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| DA SAPATARIA DO ANIBINHA À COZINHA DO FARID |
  Foto1- Ainibinha. Foto 2- Sentados: Luis Reinaldo(Fu-Manchu), José Geraldo(Lalado) e Antônio Moreno;Em pé: Fontana, Manoel Badeco, Farid, Ricardo Cardoso e Sebastião do Zito. |
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Sapateiro conceituado e exímio restaurador de calçados, Anibinha exercia seu ofício em um ambiente de limpeza e arrumação que o diferenciava de qualquer outro do gênero. Solteiro, Anibinha residia com sua mãe e os irmãos na casa da Rua Matoso Maia, onde na frente ficava a sapataria, com uma janela que dava para a calçada e, ao lado, a porta de entrada. Alto, magro, com a voz baixa, Anibinha sempre manteve uma postura elegante e simpática. Tradição nas cidades do interior, as sapatarias, tal como as barbearias , eram pontos de conversas entre os mais variados tipos, fossem ou não clientes. Futebol era o assunto predominante na Sapataria do Anibinha. Vascaíno apaixonado, Anibinha catequizou gerações de miracemenses , na época em que o seu clube possuía os maiores craques do país, como Ademir Menezes, Barbosa, Danilo (o príncipe) e outros, também integrantes da seleção brasileira de 1.950. Situada no trajeto que partia do Grupo Escolar Dr. Ferreira da Luz e do Colégio Miracemense, passando pela Rua Matoso Maia,a Sapataria do Anibinha tornara-se parada obrigatória dos estudantes que entravam ou se debruçavam na janela, curiosos pelas notícias dos seus clubes, transmitidas todos os dias nas resenhas esportivas das estações do rádio estrategicamente posicionado no suporte que ficava no alto da parede. Embora participasse ativamente das conversas dos que se encontravam na sapataria, Anibinha não interrompia seu trabalho e, como um bom artesão, desenvolvia sua atividade na seqüência dos atos necessários ao resultado almejado. Sob os olhares fixos dos presentes, o sapateiro iniciava o seu ritual, bem vivo em minha memória. Preparado o calçado com a retirada das peças a serem substituídas, cortava-se da manta de couro o pedaço suficiente à reposição do solado e, uma vez colado à base do sapato, aguardava-se a secagem para o assentamento que se fazia na forma com batidas de martelo. Em seguida, com a lâmina (uma pequena peça de aço com o corte angular numa das extremidades) aparava-se a nova sola e após uma fissura nas suas bordas executava-se a costura manual. Colada a parte solta da fissura sobre a costura, restaria o acabamento, que se realizava com o pincel escorregando a tinta sobre o novo solado, seguindo-se o enceramento e a lustração. Concluído um serviço, outro se iniciava, repetindo-se o ritual, sem que Anibinha deixasse de participar das conversas ininterruptas dos visitantes. A freqüência da Sapataria do Anibinha era eclética, integrada não só por aqueles de maiores posses, mas também por operários, estudantes e seus colegas de ofício. Recordo-me do sapateiro Manuel, paraplégico que se movimentava na cadeira de rodas. Sua oficina, um pequeno compartimento que também lhe servia de moradia, ficava na Praça dos Boêmios, ao lado da casa do Farid., libanês que explorava em sua residência um comércio de alimentação peculiar, por ele próprio idealizada e preparada. Na cozinha do Farid havia um fogão à lenha, sempre aceso, cujo fogo era sustentado por um tronco grosso e alimentado por pedaços de lenha. A lingüiça de carne de porco pura, feita pelo Farid, até hoje inigualável, jamais será esquecida pelos saudosos paladares dos que a degustaram com o pão esquentado na chapa do fogão. Além do pão com lingüiça, a sopa do Farid, que muitas bocas famintas nas madrugadas saciaram, tornou-se famosa e sobre ela muitas estórias são contadas, algumas até lembradas nas belas crônicas do Erasmo no “LIBERDADE DE EXPRESSÃO”. O bife de pernil de porco, cortado da peça pendurada no fumeiro, acompanhado de arroz e feijão e, para os mais exigentes, de ovos estrelados, constituía o prato mais completo daquele cardápio não escrito e consumido pelos mais abastados e por ocasionais vitoriosos nos carteados e na sinuca. Entre os freqüentadores do Farid, alguns desfrutavam uma relação de amizade e lá apareciam durante o dia para degustar uma boa cachaça e algum aperitivo. Entretanto, a freguesia regular e que sustentava o comércio do Farid era de notívagos; jogadores de carteados e sinuca, de boêmios e seresteiros e dos que saiam dos bailes aos finais de semana. A cozinha do Farid era uma festa. Figura singular, Farid calçava um chinelo de pano e caminhava arrastando os pés, sempre com um cigarro de palha na boca. Era um artesão da comida feita no fogão à lenha, que deixou sua marca para sempre na lembrança dos que viveram aqueles bons e inesquecíveis tempos de Miracema. O sapateiro Manuel ostentava na sua oficina uma flâmula do América, seu clube de coração. Essa era a MIRACEMA do tempo da Cozinha do FARID e da Sapataria do ANIBINHA, na Rua Matoso Maia, onde nós, vascaínos, nos reuníamos para vibrar com as vitórias do glorioso Clube de Regatas Vasco da Gama e relembrar seu histórico passado.
José Geraldo Antonio
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