Pág.2-Nº133-Dez/10
                                   

    Desde que nascemos, vivemos intensas guerras.  Aquela  paz  existente  durante
os nove meses no seio materno deu   lugar à  guerra dos sons, das luzes, do vento,
do frio, do calor, da dor. Fomos crescendo e  veio    a guerra   dos  sentimentos:  o
amor promovendo uma luta contínua  contra   o ódio, a humildade massacrada pela
vaidade, o egoísmo fechando as mãos  desejosas  de  viver  a  partilha. Ainda, hoje,
somos constantemente jogados no estonteante  universo  da  competição  em todos
os seguimentos.   Aprendemos, assim, que a vida é uma constante batalha.
    Hoje, a   violência  vem  crescendo   vertiginosamente  gerada  pelo    tráfico  de
drogas que   provoca a morte do corpo e da alma, afl orando a ambição de realizar
o impossível por   prazeres   ilusórios  ou  por  dinheiro.  Os bandidos   dominam os
espaços, impondo que seus desejos sejam realizados a todo o custo.
      Nós  testemunhamos,  estarrecidos,  esse  tipo  de  guerra   ocasionada   pelas
facções do  tráfico e a intervenção das  forças  armadas,  num confronto interno na
Cidade do Rio do Janeiro.  As  imagens  foram  fotografadas  mostrando um tempo
de violência, vingança, horror.   Cenas  tecidas  com  pavor  e  sangue  mostravam
e cercavam os corpos caídos,  alguns  já  sem  vida.  Vimos  o  desespero   gerado
por uma guerra que provocou  conflitos  angustiantes  e  estarrecedores,   gerando
sentimentos de repulsa e de revolta em todo o país.
     Não ficamos  insensíveis às constantes preocupações com aqueles que
residiam nos dois espaços. Acreditamos, sim, na esperança que nos levou a sonhar
com a paz solidária que  pouco  a  pouco renascia.  Torcemos  por  estratégias que
mostrassem a certeza de que “a paz é um esforço contínuo para um único abraço:
a fraternidade nascida da coragem heróica”.
      Em nossa jarra, existe  a  última  rosa  do  ano  que é oferecida a todos os que
lutaram por essa tranquilidade.   E  como  o anjos, eles continuem cantando diante
do presépio do Menino Deus: “Paz na Terra aos homens de boa vontade.”
       Feliz Natal para todos!
 
       “A vida é a única guerra, na qual ao fi nal saímos todos mortos”.  

                                                                                        

 
 
    
                                           EDITORIAL
   Ricarda Maria

 

      

          Natal e Ano  Novo   ocasiões  para  pensar,  refletir:  O  que  fizemos ou deixamos
de fazer.
       Nossas palavras feriram  ou  serviram  como  bênçãos?  Sabemos  que  é do silêncio
que germinam  as mais   emocionantes  poesias,   as mais puras orações. É preciso  falar
pensando sempre que a escuta  de  alguém deve receber palavras santifi cadas. É gratifi -
cante entornar palavras que ajudem ou que façam alguém crescer em todos os sentidos.
Antes de falar, precisamos com urgência, medir as palavras e nos questionar:
      -Será que gostaríamos de escutar  o  que dissemos?  Palavras que ferem, machucam
que afastam uma amizade,  que   transformam  a nossa face em máscara de desesperan-
ça?
      -Nós acusamos, sem  ter  a  certeza  do que realmente aconteceu? Nossa consciência
pesará muito, nossa cabeça não caberá em nosso travesseiro, se julgarmos alguém antes
de uma solução esclarecedora.  Ao  invés  de  julgarmos, o mais importante é pensar mui-
to, muito mesmo antes do julgamento.  O  oferecimento  de  nossa ajuda seria um reforço
irresistível para que pudéssemos  continuar  uma  amizade.  “Ser pedra é fácil, difícil é ser
vidraça”.
     -E a pessoa que levou  o  outro  a  agir  dessa  maneira,  julgando,  decepcionando até
o desmoronamento de uma  forte  amizade, também, precisa se abrir, explicar, lutar para
que tudo chegue ao normal. È um dever.
    “Não julgueis, para que  não  sejais  julgados. ” disse Jesus.  Se  olharmos  para dentro
de nós, descobriremos que   quantos teriam  nos  julgado  pelos nossos inúmeros defeitos
ou  faltas, mas  foram mais  ponderados,  mais caridosos   e não nos  feriram.   O ano  se
tornaria realmente novo    se     abríssemos o nosso coração,  mostrando a grandiosidade
da nossa alma.    
      É tempo de esquecer o  ódio, a raiva,  a vingança  e penetrar   na  paz  que nos traz o
Menino Deus. Ele abrirá a corrente que amarra o coração e soltará para sempre a mágoa,
a vaidade, o orgulho e o egoísmo.  É  tudo  o que  precisamos  para  viver   todo o ano de
2011 plenamente libertador, iluminado...

