Pág.8-Nº111-Fev/09
                                                                                        


 Tema: Poder

 Todo o poder modifica,
 A alma bonita de alguém.
 A vaidade sempre fica,
 E a inimizade também.

 Tema: Praça

 A Praça ficou fechada.
 Quanto ciúme provocou.
 Cá de fora a criançada,
 Dentro, só o luar ficou.

 Tema: Árvores.

 No visual de nossa Praça,
 Faltava o verde - esperança.
 Cada árvore agora abraça,
 A saudade que hoje dança.

 Tema: Lourdes

 Num mundo de guerra e luta,
 Bernadete viu a paz.
 Em Lourdes, dentro da gruta,
 Maria o terço lhe traz.

 (11 de fevereiro,Dia de N.S.de Lourdes).

  

 A chamada da TV Globo para o carnaval, “vem, pra ser feliz”, desperta o tempo em que a revista “Vida Doméstica” mostrava modelos de fantasias e era folheada inúmeras vezes a fim de que as pessoas escolhessem as que mais gostassem.
 Eram odaliscas, com véus misteriosos, cobrindo parte do rosto, eram russas, de cetim vermelho com marabu branco, contornando a barra e mangas da túnica, botas de verniz de canos longos e um “regalo” de arminho para cobrir as mãos (que calor!), semelhante aos dos soldados russos. Os palhaços coloridos, com trejeitos alegres, contagiavam com suas cores a todos que os viam na revista. Os piratas com um dos olhos tapado, davam a impressão da sua astúcia. Parecia vê-los nos tombadilhos dos navios, enfunando as velas, deslizando pelos mares como suaves garças. As baianas, com saias de rendas, fitas, colares, pulseiras, turbante com frutas, enfeitavam a cabeça, lembrando à talentosa Carmem Miranda (dia 09 de fevereiro, completaria cem anos) que tanta influencia trouxe aos filmes brasileiros, à sociedade e aos shows dos antigos Cassinos do Rio de Janeiro. Essa artista ficou na memória de quem sempre a viu com tanta alegria, cantando “O que que a baiana tem?”. Tudo isso na revista era um misto de “Confete, pedacinho colorido de saudade” e serpentinas, cobrindo os foliões, enfeitando a ilusão dos três dias.
 Não tinha importância, se após esses dias a “Máscara Negra”, que escondia o rosto da amada ou do amado caísse da face, desdizendo às juras de amor, que no afã da festa tinham sido feitas. Talvez fosse um “Pierrô apaixonado que vivia só cantando”, pelo amor da Colombina ou por um outro que se despedisse da amada para pegar o “Trem das onze”, pois a mulher de verdade –“Ai que saudade da Amélia”, tinha apertado seu coração e ela estaria a lhe esperar. Como na festa de Momo, muitas coisas passam do sonho à realidade, ele pediria ao amor do carnaval –“Bandeira Branca, não posso mais...”, e então, “vou beijar-te agora, hoje é carnaval” e assim chegaria à quarta-feira de Cinzas, em que o folião iria à Igreja pedir perdão pelos seus arroubos momescos.
 Além das revistas, a expectativa era grande à espera desses dias de alegria e para completar, a banca de jornal e revistas do senhor Nenê Amaral, na Rua Direita, vendia um livreto com as músicas de carnaval, para que todos aprendessem a cantar e nos bailes acompanhar o conjunto. Quando se é adolescente, tudo é novidade e era muito importante que ao participar da folia, soubesse as músicas para interagir melhor.
 Houve um ano, em que quatro amigas resolveram fazer fantasias iguais, um bloco, para os grandes bailes. A procura nas revistas foi incansável, até que ficou decidido, fariam uma linda Mexicana. A saia seria vermelha, cada uma bordaria a sua com aplicações de flores de feltro e folhas trabalhadas com sutache. O interessante é que a saia seria curta na frente e comprida atrás e a blusa branca com aplicações coloridas salpicadas de vidrilhos e para completar, sandália vermelha. Somente uma dúvida permanecia: O que colocar na cabeça?
