Pág.1-Nº131-Out/10

 

   Papai e as Folias de Reis

                                                                     
                                                                                            Benedito Siqueria

      No  inicio  dos  anos    setenta  o  Brasil  era,  pretensamente, o país  do  desenvolvimento  e  da modernidade.   Milhões  de  brasileiros  deixavam  o  campo  dirigindo-se  para  as  cidades  trazendo  velhas  tradições  tanto  da  Mata  Mineira  como  do  Noroeste  Fluminense,  como  as  Folias  de  Reis.  Lembro-me ainda  garoto  da  Folia  do  Seu  Joaquim  Neves  lá  de  Laranjal. 
     As Folias    tendiam  a  ser  esquecidas ou  confinadas nas periferias  das  cidades. De modo  geral,  o movimento  folclorista  tinha  pouquíssima  visibilidade. Em Miracema  as  Folias  de Reis aproximavam-se  da  total  extinção  pelas  imensas  dificuldades para  adquirir  seus  instrumentos  e  suas  roupas. Por  esse  tempo, papai  iniciava  as  tratativas  para  sua  aposentadoria  o  que  veio ocorrer em 1977, mudando-se, defi nitivamente, para Miracema.
As  velhas  emoções  sentidas  lá  no  antigo  Panorama  onde  seu tio  Frontino  chegava  a  reunir  20  Folias,  retornaram  com  toda força. Papai dizia que  juntava  seus  tostões para oferecer ao palhaço. Como veremos abaixo, papai escreveu por volta de 1979 alguns  textos sobre o folclore miracemense que ele chamou de:                       
                     
                                              "O Folclore Exaltação de Miracema"
   
       A Folia de Reis nos  traz muitas  saudades. Ela nos  faz  lembrar  as  grandes  noitadas  e  alegrias  daquele  som  repetido.  Quando  crianças  a  Folia  de  Reis  batia  nas  nossas  portas  com  o  bumbo  a  rufar  e  os  cânticos  dos  foliões,  fazendo-nos  levantar  da  cama  e  apanhar  o  tostãozinho  que  guardáva-mos para o palhaço e atrás da porta a gente tremia de medo dele.
       No ano de 1889 a 1891, Dona Mariana que tinha quase 96 anos ainda se lembrava que com 6 a 7anos, seu tio levava as crianças para assistir o baile dos antigos escravos que formavam a Folia de Reis. O baile era realizado no antigo engenho velho da fazenda Cachoeira onde se  socava café, fazia-se  fubá,  tinha tronco e roda de bacalhau. Ali começaram os grupos a formar as mais variadas Folias de Reis. Em 1920 encontramos na Fazenda Panorama as grandes concentrações de Folias de Reis. O fazendeiro era  Frontino A. Siqueira admirador das Folias. Dali fazia concentração de seis a oito grupos em frente ao seu comércio durante todo o período, isto é, de 25 de dezembro a 5 de janeiro  tudo por conta do dito fazendeiro.
     Ali eles disputavam em versos, sua melhor posição, melhor vestimenta, melhor bateria e melhor palhaço que cantava, chulava e pulava,  desafiando uns aos outros. Os seus instrumentos eram sanfona, viola, triângulo, chocalho, tambor, pandeiro de couro de gato,bumbo e cavaquinho. A bandeira era toda enfeitada com fitas, flores e os três reis  magos. A Folia era formada com 12 foliões, com mestre e contramestre.  Às vezes,  trazia dois palhaços o que  pouco aconecia. Geralmente, era um só com seu porrete  indispensável que  ia até à  altura do pescoço para que ele pudesse descansar. Certa ocasião, uma folia estava cantando numa casa depois de fazer a profecia, chegou a vez do  palhaço chulear e dizer versos, mas certo momento embasbacou com os versos e não teve saída. Começou a suar tanto que manchou o chão da casa. Ele fi cou  envergonhado e saiu correndo, deixando a folia,  nunca mais quis vestir de palhaço.
                                                           01 de Janeiro de 1979
    Com  a  participação  de  vários  grupos  folclóricos,  foi  realizado  o  “  Primeiro  Encontro  de  Folias de  Reis”  que  reuniu  um  grande  número  de  pessoas que assistiram a evolução e exibição de sete Folias de Reis. O encontro foi realizado na Rua Santo Antônio, 122  onde o Coordenador e Promotor do evento, Benedito Siqueira,  recepcionou os  grupos. Após  confraternização  e  apresentação  das  jornadas foi oferecido pelo coordenador um lanche completo aos foliões.
      Esse   encontro  veio, sobremaneira,   mostrar  à    população o   fato  de   que o Folclore do Norte Fluminense,  especialmente em  nossa  Miracema, ainda está vivo. Para agradecer o apoio da Funarte fi z as quadrinhas;
                                 Espero que esses versos
                                 Não constituam um desastre
                                 Quero agradecer de público
                                 O apoio da Funarte
 
                                 Ela deu apoio fi nanceiro
                                 com muito interesse
                                 Para o Folclore de Miracema
                                 Para que ele revivesse
 
                                 As folias de Miracema
                                 Não têm roupa para vestir
                                 Se não fosse a Funarte
                                 Elas não poderiam sair
 
                                 Assim eu agradeço
                                 Com grande emoção
                                 Para fi car guardado
                                 No fundo do coração “
     
     Benedito Padilha de Siqueira, nasceu em 9 de julho de 1910 nosítio Boa Vista, de propriedade de seu avô paterno Teófilo,  na zona rural de Miracema.  Filho de Genuíno Antunes de Siqueira Sobrinho e Mariana Reveziana Padilha de Siqueira. Foi casado em primeiras núpcias com Maria de Souza Magalhães. Desse casamento nasceram 5 filhos: José Frederico, Aparecida, Maria Terezinha, Antônio Raymundo e Mariana. Em segundas núpcias casou-se com  Maria Tostes Siqueira. Faleceu em 13 de janeiro de 2000 em Niterói sendo  sepultado  em Miracema. Usava sempre em qualquer atividade o slogan:
 “Miracema, gosto de você ( Bené Siqueira)”.
  Texto de Benedito Siqueira (Bené).
 Homenagem de seus filhos: José Frederico, Aparecida,
Maria Terezinha, Antônio Raymundo e Mariana

 
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