Pág.8-Nº112-Mar/09
                                                                                                       


 
 

  Tema: Sina

  Estou triste novamente,
  Não consigo mais mudar.
  É minha sina permanente,
  Minha dor é o meu altar.

  Tema: Poesia

  Aquele que faz poesia,
  Só extravasa emoções.
  Segredo confidencia,
  No ouvido das inspirações.

  Tema: Mulher

  Ela é a imagem sem par,
  De uma flor que você quer.
  Só o amor pode festejar,
  A existência da mulher.

  Tema: Banquinhos

  Vejo pessoas sentadas,
  Nos banquinhos lá da Praça.
  Lembram aventuras passadas,
  Na saudade que não passa.

  

 

                                   A música embala os sonhos, recordações e o viver.

 A vida é o desenvolver das emoções, tristezas e alegrias sempre acompanham a alma com uma trilha sonora, sejam quais forem às circunstâncias que lhes são oferecidas.
 Numa novela, todas as cenas são marcadas por músicas, dando o toque essencial, para que os momentos importantes sejam sempre lembrados. Assim também é meu modo de estar presente no dia a dia. Procuro fazer todo o possível para que meus passos tornem-se cadenciados como se estivessem envolvidos por sons, parece até que ouço uma melodia pairando no ar, mesmo nos instantes de saudades, preocupações e decisões. Será que é incoerente o que estou a escrever? Digo, com certeza, que não.
 Manhã de terça-feira de carnaval, o sol aquecia e coloria de laranja todo o quintal, a brisa soprava bem de leve, balançando as samambaias “choronas” que pareciam acenar para as nuvens.
 O silencio da paisagem era quebrado pelo chilrear dos periquitos – Toinho e Chiquinho – presos numa gaiola e quem sabe? Estariam até pipilando uma triste canção por permanecerem ali. Acompanhando aquele canto, os pardais voavam em bando de dois a três e ao mesmo tempo, com rapidez trinavam acordes fazendo da manhã um palco, e eu, espectadora podia ouvir nitidamente a sinfonia que Deus me presenteava.
 De repente, a realidade se colocou presente. Era carnaval e a orquestra da Natureza composta por esses seres, foi substituída pela música quente e contagiante de um carro que passou tocando: “você partiu / saudade me deixou / eu chorei”. Não acreditei no que ouvia. Não é que voltaram a regravar as músicas de épocas passadas!? Fiquei feliz, lembrei-me de quando era criança ouvi-la cantada pela Carmem, a Bá da minha infância. Fui até ao portão e acompanhei o carro com o olhar de quero - mais para matar a saudade de um tempo que vai longe.
 Como disse, a vida tem sempre como complemento um fundo musical. Quando se é criança, a alma é apresentada às cantigas de ninar: “Boi, da cara preta / pega esta criança / que tem medo de careta...”, era para que fechasse os olhos e dormisse, temendo que ele aparecesse. Outras canções eram inventadas até que se pegasse no sono ou como dizia a Bá, cair nos braços de Morfeu (Deus do sonho da Mitologia Grega). Não se pode fugir à sua herança e por isso continuei na escala musical das canções de adormecer e segui a tradição, compondo para o meu neto Gabriel:... Canto as canções de roda / para o anjo adormecer / peço a Deus para lhe dar / um eterno e bom viver...
 E as cantigas de roda? Logo após o jantar, a meninada ia pra calçada brincar. Vinham as músicas alegres, fazendo dançar: “pai Francisco entrou na roda... / parece um boneco desengonçado...”, os gestos, os requebros iam se fazendo e a cantoria continuava chamando: “entrai na roda, linda menina e abraçai a companheira...” àquela escolhida ia para o centro e tinha que falar uma trova.
 Tudo era música, até o jogo de bola na parede que se jogava, cantando: “primeiro, seu lugar, sem rir, sem falar, em um pé, no outro”..., assim por diante, até a bola cair, passando para outra colega e a disputa chegar ao fim.
 O “long play” (LP) da vida vai tocando e a faixa musical vai mudando de acordo com o tempo que se está vivendo. Eram músicas infantis, que acompanhavam a trajetória no jardim da Infância: “Viva o sol / o sol da terra / vem surgindo / atrás da linda serra...”. Eram hinos religiosos que levavam a alma da criança vestida de anjo, a homenagear à Virgem Maria: “Mãezinha do céu / eu não sei rezar...”. Eram hinos patrióticos durante a adolescência mostrando que na vida o importante é respeitar, ter ética e amar seu País. Eram seresteiros, banhados pelos raios do luar, deixando pelas ruas suas canções de saudade, queixumes e amor a suas amadas. E as músicas que enlevavam os sonhos da juventude? Ora um encontro na Rua Direita ao som da rádio – da Loja José de Assis (Rei dos Barateiros), ora um namoro e os bailes inesquecíveis em que docemente era sussurrado ao ouvido: “El dia en que mi quieras” e daí sentir o pulsar do coração mais forte. Nesse caso, parecia o despertar de um conto infantil e então, passava-se a entender que a música que o acompanhava havia mudado de ritmo, ia se misturando ao som cristalino do toque de duas taças. Tudo isso fazendo lembrar um brinde de musicalidade como as ondas do “La mer”, que vão se espraiando, deixando marcas de saudade.
 É sempre a música a marcar a vida.
 O tempo é implacável e vai girando como um CD, não mais como um Long Play (LP), em ritmo caliente de “Besame Mucho”, porém acelerado como a de um funk, como a dizer ao mundo que não se pode parar e tem que correr muito para não ficar fora dele. Mesmo assim, a vida é embalada por este som frenético, pois mudanças são necessárias e a música tem que ser para sempre, porque cada pessoa tem sua trilha sonora.
 A manhã daquela terça-feira ainda não tinha terminado e vi que tantas recordações do fundo do meu passado vieram à tona, emendando com o presente. Foi então que procurei o oposto, deixei o sol lá fora com o canto da natureza e fui em busca de uma música inesquecível de várias gerações MOONLIGHT SERENEDE, do grande compositor americano Glenn Miller na orquestração de Mantovani. Senti meu eu revitalizar e à proporção que ouvia me lembrava das melodias que embalaram centenas de casais nos bailes em que a Orquestra Severino Araújo era o ponto alto nas noites de gala miracemense. Cada instante que passava, minha alma se certificava cada vez mais que a música é o bálsamo para todas as tristezas e alegrias que a vida proporciona. Pude senti-la mais ainda quando a pianista e escritora chineza ZHU XIAO-MEI disse sobre o regime de MAO TSE-TUNG: “Ele tinha medo da força da música, por isso enviava os artistas para o campo de trabalho forçado” (entrevista no jornal O Globo 31/01/2009). Com isso, ela quis mostrar em seu concerto que hoje à China é mais aberta e alegre, recebendo músicas até de outros Paises.
 Naquela terça-feira de carnaval, fechei o dia tocando no teclado a lembrada bossa nova “Manhã de Carnaval” de Luiz Bonfá e Antonio Maria: “Manha tão bonita, manhã / na vida uma nova canção... canta o meu coração / a alegria voltou / Tão feliz a manhã...”

 
Página 1Página 2Página 3Página 4Página 5Página 6Página 7Página 8Mural de RecadosGaleria de ImagensExpediente