurso proferido por Augusto Frederico Schimidt em Cataguases numa festa de formatura que não obteve a mínima repercussão. Ele ouvia a peça oratória com a maior atenção até que me perguntou: "Eu tenho isso lá em casa?". Fiquei atônito e prometi trazer um exemplar de presente. Em Botafogo, descemos do carro e fiz o convite: Que tal um baile em Miracema com uma moça bonita? Ele fechou os olhos e disse: "Marca o dia que eu vou lá". Segui para um ponto de lotação e pouco depois aparecia o seu chofer Geraldo |Ribeiro indagando de onde eu era. Identifiquei-me e pediu-me: volte, para conversar com o presidente, e adiantou – Desde que chegou, vive reclamando de todo o mundo e, pela primeira vez, vejo-o satisfeito com a sua conversa. Prometi voltar.
  Retornei a Miracema e não enviei o discurso. O livreto estava sem capa, com folhas soltas e jamais imaginei que um discurso feito no interior pudesse ter ouvinte tão qualificado. Duas ou três semanas após, meu pai recebia um cartão endereçado a mim e não resistiu ao ver no envelope o "JK" e abriu a correspondência que me comunicava vir passar uns dias em Miracema para descansar um pouco. Meu pai ficou abismado, alegando que não tinha "casa" para hospedar um hóspede tão ilustre. Falou em pintar o interior da casa, a sede da Fazenda, etc. Peguei o envelope, apenas M.M sem nome de Rua, mais nada. (a eficiência dos Correios). Mas eu logo atentei: era um discurso – era um dos documentos mais lúcidos que já li sobre a crise brasileira e que iria desaguar no Movimento Militar de 1964. Na semana seguinte, já estava em Niterói, mandei encapar o livreto e fui levá-lo no outro dia ao seu escritório. Mas ele estava num dia "daqueles"... Visivelmente contrariado e não havia clima para conversa. Tempos depois, é que soube que ele batia com o livro na mesa e reclamava que ninguém o havia mostrado. "Foi preciso que um rapaz do interior..."
  De volta vi que a Casa da Amizade estava programando um baile beneficente em prol da Casa dos Pobres que passava por situação dificílima e Dona Marisa Damasceno Mercante estava à frente, como sempre, da iniciativa, e, como atração máxima, contava com a participação da Miss Estado do Rio – Maria das Graças Khury, nascida em Miracema. Foi um sucesso. No dia seguinte, fui escalado para levá-la a Campos a pedido do Rotary Clube. Por lá fiquei o resto do dia e fiz um convite: se ela aceitaria uma contradança com JK. Não acreditou. Não me levou a sério, mas disse-me que se ele aceitasse, ela viria.
  Aqui chegando, pedi ao Dr. Hermes S. Ferreira para bolar um convite e, como sempre, um trabalho sem retoque. Fomos ao Rio, depois da apresentação pediu agenda, examinou data e marcou o dia. Mais um retorno para organizar a festa. O Aero Clube estava interditado, não havia pista de dança e o G. E. Dr. Ferreira da Luz não cederia o espaço tendo em vista que o ex-presidente estava banido da vida pública e não poderia ser recepcionado em prédio público. Foi improvisado um barracão de bambu- gigante na Sociedade musical XV de Novembro, coberto de lonas de caminhão e Dona Julieta Bastos ofereceu a fazenda Cachoeira para o jantar.
  Como era natural, uma visita tão importante para o Estado e para Miracema foi recebida com total indiferença, com razão de sobra. Só nas duas semanas que antecederam o dia, é que um jornal de Niterói deu uma nota na imprensa. No dia seguinte, ele mandou um emissário seu visitar a Fazenda e medir o campo de aviação para a escolha do avião, o que me tranqüilizou. Na última semana tive uma aliada de peso – a imprensa mineira que festejou o fato não deixando dúvidas para mim de que viria.
  No sábado, um mormaço dominou o dia com nuvens escuras prenunciando temporal. As autoridades já tinham deixado o Município: Prefeito, Juiz, alguns vereadores, ninguém iria recepcioná-lo. Só o Deputado Campanário surgiu no entardecer depois que notícias circularam pelos grandes jornais em pequenas notas. Fui até Pádua para fazer propaganda e voltei debaixo de um temporal. A chuva desabou e acabou por derrubar o barracão do Clube XV de Novembro. Passei a noite em claro. O baile não seria realizado. Levantei-me cedo e fui à procura de um eletricista para fazer um "gato" no Aero Clube e caminhão para buscar mesas e muita cera para encerar o local. Sempre zsecundado pelas senhoras dos rotarianos.
  Devido ao aguaceiro infernal da noite anterior a cidade estava com as ruas barrentas, sujas e só terminei o serviço no Aero Clube por volta das duas da tarde quando retornei para casa onde fui almoçar. Minha residência já estava cheia de gente e assessores que vieram para a cobertura e, segundo me diziam, havia muitos do S.N.I e D.O.P.S, afinal, era a primeira vez que o maior líder civil iria visitar uma cidade depois de cassado. Visitara, antes, a sentimental Diamantina sua Terra natal.
  De novo, o tempo começa a piorar, nuvens escuras muito baixas começavam a intranquilizar a todos. O pouso seria de alto risco num campo de aviação que nem biruta tinha e estava desativado também.. O telefone não para, até que do Rio veio uma ligação se poderia iniciar o procedimento de vôo. Falei do tempo ruim e me disseram que ele viria assim mesmo.
  E a chuva continuava intermitente e rodadas de cafezinhos eram servidas aos visitantes. Meu pai que tinha medo de avião sugeriu o cancelamento da visita o que foi prontamente combatido pelo Coronel da PM mineira, batendo na mesa, dizendo que ninguém o demoveria de vir a Miracema. Aos poucos o grupo dispersou indo para o campo de aviação onde uma concentração humana já estava dentro do hangar. Um pouco mais de meia hora o bimotor alto, errou o alvo e foi para Itaperuna. Lá, teria contornado e seguiu para Leopoldina à procura do Rio Pomba. Seguiu o seu leito até Pádua e, finalmente, Miracema, depois de muitas voltas pela cidade. Fez um pouso tranqüilo e foi praticamente sacado de dentro do avião. Chorou muito no interior do hangar e um cordão de isolamento foi formado para que ele alcançasse o carro até a casa dos Pobres São Vicente de Paulo, depois seguindo para a casa de meus pais já apinhada de gente. A Rua ficou intransitável com fila dupla. Entrou para descansar um pouco da tensão do pouso de alto risco. O quarto ficou fechado enquanto descansava. De repente, o trinco rompeu-se e a porta se abriu. Ele, assustado, encosta-se na parede, mas era apenas o meu irmão. Pedi calma a ele. Mas não houve jeito, um corredor foi formando pelo interior da casa até à sala e, durante mais de três horas JK recebeu abraços e foi confortado.
  Por volta das sete e meia, fomos para a Fazenda Cachoeira onde discursou afirmando entre outras coisas o seguinte: "Maurício, meu Maurício, os sonhos que acalentei na minha infância e juventude eu não os realizei todos, mas jamais permiti que o ódio e a vingança habitassem o meu coração".
  Fomos para o baile em Miracema com a cidade às escuras. Os geradores da Rua Matoso Maia foram desligados. Havia pouca gente no baile. Ele levou um choque. Mesmo assim, à meia-noite, iniciou-se a festa com uma valsa, ele rodopiando pelo salão com a Miss Estado do Rio. Dançou, ainda, com quase todas as moças e senhoras presentes. Foi o maior bailarino que pisou no Aero Clube.

                                                                       Maurício Monteiro

 


                    



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