Pág.2-Nº131-Out/10
                                   
  
                        


                      A Criança que Vive em Mim

    
     12 de outubro. Voltei ao meu lugar encantado e me senti novamente criança.   Uma vida simples, pessoas amigas, uma roseira plantada por minha mãe. Eram tantas as rosas que, quando despetalavam, cobriam o chão com um tom vermelho forte. Elas formavam delicadas ondas que cobriam todo o canteiro. Aquela beleza rubra era filtrada pelo meu olhar. O perfume penetrava em nossas brincadeiras, permitindo que a pureza nascesse dentro das cirandas, petecas, casinhas de boneca. Momentos estes, que  alicerçavam o meu mundo de felicidade. Eu era criança e não sentia as dificuldades que invadiam todas as casas da vila em que eu morava.
Só me lembro de que todos dividiam as tristezas e partilhavam fraternidade.
    Nessa visita,  meu  pensamento  confirmou ainda, a   existência  de  um beco que tinha
uma só saída com o gostinho de liberdade. Nossa calçada, um pedacinho em frente ao portão, revelava a maravilha de sair, passear naquele pequeno pedaço, mas sempre vigiada pelo olhar preocupado de mamãe. Eu e minhas amigas de infância, não podíamos fugir daquele espaço, mas podíamos deixar os sonhos acontecerem. A Rua Direita era o meu tesouro e dentro dele lá estava o Bar do Sr. Osvaldo Passos com os seus deliciosos picolés, doces, pastéis, sorvetes, etc. Nós só podíamos, aos domingos, comprar uma unidade. Era sempre uma festa e cada uma tirava uma provinha do que fora escolhido pelas outras amiguinhas. No  final quase não restava nada para a gente, mas dominava o prazer da partilha.
       Reencontro o meu caminho e as minhas pegadas registradas dentro da minha história.
Lá, esbarro em minhas lembranças. Tudo igual, detalhes documentando o que passou. Diviso minha casa fechada e sinto os meus sonhos já mortos, trancados. Meu silêncio percebe que a roseira fora enterrada pelo cimento que tomou o lugar da terra que era o seu alimento, o seu abrigo.
       Engulo o meu soluço. Passos doídos, pesados, caminham na certeza de que nada mais existe  no meu cantinho. Colhi uma rosa vermelha que continua linda em meu pensamento e a depositei na porta fechada da minha antiga morada.



          

                 
       
                                           EDITORIAL
   Ricarda Maria

        
         

                       Mega-Sena da Vida 

   

   Quantos jogam  na  Mega - Sena?  Cada  um  tem  uma  vontade  incontrolável
de  ser  rico, de  ter mais,  muito  mais dinheiro. Comprar o que deseja, esbanjar
em consumismo, voar nas  riquezas  e  oportunidades que, às vezes, só  levam à
infelicidade. É bom lembrar que ser feliz é  ter o sufi ciente para viver sentindo-se
rico com o que tem. Ser simples é ser feliz. É  não  desperdiçar as oportunidades
positivas  como meio de  crescimento. É não  esperar  uma   “bolsa”  cair do  céu,
mas buscar o próprio anzol para pescá-la  nas  águas  da  vida. Ser simples é não
usar  máscaras, mostrando ao  mundo  o  que não é. Mas ter sempre o rosto sem
maquiagem, limpo  ela  simplicidade. Ela  é  a  semente  que  faz brotar a felicida-
de. Colaborando para que o ter mais, o ser mais, o aparecer mais fique enterrado 
junto com o orgulho, para que nasça somente o que é simples como projeto para

         Ser rico é ter:
•  Laços familiares sempre unidos e fortes;
•  Presença na vida do outro;
•  Amigos sinceros;
•  Um emprego digno;
•  Boa saúde;
•  Certeza de que os que amamos estão ao nosso  lado, sem o castigo da
saudade;
•      Viver a espiritualidade ao ponto de partilhá-la com os que menos têm.
•  Fé em Deus e no amor que d’Ele vem.
           

