Pag.8-Nº128-Jul/10


Tema: Anjos

Dois filhos partiram um dia,
Para nunca mais voltar.
Mas tenho ainda a alegria:
Três anjos a me guardar.

Tema: Cabelos

Como não posso mais vê-los,
Guardo-os vivos na memória.
Leio em meus brancos cabelos,
Minha história em cada história.


Tema: Amor

Se o amor existe, não acaba,
Deus é amor dentro da gente.
Não despenca, nem desaba,
Forte pilastra paciente.


Tema: Cobertor

Se alguém no tempo anoitece,
Com um cobertor auxilio.
Minha manta não me aquece,
Se esse alguém está com frio.


 



 

  

  

   O sol descambava por trás do bambuzal deixando o céu alaranjado. A noite chegava devagar e lá do alto a lua aparecia como um meio aro de anel, bem fininha, já era lua nova. O jantar já tinha terminado e na varanda os meninos jogavam bola de gude e as meninas conversavam. Joanico chegou acendendo os lampiões que os meninos chamavam de "Tio Abelardo", pois eram redondos lembrando a gordura do tio. Lá dentro, no escritório, seu Américo acertava os livros de pagamento dos empregados, enquanto sua mulher dava as últimas ordens na cozinha.
  
Tudo estava tranqüilo. As horas passavam e o pessoal da casa estava aguardando a visita do primo e compadre Antenor - solteirão convicto, sempre sorridente e engraçado. Morava só, num sítio próximo. Lá sempre ia passear, contar aqueles casos que tanto alegrava a todos sob a luz das candeias.
  
À noite já ia alta, quando lá pras bandas da estrada ouviram o tropel, não de um cavalo, mas de vários. As meninas curiosas debruçaram-se no parapeito da varanda a fim de verem melhor, mas seu Américo foi mais rápido e olhou os que vinham chegando e mandou que todos fossem depressa pra dentro. Gritou para a mulher que os colocassem no quarto e fechasse a porta. Chamou Joanico e mandou que pusesse Tição de guarda, protegendo a família com uma espingarda.
  
Quando eles foram se aproximando, seu Américo desceu a escada e foi de encontro aos que estavam já apeando dos cavalos e tomando lugar para amarrá-los. Com a mão fez um gesto pedindo que parassem, foi então, que o chefe do grupo se apresentou pedindo pousada para ele e sua gente. Era o Coronel Firmo Araújo que foi logo dizendo que dormiria na casa da Fazenda, enquanto seus capangas se acomodariam na tulha.
  
A fama do Coronel e de seus homens era de levar cavalos, gados e também moças, por isso as meninas foram juntamente com seus irmãos trancados no quarto e vigiados por Tição, negro forte e destemido. Era o guardião do patrão e de sua família.
  
Quando chegaram à varanda, seu Américo pediu ao Coronel que esperasse, pois ia mandar preparar o jantar e também o quarto. Assim foi feito.
  
O jantar foi servido sem que o Coronel desse uma palavra, em seguida levantou-se e foi para o quarto. A cama tinha sido arrumada cuidadosamente, até com lençol bordado. Na mesa de cabeceira foi colocado um lampião que fazia com que a figura do Coronel se tornasse ainda maior do que era projetando sua sombra na parede.
  
Senhor Américo não dormiu. Colocou sua mulher junto dos filhos e o Tição fazendo guarda a noite toda. Na cozinha, ficou Joanico com mais empregados armados. Sempre apreensivo e vigilante nem notou que o dia estava clareando. Daí a pouco chegou Quitéria, empregada antiga da família para preparar o café. As meninas a chamavam de Quitutinha, pois fazia "quitutes" (doces, bolos etc.) que todos adoravam. A mulher do senhor Américo também levantou- se cedo caminhando na ponta dos pés e foi ajudar Quitéria colocar a mesa. De repente, apareceu Tição que foi correndo encontrar o patrão e deu-lhe a notícia de que o Coronel já havia ido embora. Em seguida, chegaram os outros empregados avisando da saída dos capangas e que tinham levado dois cavalos e duas rezes.
 
As meninas saíram do quarto e tomaram conhecimento do ocorrido. A conversa foi longe. Então, dona Júlia foi até ao quarto e encontrou a cama toda arrumada do jeito que ela havia feito e sobre ela um bilhete: -"Não sou mulher para dormir de saia". Surpresa ao lê-lo, dona Júlia desdobrou o lençol que estava aos pés da cama, era nada menos que uma anágua (saia usada por baixo de vestidos) com a barra de crochê. Passada toda aquela apreensão acharam graça, pois no nervosismo de arrumar o quarto, dona Júlia havia colocado a anágua no lugar do lençol de cobrir.
  
O dia seguinte seguiu movimentado com o acontecido e quando a tarde foi se aproximando o compadre de Antenor chegou. As filhas correram para contar-lhe o "caso" da noite anterior. O compadre não se admirou, pois estava ali também para relatar o motivo de ter aparecido por lá como havia combinado. Ele tinha recebido uma visita rápida do Coronel Firmo, levando dele algumas cabeças de gado.
  
Tudo isso se passou nas terras dos meus avós maternos. Mais tarde, na chácara, eles nos reuniam na cozinha e contavam as histórias que marcaram nossa cidade. Recordo-me bem que na cozinha havia um pilão e um banco comprido onde, muitas vezes, dormi nele deitada no colo de minha avó. O café com leite era aquecido no fogão à lenha, exalava um cheiro gostoso e era servido acompanhado de biscoito de nata.
  
Outro dia, lendo Martha Medeiros cronista da revista do jornal "O Globo" de domingo, ela dizia: -" que as brincadeiras e os doces da casa de avó são diferentes. Lá não há brinquedos, mas sim aqueles que a gente inventa, e que os doces são mais doces do que os de casa". Concordo plenamente com ela, porque é muito querido e saudável tudo o que vem das lembranças de meus avós, que tanto me deixaram sonhar e viver certos casos, recordações de fatos passados com nossos familiares e de nossa região.
  
Hoje, já sou avó, e, com isso, procuro passar para meus netos nossas histórias, valores culturais, relatos dos nossos antepassados sempre mostrando para eles o que aprendi para que eles possam conhecer seus antepassados e os acontecimentos de nossa cidade.
  
Doce, suave e eterna lembrança.

Obs.: esse fato ocorrido com o Coronel Firmo Araújo com meus avós, passei para a escritora Rita Amélia Serrão Piccinini de Sto. Antônio de Pádua que colocou em seu livro "O Coronel e o grupo de Justiceiros" no ano de 1998.


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