Pag.1-Nº128-Jul/10
    

UM PAINÉL INESQUECÍVEL




   Advogado e escritor miracemense-
                                                     Dr.Wilson Saad.
                                                                   

    (discurso proferido pelo escritor miracemense, também advogado, Wilson Saad, ao ser agraciado com a COMENDA DONA ERMELINDA, na data comemorativa do 74º.aniversário da emancipação de Miracema)
   "Senhores Prefeito, Vereadores e distinta Vereadora, senhores e senhoras.
  
ANTES DE TUDO, quero deixar registrado o meu profundo agradecimento a cada um dos nobres vereadores de Miracema, que me distinguiram com a importante COMENDA DONA ERMELINDA.
  
Esta gratidão cresce de grandeza porque foi uma concessão unânime dos generosos vereadores, que, na maioria, sequer me conhecem pessoalmente em razão da diferença de idade, já que são de uma geração bem mais jovem. Foi, portanto, um gesto de consideração muito especial ao trabalho e a obra de um miracemense.
  
Lisonjeado, pensei em retribuir esta honrosa comenda não só aos ilustres vereadores, mas a todos os senhores e senhoras presentes e para isso preparei um relato, revelando passagens e momentos outrora vividos por mim, aqui em Miracema e que me marcaram para sempre ao longo da minha vida.
  
Entretanto, achei que, nesta altura, não seria justo abordar um excesso de reminiscências pessoais de minha infância e de minha mocidade passadas em Miracema, as quais ainda povoam a minha memória de recordações, de pessoas e de companheiros, de nomes e semblantes que estão bem vivos dentro de mim. Resolvi então, para não me alongar e parecer ser mais simpático, restringir este meu pronunciamento a uma narrativa histórica de apenas um fragmento da luta gloriosa de um povo pela sua emancipação.
  
Na verdade, é como se fosse a pintura de um painel, retratando um momento vivenciado naquela época em Miracema, que permaneceu tão profundamente arraigados na minha memória, que se tornou um elo a me prender mais indissoluvelmente à minha terra natal.
  
Não é meu propósito comparar a festividade de hoje que é comemorativa à data da emancipação de Miracema a uma festa da nostalgia. O meu propósito é apenas revelar o meu testemunho de um fato épico, onde aflora o entusiasmo de um povo na luta pela sua libertação.
  
Nasci em 6 março de 1930, na mesma antiga casa da rua direita, a casa de meus pais e que todos os seus sete filhos souberam mantê-la como um centro sagrado de nossa família para estarmos sempre ligados à nossa terra natal, como se fôssemos um pedaço vivo de Miracema.
   
Aqui vivi os melhores momentos de intensa participação, de festas e bailes, de namoros alegres e sofrimentos amargurados. Momentos de formação cultural e de criatividade. Semblantes e feições saudosas daqueles que já se foram, tragados pela morte, esta inexorável tragédia do ser humano, levando-os para sempre de nosso convívio, mas deixando indelével as suas lembranças em nossa vida.
  
Entretanto, alguns episódios ressurgem do fundo do meu passado com a força incontrolável de um sonho fantástico.
  
A primeira lembrança marcante em minha memória foi a de uma passeata na rua direita, quando eu era um menino de apenas cinco anos, Aconteceu em 1935.
  
Esta passeata foi o quadro que ficou eternamente fixado em minha retina e eu o relembro com toda nitidez daquele momento de empolgação. Miracema era um caldeirão perto da explosão, fermentado pelos discursos incandescentes e passeatas vibrantes, que faziam parte da incontida luta do povo em busca de sua libertação. A população, homens, mulheres, crianças e velhos, engajados em um só ideal, explodia no auge do entusiasmo. A luta era incessante. O povo marchava pela rua direita, aplaudia e cantava, seguindo a banda de música que entoava os seus hinos contagiantes. Essa visão aos olhos daquela criança era ao mesmo tempo festiva e de um entusiasmo frenético e transbordante. Eu a tenho diante de meus olhos até hoje e a reproduzo com a mesma fascinação de um visual de menino quase inorgânico.
  
Foi o meu primeiro contato com o entusiasmo cívico de um povo em pé de guerra, marcando os passos ressoantes sobre os paralelos da rua direita mal iluminada, mas refletindo a marcha de um povo inconformado.
  
