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Uma Consulta Sentimental
Quando a gente gosta, a gente cuida. Ela começava sempre assim encarando a psicóloga naquele consultório sentimental. A analista já conhecia aquela história e seus protagonistas. A cliente insistia : - será que erramos tanto em vigiar, às vezes, o que o outro faz? Não pode haver mistérios entre duas pessoas que vivem juntas e se amam. Considero dividir privacidades saber daquilo que acontece com quem, afinal, compartilhamos até a mesma cama. Mas me aborreço e me confundo quando ele foge dos problemas, mesmo os mais inocentes, e se fecha, e faz mistérios, com mentirinhas que criam dúvidas complicando mais as coisas. Discutir relação, isso nem pensar. Vivo uma eterna confusão. O que devo fazer?" A analista devagar se pronunciou:- "Você afirma que cuida muito e vigia, não é? Se ele corresponde aos seus cuidados, tudo bem. Mas, você pode descobrir que o objeto de seu cuidado não valoriza, ou valorizou tanto, esse seu zelo em querer tudo certinho e transparente entre os dois, e que perdeu muito com esses cuidados, destoou até, criando situações difíceis e aborrecimentos. Acontece, também, da mulher enxergar demasiado aquilo que o homem não consegue penetrar, justamente, pelo fato da cabeça ser dele - dele e não dela - moldada pelas conclusões machistas que tirou da vida, influenciada pela nossa cultura que amplia orgulho, egoísmo e amor próprio, sem medidas, dos homens para com as mulheres. Aí, então, você sofre descobrindo que ele não valoriza tanto o companheirismo, o diálogo mais profundo, considerando tudo isso relativo, não sabe ser assim, vive na dele e não se culpa por isso. É um comportamento que nos aflige gerando desconfianças e decepções." A analista pára um pouco para que a moça reflita. E retorna: -"E o outro pode ser um ingênuo fingidor, um enganador terno, provocador de ciúmes e conquistador de admiradores que inocente, vaidoso e carismático procura sempre agradar a todos, mesmo que desagradando a você. Como se desempenhasse um papel, estressando-se sempre que dele tenta se desvencilhar. Daí, foge das situações e se confunde. Se ele é assim, insistirá em esconder fatos, em não permitir intromissões, evitar aberturas que o façam sentir passado para trás e sua companheira dona da verdade. Tente entendê-lo melhor. Somos o que a vida nos faz ser, aquilo que conseguimos aprender. Quem poderá saber exatamente o que a vida exige ou exigiu dele, e de cada um de nós, para sermos o que somos? Será que o conhece o suficiente para compreendê-lo? Ninguém conhece ninguém completamente, nem facilmente. Mas, devagar tente penetrar mais na misteriosa ostra que parece ser seu companheiro de jornada". A moça chorando concordava. Só a analista falava:–"Sim? Então?...Descarte a decepção. Compreenda-o, se realmente se amam. Pensem nas razões que justificam a tolerância um do outro, na família e suas implicações. A verdade só vocês vêem e sentem. Seja perspicaz para conhecer-se e conhecê-lo melhor. Ajude-o para ser mais franco, sincero e liberto desse jogo de esconde-esconde que não faz bem a ninguém. Perto de conhecê-lo, só você está. Conhecer vai além de papos descontraídos, de amizades fugazes, encontros no trabalho, mensagens e sorrisos. Depende, na verdade, da convivência mais íntima do dia-a-dia em que se pega o outro no pulo, nas pequenas situações a dois e isso você já conseguiu muitas vezes como, também, ele em relação a você e suas fraquezas. Insistam no entendimento e no diálogo franco. E então? Sim?...Mesmo?... Ajuste o jeito misterioso dele ao seu jeito, também, cheio de peculiaridades. E sigam em frente! E tente, tente sempre transformar em direito o que em seu companheiro é um jeito avesso de ser". |