 Aqui em Miracema, as opções eram poucas para os que vendiam esses adereços para o carnaval. O mais certo seria comprar com o senhor Ernesto Granato, cuja loja arrumada para aquela ocasião, possuía muitos adornos, materiais carnavalescos como lantejoulas, contas para bordados, além de confetes, serpentinas, colares de flores e muitas outras novidades. Só não tinha o tal chapéu mexicano para complementar as fantasias das amigas. Após vários dias, não achando o que queriam, lembraram de D. Aida Perlingeiro, ela confeccionava flores e sem hesitar, encomendaram um arranjo colorido para a cabeça. Essa senhora morava numa casa grande, de janelas verdes e um quintal que ia até o ribeirão, bem ali, onde hoje reside Nedi e Gutemberg.
 O dia se aproximava em que as amigas usariam a famosa fantasia para fazerem parte daquela loucura de alegria, no Aero Clube, e quem sabe, disputar o concurso de blocos, que sempre acontecia no último dia.
 Finalmente chegou o tão esperado domingo de carnaval e juntas foram pela Rua Direita, (acompanhadas pelos pais) cantando: “Chiquita Bacana”, que estava no auge da Radio Nacional, na voz de Emilinha Borba, até adentrarem ao salão.
 As flores feitas por dona Aida, foram colocadas prendendo os cabelos. Elas eram vermelhas, grampeadas a uma fita da mesma cor, amarrada bem próxima a testa para não deixar nenhum fio desalinhado cair no rosto. O calor intenso de fevereiro, o clube muito cheio e o entusiasmo da juventude, não as permitiam ver o que estava acontecendo. O tempo passava e no clímax do baile, elas estavam tão envolvidas com a alegria que não notaram que uma delas ao passar sambando por baixo do palco onde estava a banda, o vocal (naquela época, se chamava Crooner), que já estava bem “alto”, deu paradinha na “Jardineira” e disse num tom estridente: -Tem uma menina com a testa ensangüentada”. Foi um rebuliço. A amiga nem deu pelo o que se passava, mas o cantor continuava a gritar; -“tem mais uma”. Nem sequer, elas poderiam pensar que os olhares de quase todos lhes eram dirigidos, IMAGINE!!! As flores eram de papel crepom e com o suor, começou escorrer pela testa, sem que percebessem. Foi um Deus nos acuda, até que souberam do que se tratava.
 Passado a confusão e o susto, as amigas foram para o toalete e lá riram a mais não poder. Tiraram as flores dos cabelos e da janela do Aero Clube, as atiraram no ribeirão. Lá foram elas, tingindo as águas que bem depressa as levaram para um remanso, ficando encalhadas no capim que beirava as margens. Naquele instante que observavam as flores indo ao léu da correnteza, a banda invocou a “Estrela Dalva no céu desponta”, para que a “Lua ainda tonta” lançasse seus raios de luz sobre as quatro amigas, mostrando a elas, a beleza da juventude, à amizade, o companheirismo e a alegria de viver, era como cantavam “As Pastorinhas... lindos versos de amor”. Não tiveram medo de “pagar mico”, como hoje dizem, mas, sim, apenas o desejo de serem felizes e o que realmente esses dias significavam. Sem temor das disputas, dos troféus, dos títulos, da melhor e mais bonita fantasia. Naquele momento só o que valia era guardar a lembrança de tudo o que se passava. Aconteceu nesta “Cidade Maravilhosa... Cheia de encantos mil... terra que a todos seduz... ninho de sonho e de luz”.
 Hoje, recordando, penso que aquelas flores fazem parte da minha história de vida, como também dessas queridas pessoas, cuja amizade é muito grande e quando nos encontramos, rimos bastante e nos deliciamos com as lembranças, embora role uma lágrima de saudade de uma delas, que se transformou em “Estrela de Luz”.


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