Revejo com clareza em minha memória a vibração das mulheres, agigantadas aos olhos imaturos de uma criança fascinada, aquelas mulheres marchando com galhardia, perfiladas em grupos de oito ou dez, marchando de braços dados ao som da banda, cantando sob a luz frágil dos postes enfeitados de flores, de cabeças altaneiras, pisando firme nas pedras firmes do calçamento da rua direita, cantando numa só voz, com seus seios projetados para frente, entoando o estribilho do hino de Miracema. E aquela melodia, continua ressoando dentro de mim e aquele estribilho em meus ouvidos, tão pungente como um clamor comovente: MIRACEMA QUER SER LIVRE, QUER VIVER IDEPENDENTE.
 
Ali estava no meio da multidão aquela criança, já apelidado carinhosamente no seio da família e pelos conterrâneos de ISSOTE. Uma criança de apenas cinco anos, assombrada diante de seu primeiro contato com uma manifestação gloriosa de um povo determinado e guerreiro: o povo miracemense. Como poderia apagar de minha retina aquela cena heróica, daquelas mulheres heróicas? Eu as revejo em meio ao enevoado de minha memória. Mas de todas essas mulheres empolgadas pela coragem inspirada na luta de uma causa justa, apenas remanesceram duas fisionomias, que eu não sei por que carga do destino eu as tenho ainda bem identificadas na lembrança. Eu me recordo, minha cara prima Neide, da imagem de sua mãe, minha sempre querida e admirada tia Badia, de braços dados com sua amiga Carmem Lemos, duas frondosas e belas mulheres, formando com tantas outras o exército que clamava por uma vida livre para Miracema.
 
E ainda as vejo, de cabeças erguidas, lá no fundo de minha visão de menino, como um lindo e glorioso painel, com seus rostos ruborizados, seus seios arfando, as faces avermelhadas pelo sangue latejante, aquelas fisionomias iluminadas pela chama de seu destemor vinda de sua insuperável e firme convicção.
 
Eu acredito que agora, você minha querida Neide, combatente vereadora, diante desta revelação, possa compreender de onde vem esse seu idealismo, a raiz e a origem desse seu ardor na luta em favor das causas do povo de Miracema, o seu empenho em defesa dos humildes sedentos de educação e de justiça social, o seu incomensurável amor pelas crianças desvalidas de nossa terra natal.
 
E hoje, nesta data comemorativa de nossa cidade, não podemos deixar de render a nossa carinhosa homenagem ao último remanescente dos heróis daquela época gloriosa, que ainda o temos em nosso convívio, que ainda anda se encontra entre nós para sorver os aplausos de nossa admiração, exatamente o extraordinário guerreiro, de quem podemos nos orgulhar, o meu grande herói da adolescência, o exemplo magnífico de nossa cidade, Jofre Geraldo Salim, figura que esteve e está sempre presente em todos grandes momentos da história de nossa Miracema. Eu o acompanhei durante anos depois, com seus discursos inflamados, bradando com seu punho erguido contra as injustiças, em favor de nossa gente. Sempre foi assim, esse bravo miracemense, o nosso Jofre Salim, tanto na paz como na guerra. Nos momentos da tragédia familiar, na sofreguidão das campanhas construtivas, nos instantes passageiros com sua compreensão fraterna e humana. E assim sempre permanecerá entre nós o grande Jofre Salim a nos fortalecer com sua mensagem de confiança, transmitida com sua palavra de empolgante orador. A você Jofre, eterno herói de minha juventude, a nossa reverência e a nossa inquebrantável gratidão. 
  
Vou parar por aqui, embora pudesse relembrar outras passagens de tantas outras reminiscências que trago sempre comigo, do tempo vivido em Miracema, lembranças de amizade, de amor e de saudoso convívio. Muito obrigado"

NOTA DA REDAÇÃO.

WILSON SAAD, em homenagem à sua terra natal e em atenção à gentil sugestão de seu grande amigo AMARO CORDEIRO, estimado e bem sucedido empresário, cuja amizade vem desde à época da mocidade, fará, em breve em Miracema, o lançamento de seu sexto romance O ENIGMA DE UM CRIME.

 


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