Pág.1-Nº130-Set/10

 

  MEUS TEMPOS EM MIRACEMA

                                         
                                             Mª José (Mariquinhas), Custódio(Cocote), Marcelino (Celo) e Olavo

      Miracema evoca especial memória afetiva para mim. Meu avô, Olavo Tostes, bem como todos seus irmãos, nasceu e foi criado em Miracema. Mudou-se para Muriaé depois de formado, mas nunca abandonou sua cidade natal. Advogou intensamente na cidade e lá era proprietário da Fazenda Caburé. Sua vocação para estudar Direito derivou da atuação de seu pai, meu bisavó Francisco Dias Tostes, que era um conceituado e procurado rábula da região. Nos tempos antigos, a própria Ordem dos Advogados do Brasil reconhecia a prática exercida pelo rábula, alguém não formado em Direito, mas que exercia a representação de terceiros perante os tribunais.
      Francisco Dias Tostes tem um significado particular para mim. Meu pai deu-me o nome composto de Sergio Francisco justamente em homenagem a ele. Dentre meus tios-avós, Maria José, a tia Mariquinhas, residia em Niteroi, mas os demais, Custódio, o tio Cocote, Marcelino, o tio Celo, e Sebastiana, esposa do advogado Ururahy de Macedo, sempre moraram em Miracema.
      No final dos anos 40, meu pai mudou-se para Miracema, onde vivi os dias mais felizes de minha infância.
     Em Miracema, vi o primeiro show artístico ao vivo. A então famosa cantora Dilu Melo se apresentou no Clube XV. Que emoção !! Até hoje sou capaz de cantar muitas das canções daquela noi te. Minha introdução ao mundo das artes continuou na frequência ao Cine Sete. Além das matinês, meus pais criaram o hábito de me levar às sessões noturnas dos domingos, quando eu invariavelmente dormia já durante os "trailers" e era levado no
colo para casa. Mas, isto pouco importava, pois no dia seguinte chegava no Jardim da Infância, na Praça das Mães, todo prosa dizendo que tinha ido ao cinema de noite.
     Meus parentes em Miracema merecem uma citação de coração. Meu avô Olavo e o tio Cocote tinham uma relação de absoluta afinidade. Aos que lhe perguntavam por que não viajava ao exterior, meu avô Olavo Tostes respondia que "preferia mil vezes ir a Miracema para conversar com o Cocote, do que qualquer outra viagem". Com isso, meu, pai, minha mãe e eu fomos adotados por ele e sua inesquecível esposa, a tia Ziza, como membros diretos da família.Tio Cocote morava durante a semana na sua Fazenda Saudade, mas ia todos os dias a Miracema levar o leite e sempre fazia uma parada obrigatória em nos sa casa. Se meu pai não estivesse, ele conversava com minha mãe, e me dava muita atenção. Que criança não gosta de receber a atenção de um adulto ? E tio Cocote era uma pessoa encantadora. Numa dessas visitas, ele me encontrou voltando do armazém onde fora buscar alguns itens para o almoço. Tio Cocote perguntou-me quanto as compras tinham custado, e eu respondi que não tinham custado nada, pois tudo tinha sido anotado na caderneta. Tio Cocote riu gostosamente e passou a dizer para todo mundo que o Olavinho (apelido de meu pai, conhecido em Muriaé e Miracema por Dr. Olavinho) ia ficar muito rico, pois não precisava pagar nada no armazém. A caderneta resolvia tudo. Esse era o bem-humorado tio Cocote.
     Morávamos na Rua Direita, que era não só a principal via da cidade como o local do "footing" aos domingos. Nesses dias, as primas Ariette, Gloria, Lourdes e Acely iam para nossa casa e, juntamente com minha mãe, apreciavam da janela o "movimento". Isto, é claro, antes do início da sessão no Cine Sete.
     Tempos felizes, muito felizes. Meu querido tio Egberto casou-se com a prima Acely, e uma nova etapa se iniciou. Seus filhos Maria das Graças, Angela, Custódio e José Eduardo nasceram em Miracema; o caçula Alexandre nasceu quando a família já se mudara para Niterói. Tio Egberto, homem que na vida só fez amigos, se tornou uma grande referência em Miracema, onde exerceu brilhantemente a advocacia. Depois mudou-se para Niterói, praticando-a no Rio de Janeiro até ser convocado a exercer o cargo de Desembargador, pelo quinto constitucional. Faleceu precocemente deixando um legado de dignidade e sabedoria que muito honra seus filhos e seus sobrinhos.
      Continuei ligado à Miracema pela vida afora. Fui introduzido na prática da advocacia pelo meu querido amigo Marcus Faver, ele saindo e eu entrando, como assistentes (hoje estagiários) do escritório de Antonio Claudio Lima Vieira, advogado excepcional que deu a nós dois, e a todos os que passaram por aquela escola, a exata dimensão do que é ser advogado. Hoje Miracema honra nosso Tribunal de Justiça com desembargadores de escol. Lá estiveram e ainda estão emprestando o brilho de sua inteligência, dentre outros, meus queridos Marcus Faver, Marcos Tullius e José Geraldo Antonio, além do meu primo Custódio de Barros Tostes.
      Finalizo dizendo que saí de Miracema, mas Miracema jamais sairá de mim.

                                                                         Sérgio Tostes


Página 1Página 2Página 3Página 4Página 5Página 6Página 7Página 8Mural de RecadosGaleria de ImagensExpediente