Pág.3-Nº131-Out/10
              

 

 
      

POR QUEM OS SINOS TOCAM

      Os sinos que até 1982 alegremente comemoravam vitórias de candidatos miracemenses tocam hoje um badalar plangente, anunciando o fim de mais uma eleição perdida, sem representantes nossos, sem esperança de progresso para o município. Não elegemos ninguem!
   Nossa derrocada começou com o prematuro desaparecimento do Deputado Luiz Fernando Linhares. Até hoje não nos recuperamos do triste acontecimento. Nós que já elegemos três deputados estaduais, estamos reduzidos a isto que aí está: nenhum há 28 anos. Não há união em torno de um candidato de Miracema. Acabamos de perder uma ótima oportunidade de eleger um representante nosso! Uma insensatez! Por que? Porque a cúpula trabalhou para candidatos alienígenas. As vaidades pessoais suplantaram os interesses comunitários e os pretendidos prestígios políticos mostraram que não há líderes na nossa pobre cidade.
  
Desprotegido e carente, qual nau sem rumo, tornou-se o município cobiçado por aventureiros itinerantes abonados tornando pública a prática da gorjeta, do “por fora”. Miracema tornou-se terra de ninguém e daí em diante fomos invadidos por interesses estranhos ao nosso meio, com a conivência de um poderoso corporativismo encastelado e interesseiro. 
 
Atualmente tudo mudou, degenerando os costumes políticos, ignorando a ética, desaparecendo os valores individuais, iniciando o assalto aos votos da comunidade carente enganada em sua simplicidade. Compraram-se consciências, venderam-se promessas, apareceram os pseudônimos fuleiros, banalizou-se a fidelidade partidária, formou-se um círculo de poder que faz e desfaz no comando. E embolsaram um bom dinheiro. Esculhambação total!
  Servo do Executivo vem o legislativo abdicando de sua independência, caminhando aceleradamente para o anonimato, curvando-se humildemente às ordens que recebe obediente por anos e anos de subordinação e espinha baixa. A debandada para a “situação” é a regra, numa humilhante demonstração de submissão, vassalagem, interesses particulares e outros “delitos ribeirinhos”. A concessão de emprego em troco de voto cada vez mais passa a fazer parte da tática eleitoral e é uma vergonha municipal. A distribuição das “boquinhas” entre os amigos nas promessas de campanha independentemente de suas capacidades tornou-se moeda corrente, um escambo. Multiplicaram-se os cargos de chefia com bons vencimentos em prejuízo das verbas para os serviços sociais. A impunidade do político irresponsável é o escárnio do eleitor, é uma bofetada no rosto do cidadão que lhe paga os salários. Não há convivência política civilizada! O Hospital de Miracema perdeu verba municipal, trocada por emprego de incompetentes que mal sabem apertar parafusos. Se a maternidade do Hospital de Miracema for fechada, e isto pode acontecer, seus algozes terão que prestar conta de seus atos perante a história. 
   As várias vanguardas políticas municipais não conseguem aglutinar o povo em torno de propostas sérias simplesmente porque não têm proposta nenhuma e não há união em torno dos problemas comunitários. É uma rotina desesperadora. Miracema se tornou um deserto de líderes e ideias. As campanhas políticas tornaram-se uma guerra de interesses particulares. 
    Portanto, meu conterrâneo, meu amigo, os sinos tocam plangentes por todos nós, passageiros do mesmo barco anunciando o nosso fracasso eleitoral. Enquanto durar esta situação de desinteresse o toque dos sinos rolarão em ondas pelos nossos morros e baixadas, campos e colinas, cidade e distritos, tocando nosso finados, lembrando-nos de nossa pungente realidade, cabendo a cada um de nós transformar este lamento em energia e esperança, reunindo forças para reagir e, quem sabe um dia possamos recuperar o tempo perdido.

