Pág.4-Nº109-Dez/09
                                                                          

              

                                   MENSAGEM DE NATAL

        A famíla "Liberdade de Expressão" continuará
 
fazendo parte de sua  vida no próximo ano!

         Feliz Natal para todos os leitores e um 2009 com boas leituras!


                             

 

                                LITERATURA COMPARADA:

                                      “UMA DISCIPLINA INDISCIPLINADA”. Parte II:

  Voltando ao assunto da coluna anterior, agora tratando do contexto periférico brasileiro, podemos afirmar que os estudos comparatistas participam ativamente do processo de nossa descolonização cultural. O papel do comparatista nas comunidades periféricas é de suprema importância para a definição do próprio sistema literário e muito além de estar a serviço das literaturas nacionais, o rastreamento das relações intertextuais possibilita a identificação das apropriações modificadoras e criativas, incluindo aí as traduções.
  Em resumo, o comparatista deixa de ter uma função única e exclusiva de contrapor e confrontar autores e obras literárias para avaliar um texto que se articula com o contexto social, político e cultural onde o fazer literário acontece. Sem sombra de dúvida a Literatura Brasileira, que aqui tomamos como exemplo, recebe uma forte influência da européia e de outras literaturas, mas para além desta influência é preciso considerar a relevância de uma “fidelidade ao contexto” em que ela se insere. A palavra contextualização torna-se lugar comum nos estudos comparativos atuais porque proporciona uma possível explicação para as diferenças entre os textos.
  Assim aconselha o crítico Antonio Candido:
  Se pudermos marcar alguns aspectos desta interação talvez possamos esclarecer como, em país subdesenvolvido, a elaboração de um mundo ficcional coerente sofre de maneira acentuada o impacto dos textos feitos nos países centrais e, ao mesmo tempo, a solicitação imperiosa da realidade natural e social imediata.
  Dentro da perspectiva da Literatura Comparada atual observamos um favorecimento para que as questões de identidade e descolonização culturais sejam postas na ordem do dia. A partir dos anos 70, a Literatura Comparada adicionou à sua prática, que até então valorizava um discurso unidirecional, um estudo mais situado historicamente. Aos poucos revertem-se as “tintas etnocêntricas” e animam-se os que pretendem uma aproximação com questões de valor indiscutível nas comunidades periféricas como as questões sobre identidade cultural.
  As discussões críticas voltaram os olhos para as questões locais onde antes se discutia o universal – um universal camuflador da prepotência imperialista eurocêntrica.
  As questões interdisciplinares e intersemióticas ganharam destaque somadas às diferentes relações culturais antes destituídas de crédito. O contexto ganhou um outro verniz a partir do momento em que as obras e textos literários já não podem mais ser vistos sob o ângulo exclusivamente estético. Os locais periféricos tornaram-se de extrema importância para a discussão de temas tais como a articulação de produtos culturais destes postos e o resgate da tradição local. O resultado deste questionamento tem sido uma desierarquização da hegemonia colonizadora. Nesse sentido assim se posicionam Eneida Maria de Souza e Wander Melo Miranda
  Assim é que repensar a nossa tradição cultural de forma a colocá-la em posição diferenciada e particularizada diante da tradição estrangeira (por sua vez assimilada por nós) constitui um dos pontos básicos de se colocar a questão da dependência e, ao mesmo tempo, se livrar de seu condicionamento exclusivista.
  No caso brasileiro, o comparatismo até os anos 70 também esteve ligado ao estudo das fontes e influências tomando por base textos franceses sempre revestidos por uma aura superior que acentuava ainda mais a condição de dependência dos textos aqui produzidos.
  Na postura atual, os estudos comparatistas brasileiros enfatizam nos textos a devolução criativa e a apropriação transformadora das fontes européias e norte-americanas. Importa destacar que o valor da diferença não reside na simples diferença literária, mas na sua relação com os registros locais e na valorização dos discursos multiculturais.

 


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