Pág.2- Nº127-Jun/10
                                                          
 

   Ela respirou o encanto da natureza, curtiu a beleza do famoso ipê subitamente cortado de seu quintal, onde percebia em seus galhos os acordes dos pássaros, maravilhando-se com a beleza de suas flores. Perder aquele ipê foi um fato que muito a entristeceu. Encantou-se com o verde de nossa Praça e iluminou com a sua fé todos os ambientes. Ensinou aos seus alunos que a verdadeira sabedoria vem de Deus.
  Enquanto a Associação das "Filhas de Maria" existia, ela fazia parte desse Grupo e exalava sempre espiritualidade, responsabilidade e devoção à santíssima Virgem. Sentimentos, esses, que eram arraigados profundamente em sua alma. Esse Grupo foi extinto, mas ela continuou sendo uma fiel devota de Maria, seguindo os seus exemplos com esplendorosa piedade, serviço missionário e de entrega confiante à vontade de Deus.
  Fez parte do primeiro Coral da Matriz e, há alguns tempos atrás, enquanto podia frenquentava com assiduidade o Coral Santo Antônio também da nossa Igreja.. Ela era a responsável pelo avanço espiritual de todos os que dele faziam parte. Preparava as reflexões com muita sabedoria e zelo. Eram momentos em que os componentes tinham reais oportunidades de desenvolvimento voltado para Deus. No final de cada reunião, promovia uma sabatina para sentir o grau de aproveitamento dos seus componentes. Ficava feliz quando alguém respondia às perguntas feitas. Era como se fosse um momento de recordação e de saudade de suas antigas aulas de catecismo na Igreja Matriz. Sempre reclamava por não poder mais freqüentar o Coral Santo Antônio que ela amava tanto. Nele participava com muita propriedade, comandando o grupo que entoava a segunda voz, fazendo soar de maneira agradável o hino que era ensaiado. Se alguém errasse, ficava muito zangada e pedia que repetisse a melodia várias vezes. Era um momento de descontração, mas todos tinham um infinito respeito por aquela adorável criatura.
  Como Professora da Escola Estadual Dr. Ferreira da Luz, era o símbolo da pontualidade, honestidade e competência profissional. Preparava suas aulas e exigia o máximo de suas turmas. Seus alunos, tanto de catecismo como os da rede de ensino, são até hoje gratificados pelos seus sólidos ensinamentos.
  A forte religiosidade sempre foi uma das principais características de Dona Áurea Moreira Bruno. Nós temos certeza de que ela receberá hoje a nossa Rosa e a depositará aos pés da Virgem Maria.
  Eis a nossa certeza: A sua vida passou desse mundo para o outro para ser cada vez mais luz. Luz que vem de Deus.
  Não existe adeus para quem deixou sua história carregada de fé e de exemplos cristãos, mas permanência real na vida de seus verdadeiros amigos.



                 
                                                           
                                           EDITORIAL
   Ricarda Maria

                                                                            Nunca mais!...


    A vida consiste também em ouvir o mundo que nos cerca. Se não percebemos os sons, sentimos como se tivéssemos sidos excluídos vivos do convívio em todos os ambientes. A surdez a que eu me refiro não é a surdez cultural ou da falta de fé ou, ainda, de não desejar escutar por conveniência. Mas, principalmente, a de não escutar as palavras, os sons, não poder participar de uma conversa ou reunião, ser alienado do convívio social. Vem sempre o sentimento de estar só, de não participar e a constante discriminação.
    Esta é a minha história. Consequência de problemas que tive no ouvido e constantes casos de otites. O tímpano furou e o meu poder de audição foi diminuindo até que só podia escutar os sons numa frequência baixíssima. Meu desejo era ouvir novamente e sair fortalecida para enfrentar com dignidade os desafios do dia a dia. Minha vontade era escutar pela manhã o melro e o canarinho belga que moravam na casa vizinha cantando e encantando a todos de minha casa. Eu queria firmemente ouvir os cochichos das pessoas que me deixavam desconfiada, sem poder participar das conversas. Não, eu não sou fofoqueira, longe disso, mas, interiorizava em mim uma sensação de desprezo e isso me deixava muito triste.
    Mas, um milagre aconteceu em minha vida. Recebi um telefonema de uma amiga daqui de Miracema dizendo sobre um projeto que existia em Natividade: PROASA, que oferecia aparelho auditivo grátis, com toda a assistência. Através da Secretaria de Saúde de Miracema, os documentos foram arrumados e depois de tudo acertado, parti para lá. Um pessoal super preparado para atender as pessoas em todos os setores. Fiquei encantada. Que educação! Que delicadeza! Que valorização eles dão às pessoas de qualquer nível social! Fui atendida por: fonoaudióloga, psicóloga, assistente social, etc. e tudo o que eu tinha o direito. Fui cadastrada e logo, logo, recebi o meu tesouro: um aparelho auditivo.
    Qual não foi a minha emoção, quando pela manhã fui à cozinha e ouvi o canto maravilhoso dos passarinhos. Confesso que chorei. Os sons passaram novamente a fazer parte de minha vida
    Muitas pessoas continuam fora do mundo dos sons por preconceito ou vergonha de usar o aparelho auditivo. Eles ainda não tomaram conhecimento de como é importante perceber novamente a maravilha do som das gotas da chuva molhando a terra. Das gargalhadas gostosas das crianças. Os gorjeios dos passarinhos. A participação consciente nas conversas. Ouvir! Ouvir! Ouvir todos os sons.
    Ninguém imagina a sensação de bem estar, de felicidade em poder participar ativamente dos sons que fazem parte do meu mundo.
    Gostaria que todos aqueles que tivessem o triste problema da surdez fossem premiados como eu fui, para que voltassem a escutar as maravilhas dos sons existentes em todos os lugares.
    Hoje, continuo agradecendo a Deus por esse milagre em minha vida, mas entristecida: Não escuto mais a voz de meus dois filhos. Isso, nunca mais!...

