Pag.2-Nº125-Abr/10
                                                          
 

 

                                                  Tempo de Criança
 
  Em nosso pensamento como um filme que jamais será esquecido, descortinam-se maravilhas vividas no encantado tempo de criança. Brincadeiras simples, ingênuas povoavam a nossa existência.
  Eu morava numa pequena Vila, que ainda existe, entre a Sapataria Danglar e a Farmácia Tostes. Havia um pequeno jardim num espaço em frente às humildes casinhas, cujas flores enfeitavam, alegravam e perfumavam aquele ambiente mágico. As mães vizinhas deixavam suas filhas participar das brincadeiras porque além de minha mãe tomar conta não havia perigo rondando o local. As brincadeiras de roda, o pique, a peteca, a corda, cozinhadinho, teatrinho e outras faziam parte da alegria da criançada. Meus irmãos também recebiam os seus coleguinhas que participavam dos jogos de pião, bolinha de gude, mocinho e bandido e todo o elenco formado por carretéis vazios, bate-bate de figurinhas, futebol formado pelos times de botões, carrinhos etc.
  Hoje, relembramos com saudade aquele tempo tão angelical e dentre nossos amiguinhos estava o Zezé de Assis sempre muito bem arrumadinho: roupas finas, sapatos com as meias combinando com a indumentária. Sempre foi simples, cheio de ternura, transparência amiga, jamais fez pouco caso de ninguém. Trazia sempre para nós o seu sorriso contagiante e gostava de freqüentar nossa casa e brincar com os meus irmãos. Lembro-me de que no meu aniversário e de meu mano, pois somos gêmeos, ele nos presenteou com um lindíssimo livro de histórias cuja capa era em alto relevo e as páginas coloridas traziam toda a emoção que uma criança desejava sentir. Aquele livro era passado de mão em mão e cada um formava as fantasias que as mensagens passavam para os nossos curiosos olhinhos de criança.
  O tempo passou e nós, a cada dia, multiplicamos a nossa amizade. Zezé é flamenguista doente e meu marido também, apertando cada vez mais os nossos laços de amizade.
  Outro dia, ouvi chamando no portão de minha casa. Fui atender e quem estava lá todo prosa exibindo o seu "carro particular", dirigido por um de seus funcionários? Zezé Assis. Tive uma alegria imensa, porque de agora em diante, ele poderá esparramar para todos, em todos os lugares, o seu sorriso que transpira aconchego, sinceridade e exemplo fiel de aceitação à vontade de Deus. Ele vem com a sua presença confirmar que a beleza da fé autêntica sempre torna leve os momentos pesados da vida.
  Lembre-se, Zezé, "A felicidade é a arte de fazer um buquê com as flores que estão ao seu alcance". Você irradia felicidade porque permite que todos os seus amigos sejam amarrados e unidos ao buquê que faz parte de seu grandioso círculo de amizades. Nossa Rosa de hoje, é para você – Zezé, com votos de pleno restabelecimento.



                 
                                                           
                                         EDITORIAL
   Ricarda Maria
                                                            

                                                                                                 Perdas

 

  Sempre testemunhamos fatos que refletem as perdas que se transformam em motivos de desolações. Elas invadem e ferem profundamente o interior do ser humano. Passam, assim, a refletir no exterior as marcas desesperadoras contidas nos sentimentos nascidos das circunstâncias apresentadas ao longo da caminhada.
 
Revistas, jornais, rádios, canais de televisão e internet focalizam diariamente imagens que mostram pessoas famintas que buscam como cães esfomeados, alimentos nos lixos amontoados. Rostos cadavéricos, corpos caminhando sem rumo, sempre em busca do nada. São mostradas terríveis telas reais, pintadas com sombreados escuros, incertos, ângulos angustiantes, despertando pena e ao mesmo tempo pavor. Seguem um diário e contínuo peregrinar, tendo como atalho a revolta, o desamor à vida. Não existe outro caminho a seguir. Seres feridos que vivem a destruição da alegria. Sem perspectiva, perdem o ânimo de recomeçar.
 
Toda essa realidade surge do egoísmo que faz parte integrante do ser humano. Quem tem muito, não vive a partilha tão necessária. Todos somos responsáveis pelas cercas construídas dentro da alma e que nos impedem de dividir o que mais temos com os que nada têm. Uma construção constante de partilha deveria ser edificada. Tijolinhos de fraternidade incentivando o oferecimento ao próximo, ajuda no que realmente lhe falta, doando-lhe a fartura existente dentro de nossas casas. Constatamos a diferença social nascida das classes mais favorecidas e das menos agraciadas geradas pelo nosso famigerado egoísmo.
 
