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A Criança que Vive em Mim
12 de outubro. Voltei ao meu lugar encantado e me senti novamente criança. Uma vida simples, pessoas amigas, uma roseira plantada por minha mãe. Eram tantas as rosas que, quando despetalavam, cobriam o chão com um tom vermelho forte. Elas formavam delicadas ondas que cobriam todo o canteiro. Aquela beleza rubra era filtrada pelo meu olhar. O perfume penetrava em nossas brincadeiras, permitindo que a pureza nascesse dentro das cirandas, petecas, casinhas de boneca. Momentos estes, que alicerçavam o meu mundo de felicidade. Eu era criança e não sentia as dificuldades que invadiam todas as casas da vila em que eu morava. Só me lembro de que todos dividiam as tristezas e partilhavam fraternidade. Nessa visita, meu pensamento confirmou ainda, a existência de um beco que tinha uma só saída com o gostinho de liberdade. Nossa calçada, um pedacinho em frente ao portão, revelava a maravilha de sair, passear naquele pequeno pedaço, mas sempre vigiada pelo olhar preocupado de mamãe. Eu e minhas amigas de infância, não podíamos fugir daquele espaço, mas podíamos deixar os sonhos acontecerem. A Rua Direita era o meu tesouro e dentro dele lá estava o Bar do Sr. Osvaldo Passos com os seus deliciosos picolés, doces, pastéis, sorvetes, etc. Nós só podíamos, aos domingos, comprar uma unidade. Era sempre uma festa e cada uma tirava uma provinha do que fora escolhido pelas outras amiguinhas. No final quase não restava nada para a gente, mas dominava o prazer da partilha. Reencontro o meu caminho e as minhas pegadas registradas dentro da minha história. Lá, esbarro em minhas lembranças. Tudo igual, detalhes documentando o que passou. Diviso minha casa fechada e sinto os meus sonhos já mortos, trancados. Meu silêncio percebe que a roseira fora enterrada pelo cimento que tomou o lugar da terra que era o seu alimento, o seu abrigo. Engulo o meu soluço. Passos doídos, pesados, caminham na certeza de que nada mais existe no meu cantinho. Colhi uma rosa vermelha que continua linda em meu pensamento e a depositei na porta fechada da minha antiga morada. |
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Mega-Sena da Vida
Quantos jogam na Mega - Sena? Cada um tem uma vontade incontrolável de ser rico, de ter mais, muito mais dinheiro. Comprar o que deseja, esbanjar em consumismo, voar nas riquezas e oportunidades que, às vezes, só levam à infelicidade. É bom lembrar que ser feliz é ter o sufi ciente para viver sentindo-se rico com o que tem. Ser simples é ser feliz. É não desperdiçar as oportunidades positivas como meio de crescimento. É não esperar uma “bolsa” cair do céu, mas buscar o próprio anzol para pescá-la nas águas da vida. Ser simples é não usar máscaras, mostrando ao mundo o que não é. Mas ter sempre o rosto sem maquiagem, limpo ela simplicidade. Ela é a semente que faz brotar a felicida- de. Colaborando para que o ter mais, o ser mais, o aparecer mais fique enterrado junto com o orgulho, para que nasça somente o que é simples como projeto para
Ser rico é ter: • Laços familiares sempre unidos e fortes; • Presença na vida do outro; • Amigos sinceros; • Um emprego digno; • Boa saúde; • Certeza de que os que amamos estão ao nosso lado, sem o castigo da saudade; • Viver a espiritualidade ao ponto de partilhá-la com os que menos têm. • Fé em Deus e no amor que d’Ele vem.
