Pag.3-Nº128-Jul/10
              

 

O ANDARILHO  

   As primeiras sombras da noite cobriam a cidade. No oeste o por do sol era vermelho-pálido, com tênues rajadas multicores penetrando entre as nuvens. As árvores do jardim quase sem folhas pelo inverno que chegava pouco a pouco se viam despidas de seu manto verde. Uma estrela aqui e outra ali já pontilhavam com suas luzes cintilantes, difundindo no firmamento uma claridade diáfana que se estendia pelo zênite. O vento suave trazia uma brisa agradável, anunciando fria madrugada. Os pássaros já se haviam recolhido para o sono e ouvia-se apenas um chilrear difuso no meio das árvores.
   Ao abrir o portão de minha casa eu o vi. Estava imóvel, enrolado em um cobertor "peleja" amarrotado, mal se notava sua respiração. Após algum tempo descobriu a cabeça, olhou para mim, mas logo desviou o olhar. Estava encostado na parede com o cotovelo apoiado no chão. Notei que era um homem ainda jovem, cabelo crescido, desarrumado, barba por fazer, rosto encovado, olhando para frente, perdido, na direção do infinito. Não olhava para os lados, tinha expressão sofrida, parecia ou fingia não me notar. Falava qualquer coisa, baixinho, palavras ininteligíveis, remexendo os bolsos, pegando um toco de cigarro, acendendo-o com as mãos trêmulas.
   Sua pobreza material era deprimente. Sob o corpo nada o protegia do frio da calçada e as costas nuas estavam apoiadas na parede ainda morna de uma casa, absorvendo proteção e calor. Abandonado e sozinho, carente e excluído da sociedade. Olhado com indiferença na vida, seria ignorado na morte. Se morresse ali apenas daria trabalho para ser removido, seria enterrado como um traste qualquer sem nenhuma emoção e logo esquecido. Resolvi iniciar um diálogo. Como começar a conversar com um estranho que falava sozinho? Como reagiria?
   Perguntei se já havia alimentado. Respondeu secamente: um cafezinho de manhã. Estava há cerca de doze horas sem alimentação! Ofereci um café com pão que foram engolidos rápida e gulosamente, com grande apetite, talvez até com aflição.  
Fiquei chocado e me perguntei: por que tanta pobreza, por que passar fome numa terra imensa e rica como a nossa?
  Pegava os alimentos com dificuldade, só com a mão direita. Notei, então, que o braço esquerdo estava gessado, um gesso já sujo e esfarrapado preso por uma tipoia ao corpo quase nu. -"Bateram em mim e quebraram meu braço" falou sem que eu perguntasse. Quis saber seu nome. Disse apenas: sou do Rio, não tenho família e nem destino, meu lar é a rua. Ponto final, nem mais uma palavra.
  Vestia uma camisa de pano fino, mangas curtas e uma bermuda até os joelhos. Queria ajudá-lo de alguma maneira. Dei-lhe uma blusa de frio que cobriu seu corpo magro imediatamente, exceto o braço gessado. Nenhum agradecimento, olhar no chão. O prato de comida que mais tarde lhe ofereci foi colocado numa sacola esfarrapada.
  Quando sugeri que procurasse um abrigo para dormir, ele se levantou desnorteado, juntou seus trapos quase em pânico, saiu cambaleante com passos trôpegos, dobrou a esquina e sumiu nas sombras da noite.

             

 

 

- O desespero agrava não somente nossa miséria, mas também nossa fraqueza. (Owen Felthan)

_ A fé é a continuidade da razão. (William Adams)

- "A fé é para o homem o que a âncora é para o navio numa tempestade".

- "Fé é a ousadia de ir mais longe do que se vê".

- Antes ser covarde por um momento do que morto pelo resto da vida. (Provérbio irlandês)

- Quem foge por medo terá de combater novamente. ( Demóstenes).

- O homem que nada teme é tão poderoso quanto o homem que todos temem. (Schiller)

 

               

                    
    
FUNDO DE PALCO
         Neide Freitas Gutterres
                

                                                  Retrospecto

 

  

   Viver alimentada por antigas emoções e ansiedades constantes, torna-me frágil diante de remotos medos e repentinamente feliz descobrindo-me poderosa, depois de superadas tempestades fortes a cada vez que o desconhecido marcava ponto.
   Conviver com pessoas simples, de um linguajar próprio aos seus conhecimentos, palmilhar os caminhos tortuosos, difíceis, planejados para bois eram coisas comuns, mas nada que não pudesse ser superado.
   Despojar-me de uma inocente crença num mundo só meu, isto é, dependente de mim, onde o amanhã não existia somente o hoje. O momento, as necessárias horas de estar viva, era o bastante para me sentir leve e despreocupada ao me deixar levar pelos acontecimentos corriqueiros. Descortinar paisagens infindas, pequenas erosões, curar-me com chás ou poções que manipuladas com fé, tornavam-se a certeza do bem estar. Maravilhar-me com a lua, expor-me ao vento, pescar à tarde, ver luzir as águas sempre correntes e nas poças que ficavam para trás a inquietude dos girinos que se misturavam como os meus sonhos.. Contornando o presente, nunca vendo o futuro, viver despreocupada, ser um bicho gente. Tão bom quanto assim se sente!
   Saborear a nata do leite frio, contar os bois displicentemente, lá da varanda que um dia foi meu palco e que me ouvia num cantar contente.
   Apesar desse passado isento de grandes perspectivas, ele continua tão presente na lembrança e sobrevive tão nítido na imaginação que vale a pena ser reconstruído para que eu me sinta bem.
   Um dia, a vida mudou e, mais rápida do que eu poderia prever. Mas, o pensamento tem esse poder de volta e nos surpreende pela emoção que ainda é capaz de produzir em nós.
   Simplesmente porque lá fora o mesmo céu se abre, além das janelas, para a eternidade.

                                             



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