Pág.4-Nº108-Nov/08
                                                                          

               Homenagem

   Ao completar 50 anos de serviços prestados à Comunidade, através da Empresa de Correios em Miracema, Duca é bem merecedora das homenagens que tem recebido em seu trabalho.
  Vivenciando bondade, alegria, amizade, poder de comunicação, inteligência, esforço e otimismo, aprendeu a enfrentar a vida com coragem, sendo guerreira em qualquer momento de sua jornada. Abraça sempre os sofrimentos ou problemas que surgem com fé e determinação.
  Através deste Jornal, quero prestar minha homenagem a você, Duca.
    Parabéns!

Nardelle Santos Soares.


                             

    LITERATURA COMPARADA:

          “UMA DISCIPLINA INDISCIPLINADA”:

   O comparatismo tradicional no Ocidente foi marcado pelas noções de “fonte” e “influência” que determinavam uma filiação excludente entre textos, valorizando os pontos de contato entre eles numa relação que denotava vassalagem ou filiação de uma obra a outra.
   A valorização dos textos era feita a partir do estabelecimento de uma grande quantidade de pontos em comum com a obra considerada matriz privilegiando o rastreamento das semelhanças e analogias e desprezando as diferenças responsáveis por marcar as peculiaridades de cada autor. Estabelecidos os critérios de valoração, aquilo que não encontrava correspondência dentro do cânone era considerado uma cópia imperfeita do modelo. Segundo este paradigma, favorecia-se a noção de continuidade do texto influenciador, promovendo, no texto influenciado, uma sensação de desvantagem. Nesse sentido, foram formadas verdadeiras “linhagens” culturais privilegiadas por serem originais e cronologicamente anteriores a quaisquer outras não pertencentes ao restrito círculo. A cronologia se faz, portanto, fator fundamental num universo tradicional e marca ainda mais a dependência dos textos periféricos sempre feitos com atraso cronológico com relação aos textos da metrópole. A crítica brasileira Sandra Nitrini assim se posiciona quanto a essa prática no capítulo em que traça os percursos históricos e teóricos da Literatura Comparada.
   A literatura comparada tinha-se limitado, até então, a estudar mecanicamente as fontes e as influências, as relações de fato, a fortuna, a reputação ou a acolhida reservada a um escritor ou a uma obra e as causas e conseqüências deterministas das produções literárias, sem nunca se ter preocupado em desvendar o que tais relações supõem ou poderiam mostrar no âmbito de um fenômeno literário mais geral, a não ser mostrar que um escritor leu ou conheceu outro escritor.
   Nesse histórico, percebemos que toda a literatura produzida no ocidente era fruto de uma proposta eurocêntrica de busca de analogias entre textos. 
  O rastreamento dessas “afinidades” proporcionou uma “contabilidade” baseada em débitos e créditos. Essa orientação mostrou-se, muitas vezes, imperialista, pois aumentava a noção de débito do segundo texto com relação ao primeiro. De fato, ao valorizar mais as culturas já estabelecidas, preservava-se o cânone literários e criava-se um certo sentimento de dependência. Os textos das culturas periféricas eram valorizados à medida que apresentavam uma série de pontos afins com os textos europeus tomados como matriz. Dessa forma a influência destes naqueles era vista como uma via de mão única, do colonizador para o colonizado, reforçando a dependência cultural. A partir daí, concluiu-se que a instauração de espaços definidos para o “mesmo” e o “outro” subjazia todo o processo comparatista tradicional.
  No sentido geral e no contexto brasileiro, a Literatura Comparada sofreu com esta perspectiva universalizante que permeava os estudos comparatistas. O trabalho comparatista brasileiro antes dos anos 70 apoiava-se nos modelos franceses que apregoavam a valorização das fontes e influências. Deste modo aumentava-se ainda mais a noção de débito. Nesse universo de dependência cultural, apenas as apropriações “elogiosas” eram permitidas porque não desestabilizavam uma hierarquia sistematicamente constituída. Assim se fortalecia a prática colonizadora mascarada de um falso universalismo.
  Novas orientações comparatistas no ocidente surgiram sobretudo a partir da década de 70. Os antigos conceitos de “fonte” e “influência” foram substituídos pela idéia de “diálogo entre textos”. A Literatura Comparada assumiu uma postura mais democrática e encabeçou uma proposta valorizadora de questões referentes à identidade cultural e de uma revisão dos “cânones literários”. Essa articulação proporcionou uma nova dimensão para as literaturas periféricas. O conceito de influência passou por uma revisão geral que confirmou sua existência, porém considerando-se agora a mudança criativa imposta por parte do texto influenciado. Essa atitude foi o primeiro passo para que o comparatismo assumisse uma nova postura que valorizasse as diferenças e caminhasse para uma desarticulação da relação colonizador/colonizado promovendo mesmo, uma descolonização cultural. O fazer literário tornou-se o principal espaço para o diálogo entre o influenciador e o influenciado, este já não mais restrito à inferioridade da periferia. Nessa relação não mais se sublinha as noções de débito e dependência e sim as de acréscimo e autonomia. A diferença, agora em evidência, passa a ser vista como uma possível mudança no texto matriz. É importante lembrar que a tônica dos estudos comparatistas atuais está longe de se embasar em um deslocamento do que antes era tido como central e a ocupação de seu diferencial periférico. O enfoque dos estudos de Literatura Comparada na atualidade propõe um questionamento da supremacia e hegemonia das culturas colonizadoras e uma valorização da pluralidade resultante do contato dialógico entre colonizador e colonizado.
   Nas abordagens comparatistas atuais aparece o contato recíproco entre os textos em substituição à via de mão única que relativizava o valor do segundo texto em detrimento do primeiro. A diferença, antes vista como um “defeito” no segundo texto, passa a ser a grande responsável pela possível afirmação de uma identidade cultural. Nesse sentido a Literatura Comparada cai como uma luva sobre a necessidade de auto-afirmação de países periféricos com é o caso do Brasil. O comparatismo atual deu o devido destaque às peculiaridades de cada autor e de cada literatura. Por este âmbito, os estudos comparatistas podem colaborar para a descolonização cultural uma vez que o comparatismo atual acredita na inserção original que o segundo texto pode imprimir ao se diferenciar do primeiro. De acordo com os críticos comparatistas da atualidade, esse diálogo permite que os textos da metrópole, antes aceitos irretocavelmente, possam ser avaliados dentro da sua universalidade e os textos periféricos, na diferença que imprimem. Ainda de acordo com esse críticos, os textos agora descolonizados possuiriam uma riqueza por conter em si o texto original e a diferença como resposta à influência. Com relação a essa postura assim resume o crítico Silviano Santiago
   Paradoxalmente, o texto descolonizado da cultura dominada acaba por ser o mais rico ( não do ponto de vista de uma estreita economia interna da obra) por conter em si uma representação do texto dominante e uma resposta a esta representação no próprio nível da fabulação.
   Continuaremos este assunto na próxima coluna. Até!!!


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