Cada um constrói o seu próprio alicerce para edificar a sua felicidade, pois o que é ser feliz para uns não é o desejo de outros. Não existe uma definição própria do que é ser feliz. Só que esta verdade não passará a ser felicidade se ela for transformada em ambição. É ilusão buscar a felicidade na Mega - Sena, pois ela reside na simplicidade dos nossos momentos. É fantasioso pensar que muito dinheiro traz felicidade. Saber viver com o que tem é o segredo maior para uma vida simples, equilibra- da. Ser feliz é ter tempo para viver liberdade com responsabilidade. É colher uma fl or, poesiar o nascer e o pôr do Sol, sentir a chuva molhar o nosso corpo, seguir de mãos dadas. É acreditar que Deus é a nossa maior riqueza e que Ele está sempre no meio de nós. Nossa vida é a nossa felicidade, mas a infelicidade às vezes invade esse espaço e nos tornamos infelizes, mas sempre esperando o retorno de dias melhores. Aprendamos a sortear os números da Mega - Sena da vida. Eles estão nas mãos do Altíssimo e Ele não falha nunca. Somos sempre premiados. Nós é que não conferimos os inúmeros momentos de felicidade. Só conferimos os números da infelicidade. E saibamos que os da felicidade estão sempre presentes. Basta que olhemos ao nosso redor...
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Memória é a lembrança que alguém deixa de si, quando ausente ou após sua morte. Reminiscência é a imagem lembrada do passado ou fragmento que resta de algo extinto "(Houaiss)
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O (IN)VOLUNTÁRIO EXÍLIO
No dia 22 deste mês de outubro fez 46 anos que desci do ônibus em Vacaria, no Rio Grande do Sul. Ia tomar posse no Banco do Brasil. A opção pelo banco em detrimento da Petrobrás, em cujo concurso também havia sido aprovado, deveu-se à ditadura instalada à época no país. Trabalhava no Banco de Crédito Real de Minas Gerais no Rio de Janeiro, quando ocorreu o golpe militar que derrubou o Governo João Goulart. Meus amigos em Miracema haviam sido presos. Avisado que se aqui viesse me prenderiam, evitei viajar e permaneci no Rio de Janeiro. Sindicalista militante, não escondia minhas convicções político-ideológicas. Após ser aprovado nos concursos daquelas empresas estatais, pedi demissão do Banco Crédito Real, antes de ser incluído na sua lista negra. Aguardei a convocação para os novos empregos. Ao recebê-la, tive que escolher em qual deles iria trabalhar, sabendo que a opção pelo Banco me obrigaria a ir para a cidade de Vacaria, no Rio Grande do Sul, fronteira com Santa Catarina. Diante da situação política existente no país, fui aconselhado por alguns companheiros a não trabalhar na Petrobrás, onde se instalou na ocasião um ambiente de terror, verdadeira caça às bruxas. A opção pela Petrobrás tinha a vantagem de permanecer no Rio de Janeiro e não precisar trancar a matrícula na Faculdade no segundo ano de direito. Ao desembarcar do ônibus em Vacaria, que seguiria viagem para Porto Alegre, a vontade foi de subir novamente no coletivo e retornar ao Rio de Janeiro. Senti, ao pisar o solo gaúcho, a solidão do forasteiro desamparado, que chegava a um lugar inóspito e gélido. Apesar de outubro, o minuano já anunciava o que me esperava dali pra frente. Tomei um táxi e me dirigi a um hotel no centro da cidade. Sentindo o frio penetrante do forte vento, saí à rua, depois de me acomodar e tomar um banho. Almocei um churrasco e cerca das 15 horas apresentei-me ao gerente do Banco, que não teve qualquer complacência e marcou a posse para o dia seguinte. Iniciava uma nova vida em terra e costumes diferentes. Cheguei à praça principal da cidade, muito bem cuidada com as flores e plantas exuberantes, sobressaindo os pinheiros. Ao fundo, fica a bela Igreja em estilo gótico com as duas torres lanceoladas em busca do firmamento ladeando a parte central. Os meus olhos curiosos se direcionaram para um grupo de homens de chapéu, bota e bombacha, a maioria agasalhada com poncho, veste própria de inverno e muito utilizada pelos gaúchos. Conversavam animadamente. Minha passagem pelo Rio Grande do Sul estendeu-se por quatro anos, até conseguir minha transferência para a agência de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro. (continua) |
| José Geraldo Antonio |
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