     Cada  um   constrói   o   seu   próprio  alicerce  para  edificar a sua  felicidade,
pois o que é ser feliz para uns não é o desejo de outros. Não existe uma definição
própria  do que é ser feliz. Só que esta verdade não passará a ser felicidade se ela
for transformada em ambição.
      É ilusão buscar a felicidade na Mega -  Sena,  pois  ela  reside  na simplicidade
dos nossos momentos. É  fantasioso  pensar  que  muito   dinheiro  traz  felicidade.
Saber viver com o que tem  é  o  segredo  maior  para uma vida simples, equilibra-
da. Ser  feliz  é  ter  tempo  para viver  liberdade  com  responsabilidade. É  colher
uma fl or, poesiar o nascer e  o  pôr  do  Sol, sentir a chuva molhar o nosso corpo,
seguir de mãos dadas. É acreditar que  Deus  é  a  nossa  maior  riqueza e que Ele
está sempre no meio de nós. Nossa  vida  é  a  nossa felicidade, mas a infelicidade
às vezes invade esse espaço e nos  tornamos  infelizes, mas  sempre  esperando o
retorno de dias melhores.
     Aprendamos a sortear  os  números  da  Mega - Sena  da  vida. Eles  estão nas
mãos do Altíssimo e Ele não  falha  nunca. Somos  sempre  premiados.  Nós  é que
não conferimos os inúmeros  momentos  de  felicidade. Só  conferimos os números
da infelicidade. E saibamos  que  os  da  felicidade  estão  sempre presentes. Basta
que olhemos ao nosso redor...

 

 
 

 

 

                   

               Memória é a lembrança que alguém deixa de si, quando ausente ou
               após sua morte. Reminiscência é a imagem lembrada do passado ou
               fragmento que resta de algo extinto "(Houaiss)

        
               

                             O (IN)VOLUNTÁRIO EXÍLIO 
   
 
 

         No dia 22 deste mês de outubro fez 46 anos que desci do ônibus em Vacaria, no Rio Grande do Sul. Ia tomar posse no Banco do Brasil. A opção pelo banco em detrimento da Petrobrás, em cujo concurso também havia sido aprovado, deveu-se à ditadura instalada à época no país. 
         Trabalhava no Banco de Crédito Real de Minas Gerais no Rio de Janeiro, quando ocorreu o golpe militar que derrubou o Governo João Goulart. Meus amigos em Miracema haviam sido presos. Avisado que se aqui viesse me prenderiam, evitei viajar e permaneci no Rio de Janeiro. Sindicalista militante, não escondia minhas convicções político-ideológicas.
         Após ser aprovado nos concursos daquelas empresas estatais, pedi demissão do Banco Crédito Real, antes de ser incluído na sua lista negra. Aguardei a convocação para os novos empregos. Ao recebê-la, tive que escolher em qual deles iria trabalhar, sabendo que a opção pelo Banco me obrigaria a ir para a cidade de Vacaria, no Rio Grande do Sul, fronteira com Santa Catarina. Diante da situação política existente no país, fui aconselhado por alguns companheiros a não trabalhar na Petrobrás, onde se instalou na ocasião um ambiente de terror, verdadeira caça às bruxas. A opção pela Petrobrás tinha a vantagem de permanecer no Rio de Janeiro e não precisar trancar a matrícula na Faculdade no segundo ano de direito.
           Ao desembarcar do ônibus em Vacaria, que seguiria viagem para Porto Alegre, a vontade foi de subir novamente no coletivo e retornar ao Rio de Janeiro. Senti, ao pisar o solo gaúcho, a solidão do forasteiro desamparado, que chegava a um lugar inóspito e gélido. Apesar de outubro, o minuano já anunciava o que me esperava dali pra frente. Tomei um táxi e me dirigi a um hotel no centro da cidade. Sentindo o frio penetrante do forte vento, saí à rua, depois de me acomodar e tomar um banho. Almocei um churrasco e cerca das 15 horas apresentei-me ao gerente do Banco, que não teve qualquer complacência e marcou a posse para o dia seguinte.
         Iniciava uma nova vida em terra e costumes diferentes. Cheguei à praça principal da cidade, muito bem cuidada com as flores e plantas exuberantes, sobressaindo os pinheiros. Ao fundo, fica a bela Igreja em estilo gótico com as duas torres lanceoladas em busca do firmamento  ladeando a parte central. Os meus olhos curiosos se direcionaram para um grupo de homens de chapéu, bota e bombacha, a maioria agasalhada com poncho, veste própria de inverno e muito utilizada pelos gaúchos. Conversavam animadamente.
Minha passagem pelo Rio Grande do Sul estendeu-se por quatro anos, até conseguir minha transferência para a agência de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro.
(continua)
                                                       
    

 
                                                                                                                   José Geraldo Antonio

 
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