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Desenhos de Márcio Granato Menezes |
| O Bar do Seu Osvaldo
e a Padaria do Seu Olímpio
Ponto de encontro dos estudantes e dos namorados, o Bar do Seu Osvaldo marcou época em Miracema. Situado na esquina da Rua Direita com a Rua do Centenário, depois Rua Barroso de Carvalho, o Bar do Seu Osvaldo vendia os melhores doces, os deliciosos pasteizinhos e as autênticas empadas, feitos com esmero por D. Conceição, esposa do Sr. Osvaldo Passos. Muito requisitada, D. Conceição também fazia doces para as festas de aniversários, ocasião em que seu cardápio era ampliado, acrescentando, ao inesquecível e imbatível "quero-mais", olho de sogra, casadinho, cajuzinho, bombocado, manjar... Após o falecimento do seu marido, D. Conceição, auxiliada pelos filhos, deu continuidade ao estabelecimento, que passou também a ter referência como "bar da Verinha", a mais velha das filhas do Seu Osvaldo. O Bar possuía várias portas, com acesso tanto pela Rua do Centenário, como pela Rua Direita. No seu interior, o salão com as mesas redondas de tampo de mármore branco e suporte de ferro trabalhado. As cadeiras, como o balcão em toda a extensão de um lado do estabelecimento, eram de madeiras feitas pelo Seu Osvaldo, que, dentre outras aptidões, foi um artífice em talhar madeiras. Uma vitrina junto ao balcão exibia os doces e os salgados. Na outra extremidade, a sorveteria, com a máquina de café e a geladeira. O espelho na parede entre as portas do lado da Rua do Centenário compunha um ambiente harmonioso e dava um charme que lembrava os cafés das metrópoles, convidando os que passavam a entrar e sentar-se calma e serenamente, refletindo um ambiente próprio da belle époque. Naquela época, Miracema não oferecia muitos espaços para os jovens namorados. Além do "Jardim" (Pça. D. Ermelinda) e os passeios na Rua Direita, restavam aos casais os encontros no Bar do Seu Osvaldo, mas sem os beijos furtivos, reservados para as sessões dos cinemas Sete e Quinze. As intimidades mais ousadas somente nos bancos do "Jardim", onde um deles, o mais procurado, era conhecido como "geladeira", provavelmente porque, de cimento - debaixo de uma frondosa árvore e protegido do sol, mantinha uma temperatura sempre fria. Nos carnavais, o Bar do Seu Osvaldo servia de abrigo para os foliões. Depois da matinée no Primavera, salão da Banda 7 de Setembro, tradicional baile carnavalesco vespertino, íamos para o Bar do Seu Osvaldo, dando continuidade à alegria de quem não queria perder um momento sequer dos efêmeros três dias de felicidade. Juntavam-se as mesas e ali bebíamos e cantávamos as músicas de sucesso do ano e dos carnavais passados, todos na expectativa do baile noturno no Aero-Clube, ponto culminante do carnaval daquele tempo, no salão ornamentado com confetes e serpentinas, repleto de pierrôs, arlequins e colombinas, todos inebriados pelo aroma dos lança-perfumes utilizados em profusão. O Bar do Seu Osvaldo foi palco e testemunha de idílios nascidos dos encontros marcados e dos desenganos refletidos na tristeza da mesa vazia e abandonada. Depois, restou a lembrança dos que o freqüentaram e a saudade dos momentos desfrutados naquele ambiente familiar e gostoso. No lado oposto ao Bar, na Rua Direita, ficava a Padaria do Seu Olímpio. Aos meus olhos de criança, guardo na lembrança a figura daquele senhor claro, alto e de cabelos brancos, tendo ao lado sua esposa de estatura baixa, também clara e de cabelos brancos. Com seus filhos, de idênticas características germânicas, formavam uma família uniforme e peculiar nesta cidade tão diferente das habitadas pelos seus ancestrais. Se não desvirtuada pelos anos, lembro, na visão da criança, a moenda de cana, talvez a única existente no comércio central da cidade, produzindo o gostoso caldo gelado. O sorvete, o picolé redondo e o "pão do alemão", inigualável e sem concorrente. Mas, especial mesmo na Padaria, a inesquecível rosca de polvilho, jocosamente apelidada de "biscoito de vento". Os adultos brincalhões e gozadores abusavam das crianças e as pediam para comprar na padaria o "biscoito de vento", entregando o dinheiro para pagar. O meninos chegavam à Padaria e pediam ao Seu Olímpio o "biscoito de vento". O velho Olímpio, indignado, os repreendia e as crianças, acabrunhadas, retornavam com as roscas de polvilho, para entregá-las aos "covardes" adultos, que ficavam rindo da maldosa brincadeira, sabedores de ser o vento soprado pelos deuses da culinária. Confinada na residência que ficava nos fundos do estabelecimento, a família, na mente infantil, cobria-se de mistérios e segredos. Seus integrantes raramente saiam do estabelecimento e tendo a epiderme extremamente alva, imaginavam-se intocáveis pelos raios solares, o que contribuía ainda mais para despertar a sinistra curiosidade dos fregueses. O mistério e o sinistro, na dimensão de uma criança, ultrapassavam os limites do inimaginável e iam penetrar nos tortuosos caminhos da consciência em formação, sem capacidade para compreender a triste realidade da infortunada família. Durante algum tempo, Leco, filho do Seu Olímpio, embora de forma mais modesta, deu continuidade ao comércio. Posteriormente, partiu da cidade com sua companheira e hoje a Padaria não mais existe e não se sabe se a família do Seu Olimpio teve o mesmo destino. Depois dessas reminiscências, fecho o álbum da memória e os retratos amarelados pelo tempo vão continuar guardados na lembrança do "Bar do Seu Osvaldo" e da "Padaria do Seu Olímpio", ornamentos da infância e mocidade vividas em minha adorável Miracema.
José Geraldo Antonio
Sr.Oswaldo, sua esposa Conceição e a filha Vera
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