 

             

 

  

- A vida paga um prêmio àqueles que aprendem que o riso é porto  vital de viver. É um dos mais ricos presentes de Deus que gosta de pessoas alegres. O mundo também.  (Edwin Davis)

- O segredo da felicidade é não dar importância ao que não tem importância. (Frei Beto)

- O humor é um prelúdio e o riso é o começo da oração. (Reinhold Niebuche).

- Seremos felizes quando pudermos tornar felizes os  que amamos.   (Kahlil Gibran)

- A felicidade não vem da posse ou do domínio, mas de um coração sábio e dedicado. (Francisco Cândido Xavier)

- A alegria e o amor são duas asas para as grandes ações. ( Johann Wolf-Gang Von Goethe).

               

                
FUNDO DE PALCO
         Neide Freitas Gutterres
                

                                                            
                                                    Tempo passado

   

  

      Aquela menina foi criada, no tempo em que o “capeta” andava solto. Portanto, ele praticamente governava o mundo: Isto é pecado, aquilo também, cruz credo! Para não ser partidário do capeta, não se podia gostar de dança, teatro e, principalmente, acompanhar a “moda” no se vestir e muitas coisas mais. Usar vestido sem mangas, saias colantes que contornavam os corpos (Cintura fina tipo violão) eram simplesmente pecado contra a castidade. Insinuava-se contra o sexo oposto. Não se podia, do namorado ganhar um beijo nem por carta.
       Criança bem educada teria que pertencer à Cruzada Eucarística (Associação Religiosa para  crianças) e ai daquela que ao sair da Cruzada, na adolescência não aceitasse ser “Filha de Maria” (Outra Associação.) Este seguimento era natural e “muito democrático”. Caso contrário, seria considerada desnaturada, precisava de uma orientação mais séria. Não valia um simples NÃO, como aconteceu com a tal menina.
      Seria uma boa formação ou deformação?
     A menina questionava sempre para onde iria aquela alma negra, que  mesmo se sentindo leve não concordava com aquela ditadura. Desejava imensamente que houvesse alguma mudança a seu jeito, mais atraente, mais alegre, menos sinistra.
      Era preciso que ela visse coisas impróprias e que calasse diante de absurdos e conformasse com o que lhe era imposto. Criança  não merecia credibilidade.
     
Os erros naturais aos humanos eram freados pelo medo do olhar de Deus severo. Aquilo que poderia ter sido contornado pela vigilância no caminho do amor levava mais a culpa, a insegurança, a falta de otimismo e desesperança.
   
Não digo que isso não valeu, de certo modo sim, disse a menina.  Ela pode exercitar-se no calar, não causando desavenças, sofrimentos, desgostos mal querenças, coisa que a menina preza até hoje e glorifica a Deus.
  
 Ah! Se ela tivesse  sido criada nessa época de hoje, com a oportunidade de expressar-se a  Deus Todo Poderoso dançando em ritmo de rock, samba, balada etc. Faria de sua vida um show! Não há mais diabos! Iria adorar evidentemente. Tudo é natural. Poderia haver coisa melhor?
   
Certamente essa criação ou renovação não deixará sequelas, pois não oprime a criança, mostrando-nos um Deus numa apelação aceitável, harmoniosa, criadora, controladora dessa humanidade que deve saber para onde vai.
   
Foi difícil para a menina uma reconciliação interior, assegurando-lhe um coração cheio de contradições que culminou talvez nessa conclusão reflexiva sobre o exagero que se pregava por imposição.
   
Mas, a menina coitada, fica entre a cruz e a caldeirinha. Meio lá, meio cá. Em sua cabeça agora uma vontade se instala: fundar uma religião onde Deus só exija moral. Moral na família, no trabalho e na sociedade, onde a promoção do amor e a paz de espírito fossem fundamentadas pela justiça. Assim todos teriam o direito de bradar  um amigo Deus!
  
 Porque cantar, dançar, beijar enfim tudo isso que aquele Deus não quis a menina fez escondido. “Profanou-se na moral” daquela época. 
                                             



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