 


 

 

                   

               Memória é a lembrança que alguém deixa de si, quando ausente ou
               após sua morte. Reminiscência é a imagem lembrada do passado ou
               fragmento que resta de algo extinto "(Houaiss)

                                                                               O Circo        
    No final da década de 1940 e início dos anos cinquenta chegavam a Miracema os circos que viajavam pelo país. Armavam suas lonas onde hoje é a Pça. Salim Damian, em frente ao Ginásio N. S. das Graças. Naquela época, a praça e o seu entorno eram terrenos baldios. Lembro-me do Circo Bartolo, do anão que lhe dava o nome. Norma e Vilma, a primeira morena e a segunda loira, se apresentavam em diversos números. Comentava-se que eram filhas do dono do Circo, confundindo as mentes infantis, que não entendiam como um anão poderia ter gerado aquelas duas lindas mulheres, principalmente a Norma, cujas pernas encantavam a todos os assistentes. Houve rumores que teria ela despertado a paixão em um jovem estudante, de conceituada família da cidade, que resolvera acompanhar o Circo, mas não foi muito longe. As apresentações no picadeiro reuniam o Palhaço proporcionando a alegria das crianças; o Domador e os leões; o Engolidor de fogo; as Bailarinas; o Mágico; os Equilibristas; os Malabaristas, Acrobatas e Contorcionistas, culminando com o suspense dos saltos mortais dos Trapezistas. O espetáculo encerrava-se com o teatro. A luz no palco ao fundo atraía os olhares da silenciosa platéia nas cadeiras e arquibancada. As peças mais freqüentes na temporada se revezavam: Coração Materno, Escrava Isaura e O céu uniu dois corações. A bela Norma, sempre personagem de destaque, nunca deixava de ser admirada pelo público, despertando paixões e desejos, fosse ela a sofrida escrava ou a cruel Lazinha (aquela que exigiu o coração da mãe do Campônio que a idolatrava, como prova do seu amor). Depois que o Circo partia, nós, meninos, íamos ver as lonas serem desarmadas e lembrávamos dos nossos furtivos acessos por debaixo delas, para não pagar ingresso. O Circo ia embora e deixava a esperança de um dia retornar. Para as crianças, permanecia a magia que fomenta as fantasias infantis. No quintal da minha casa, na Rua Direita, montamos um CIRCO. No galho da mangueira colocamos o trapézio (na verdade, um pequeno balanço). O trapezista era o Noninha. O palhaço, seu irmão Lolóbi. O Barrigudo fazia acrobacias, enquanto outros eram malabaristas e equilibristas. Eu resolvi transformar em leões os dois porcos que meu pai criava. Arranjei um chicote e de tanto surrar os animais, um deles avançou sobre mim. Larguei o chicote e depressa subi no cercado. Ali encerrou minha carreira de domador. Curta, também, foi a de querer ser engolidor de fogo. Colocaram um turbante colorido na minha cabeça e, ao som do tambor, me anunciaram. Abriu-se a cortina (um pano pendurado no arame) e acendi um jornal enrolado. Ao levar a chama à boca, o meu lábio superior envergou e colou no nariz. Durante dias ostentei o rosto desfigurado. Resolvemos reproduzir a peça "O céu uniu dois corações" (a história conta o amor de dois jovens que morrem antes de realizar o sonho de viverem juntos e depois se encontram no céu). A dificuldade era arranjar a personagem feminina. Na ocasião, morava em Miracema uma garota, cuja família se mudara do Rio de Janeiro. Enturmada com as meninas da cidade, aceitou o papel. No dia da apresentação ela não apareceu (certamente, os pais frustraram sua ousadia) e tivemos que improvisar, vestindo de mulher um dos garotos. Esse era o tempo do Circo na minha cidade do interior. O mundo adulto carece da magia circense, que desperta nas crianças suas fantasias criadoras. Se hoje o mundo está mais triste, é porque lhe falta a alegria das crianças festejando nas ruas a chegada do Circo, "Hoje tem marmelada...E o palhaço, o que é?"

                                                                            José Geraldo Antonio


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