                   

               Memória é a lembrança que alguém deixa de si, quando ausente ou
               após sua morte. Reminiscência é a imagem lembrada do passado ou
               fragmento que resta de algo extinto "(Houaiss)

                                   O (IN)VOLUNTÁRIO EXÍLIO III
   
     


   

      Dentre os acontecimentos   vividos   em Vacaria,  há  um  inesquecível. Em agosto de
1965, numa tarde de sábado,    estava   na alfaiataria de um amigo. Identifi cávamos nas
ideias políticas e sempre o procurava   para   conversar.   Exercia  virtuosamente o  ofício
e sua arte era proclamada  na cidade.   Quem  nos  apresentou  foi  o  bioquímico Airton,
fraternal amigo que   revi  muitos   anos depois,   quando  visitei  Vacaria  com  Christina,
minha mulher.
       Conversava  com  o  meu  amigo  Roveda, no  seu  ateliê,  no terceiro  andar de um
prédio situado na praça principal   da   cidade.  Fazia  muito   frio  e o céu estava coberto
de nuvem branca. O ar parado,  as  folhas  das  árvores  inertes  e  a temperatura caindo
vertiginosamente prenunciavam  algum  acontecimento.   Roveda  me  perguntou: - O Zé!
Tu já vistes neve?  - Não, respondi. - Então, te prepara, porque não tarda a nevar. Logo
em seguida, os granizos  começaram  a  rolar  no  telhado  vizinho  que se avistava da ja-
nela da Alfaiataria. Meu  amigo   fechou   o  ateliê   e  descemos. Várias pessoas estavam
nas portas dos bares. Os  flocos  desciam  do céu e descortinavam uma paisagem que eu
só conhecia  do  cinema.   Fiquei deslumbrado.  Tornei-me  criança  e deixava a neve cair
sobre meu corpo.  O frio durante  a  neve não é tão intenso.  No  degelo,   fica  insuportá-
vel. Depois de bebermos umas  taças  de  vinho,  caminhamos  pelas  ruas com a neve se
acumulando no chão. Foram  três  dias  de muita  farra.  Cessada a neve, o degelo trouxe
muito desconforto para  todos e,  para  os  carentes de recursos, intenso sofrimento. Num
daqueles dias, depois de  encerrado o  expediente  bancário, não querendo perder um mi-
nuto sequer do raro  acontecimento,  me  dirigi à  praça e  sentei  com uns amigos no bar,
de onde passamos a olhar a  neve  cair, degustando  croquetes  de  carne  feitos na hora,
acompanhados de  conhaque  e  caipirinha.  À  noite, fomos  até o cabaré que ficava afas-
tado do centro da cidade. Ao som do bandônion,  gaúchos   de  bombacha e bota, alegres
e prosas, dançavam com as  chinas  os  tangos  e  milongas, primorosamente executados
por um argentino nativo, de idade avançada  e  amasiado  com a dona do cabaré. Do lado
de fora a neve continuava. Os fl ocos se refl etiam na luz dos postes e caíam levemente.
Soltos, balançavam na    brisa   da  madrugada  e bailavam  ao  som   da música vinda de
dentro do cabaré. (continua)
                                                                      
                                                                                                                                                                         

                                                                                                                   José Geraldo Antonio


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