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PROFESSOR IMPROVISADO
Chamava-se Maria Helena e vinha do interior de Minas Gerais. Tinha 12 anos, era muito pobre e desnutrida, com extensa queimadura na barriga, provocada por lamparina de querosene derramada durante o sono. Estava na cama sem cuidados médicos há três meses. Corria o ano de 1965. Naquela época eu terminava minha residência em cirurgia no Rio, quando recebi um telefonema de meu pai pedindo que arranjasse uma vaga para uma criança carente que estava com grande área de queimadura na região anterior do abdome. Consegui a vaga na Cirurgia de Queimados do Hospital. No dia combinado, ela chegou numa ambulância que meu pai, com sua dedicação e seu enorme calor humano, havia arranjado com dificuldade. O povo da cidade também colaborou. O chofer foi de graça e a Prefeitura pagou o combustível. A viagem de cerca de trezentos e cinqüenta quilômetros em estrada de terra tinha sido um sofrimento. Os pais a acompanhavam, pessoas humildes, colonos desamparados que aceitavam a situação como se fosse desígnio de Deus. Aberta a porta traseira a criança estava deitada em uma maca e coberta com um lençol. Era um bichinho do mato. Assustada, arredia, chorava sem parar e ainda não sabia que seus pais não poderiam ficar com ela. Colocada no leito, chegou a hora das despedidas. Foi uma tragédia. Pai e mãe choravam. A filha gritava agarrada na mãe. Mas, definitivamente, não havia acomodação para acompanhantes. Tinha que ser assim. Até as enfermeiras ficaram chocadas. Com dificuldade consegui chegar perto dela para examiná-la. Segurava o lençol que a cobria com uma força incrível. Uma crosta dura como uma couraça ocupava toda a região queimada, do estômago às virilhas e pelos lados saía secreção malcheirosa devido à infecção e à falta de higiene. Os curativos eram diários e sob anestesia geral porque a criança não colaborava. Ao chegar perto de seu leito, ela já começava a gritar. Tínhamos que ter muita paciência! Amolecer e retirar a crosta levou mais ou menos trinta dias e mais sessenta para curar a infecção e fazer transplantes de pele. Eu a via todos os dias porque morava no Hospital. Com o tempo tornou- se minha amiga. Afinal, éramos conterrâneos e eu a única referência naquele local. Notei que era uma menina inteligente. Mas na hora dos curativos continuava extremamente agressiva, ansiosa e medrosa. Ficava deitada vinte e quatro horas por dia, nem se virava na cama, séria, sem conversar. Tomava banho no leito. Todas as noites eu ia à enfermaria e tentava dialogar com ela. De vez em quando respondia “sim” ou “não”. Não passava disto. Olhava sempre para o canto da parede. Continuei a conquistar sua amizade através de revistas infantis, com desenhos e textos curtos, compradas numa banca de jornal ao lado do hospital. Começou a se interessar e, às vezes, até sorria. Pediu-me que lesse para ela. Fingi espanto: - Uai, você não sabe ler? Com 12 anos? Ah! Não, essa não! Temos que aprender! Você gostaria de aprender a ler? Ela respondeu: - Quem vai me ensinar? Aí fiquei apertado, com cara de fuinha! Dei uma desculpa qualquer enquanto procurava entre as enfermeiras alguém que tivesse noção de alfabetização. Ninguém tinha. Naquela noite pensei muito. Na falta de opção eu iria ensiná-la a ler! Mas eu só dispunha de tempo às noites, mesmo assim nem todas e eu só sabia “vovô viu o ovo” e “a bola é bonita”. Seria assim mesmo? Meu Deus, que ridículo! Como começar? Começamos pelo ABC e B-A-BA. Comprei caderno número um, lápis, borracha e apontador. Após três meses conhecia as letras e mais tarde lia algumas palavras. As enfermeiras também ajudaram muito, cobrando-lhe textos simples para que lesse. Esta menina ficou internada durante nove meses e sofreu diversas cirurgias reparadoras e transplantes. Teve alta curada, com cicatrizes extensas. Voltou para sua terra lendo palavras soltas e pequenas frases, com dificuldade, mas lia e garatujava letras! Agora você me pergunta: - valeu a pena? Valeu! Anos depois recebi, já em Miracema, um telegrama de uma cidade do sul de Minas convidando-me para sua formatura: PROFESSORA! |

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- As crianças necessitam mais de exemplos que de censuras. ( Joseph Joubert) - Dêem-me quatro anos para ensinar as crianças, e as crianças que eu ensinar serão sementes que jamais serão extirpadas. (Lenin) - Enquanto permitirem que as crianças sofram, não existirá amor verdadeiro no mundo. (Isadoro Duncan) - Uma criança adormecida é o espetáculo mais belo, mais terno e mais agradável que pode ser oferecido aos olhos humanos. (Stygn Streuveis) - Um bebê é a opinião de Deus de que o mundo deve prosseguir. (Carl Sandburg) - A melhor maneira de formar crianças boas é fazê-las felizes. ((Oscar Wilde) - Quem abre uma Escola, fecha uma prisão. ( Victor Hugo)
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Minhas Arestas.
O que eu registro da natureza, no mundo, é claro, não é o que você registra. O que me toca profundamente, também não o toca. As minhas conclusões podem ser as da maioria, mesmo com restrições, como poderão ser iguais a muitos minhas convicções. Sei que sou mais que uma pedra. Sei que ela é resistente, mas nem sempre brilha. Até sei que muitas vezes é preciosa. Isso faz a diferença. Para que uma pedra seja reconhecida como preciosa, é necessário uma delicada lapidação e eu não me refiro a essa preciosidade e, sim, a uma protuberância em estado rochoso de solidez difícil de ser marretada para se tornar útil ou moldada. Tento na minha vida, conciliar a razão ao pensar. Mas pensar, nem sempre é compreender. Por isso às vezes me torno pedra: insensível, desumana, implacável. Ao mundo vou me dando como posso. Na fragilidade que me persegue em momentos transitórios, sigo possivelmente podando “Minhas Arestas”.
Quisera do meu tanto tirar tanto Podar arestas desprezíveis inda ásperas Deslizar pela vida com mais brilho Desvencilhar-me do estreito trilho. Sou como duelo morno: Misto de rudez, sensibilidade. Tornar-me insígne e admirável, Tão bela, tão sutil, até sem graça? Seria grande tortura Exaustiva frieza Uma eterna solidão Como no castelo a realeza.
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