Se enumerássemos as perdas que o ser humano absorve no dia a dia, descobriríamos vários fatores que fazem o tombo da vida ser muito maior. Entre eles está a perda da fé. Sem a fé ninguém poderá ressuscitar o amor para poder vivê-lo. É ele que se transforma em fermento que leveda a vontade de continuar, de sentir que a vida é uma constante bênção de Deus. As pessoas que passam a não acreditar em nada perdem a esperança e a força para enfrentar novos desafios. Sem a fé nasce a frustração e o aniquilamento provocando chagas marcadas pelas angústias e pelo desencanto. É importante fazer um passeio pelo tempo e sentir como a fé se fez importante em nossa caminhada.
  A esperança nasce da fé - mãe da esperança. Quanto maior for o sofrimento provocado pelas separações, em qualquer sentido, maior deverá ser a nossa fé. Ela é a bússola que nos aproxima de Deus e nos norteia para buscar n’Ele a aceitação para as nossas perdas.
  Os famintos, os injustiçados privados dos valores materiais e espirituais, perderam a fé na humanidade. É desolador. É muito triste. É revoltante, mas todos nós somos responsáveis pela falta de fé e pela desesperança de alguém que está bem próximo de nós. O que estamos fazendo?


 

                   

               Memória é a lembrança que alguém deixa de si, quando ausente ou
               após sua morte. Reminiscência é a imagem lembrada do passado ou
               fragmento que resta de algo extinto "(Houaiss)

         
                       CARNAVAL          

  No último carnaval no Rio de Janeiro, estimulado pela volta intensa dos blocos de rua, resolvi acompanhar minha filha Paloma (autêntica herdeira do meu sangue carnavalesco) no tradicional Bloco do Boitatá, que se concentra na Praça XV, no centro da cidade.
  Hoje, na cidade do Rio de Janeiro, os blocos carnavalescos são os responsáveis pelo retorno da festa às suas origens populares, a todos contagiando, sobretudo, àqueles que ainda guardam as recordações dos velhos carnavais.
  De início, infiltramo-nos na multidão e, como era de se esperar, minha filha logo encontrou sua turma, deixando em minhas mãos a peruca azul que a incomodava.
  Parado na calçada, de repente, avistei um amigo e colega de trabalho companhado da mulher, irmã, sobrinhos e amigos, todos com as roupas apropriadas para o ambiente, formando um grupo dentro do Bloco, como tantos outros que se aglomeravam nas proximidades do palco erguido na praça. Fui ao seu encontro e misturei-me a eles. Para não destoar, coloquei a peruca azul e entrei na farra. Foi uma alegria incontida, com a cerveja rolando, as marchinhas tocando e todos cantando os velhos carnavais.
  Naquele extasiante ambiente, lembrei-me dos carnavais da minha infância em Miracema. O nosso bloco de sujo saindo da Rua Matoso Maia. O Bilu (José Geraldo Nascimento) fazia as máscaras, utilizando folhas de jornal coladas nas formas de barro branco. O Marconi (filho do Zé Faca) trazia o colar com as contas de frutos de uma planta silvestre, esféricos e coloridos, não comestíveis, embora assemelhados ao tomate nativo comumente usado para tempero. Nunca mais vi a planta desse fruto, cujo nome não me consegui lembrar. Muitos de nós usávamos as vestes femininas, que nossas irmãs e primas nos arranjavam. Batendo os tambores, tamborins e latas percorríamos as ruas, passando pela Rua Direita, até chegarmos à Casa Brasil, do seu Paulo Pernambucano, que nos recebia ao som ininterrupto do frevo. Ali, os blocos se concentravam para concorrer aos prêmios oferecidos pelo animado comerciante, que, na mais legítima tradição da sua terra, fazia questão de demonstrar sua habilidade na dança, tirando os mais variados passos do frevo. Dispersados os blocos, retornávamo-nos às nossas casas, cantando as marchinhas de Braguinha, Lamartine Babo e de outros famosos compositores carnavalescos.
  Também, após dispersar o Bloco do Boitatá e me despedir do amigo, indo minha filha ao encontro de outros blocos, retornei ao meu lar. Porém, só a saudade dos velhos carnavais me acompanhava. E eles que não voltam mais, nesse ano resolveram visitar-me. Como um incorrigível e teimoso folião, os recebi de braços abertos e, quando novamente partiram, deles me despedi: Até o ano que vem!

                                                                            José Geraldo Antonio


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