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Desde que nascemos, vivemos intensas guerras. Aquela paz existente durante os nove meses no seio materno deu lugar à guerra dos sons, das luzes, do vento, do frio, do calor, da dor. Fomos crescendo e veio a guerra dos sentimentos: o amor promovendo uma luta contínua contra o ódio, a humildade massacrada pela vaidade, o egoísmo fechando as mãos desejosas de viver a partilha. Ainda, hoje, somos constantemente jogados no estonteante universo da competição em todos os seguimentos. Aprendemos, assim, que a vida é uma constante batalha. Hoje, a violência vem crescendo vertiginosamente gerada pelo tráfico de drogas que provoca a morte do corpo e da alma, afl orando a ambição de realizar o impossível por prazeres ilusórios ou por dinheiro. Os bandidos dominam os espaços, impondo que seus desejos sejam realizados a todo o custo. Nós testemunhamos, estarrecidos, esse tipo de guerra ocasionada pelas facções do tráfico e a intervenção das forças armadas, num confronto interno na Cidade do Rio do Janeiro. As imagens foram fotografadas mostrando um tempo de violência, vingança, horror. Cenas tecidas com pavor e sangue mostravam e cercavam os corpos caídos, alguns já sem vida. Vimos o desespero gerado por uma guerra que provocou conflitos angustiantes e estarrecedores, gerando sentimentos de repulsa e de revolta em todo o país. Não ficamos insensíveis às constantes preocupações com aqueles que residiam nos dois espaços. Acreditamos, sim, na esperança que nos levou a sonhar com a paz solidária que pouco a pouco renascia. Torcemos por estratégias que mostrassem a certeza de que “a paz é um esforço contínuo para um único abraço: a fraternidade nascida da coragem heróica”. Em nossa jarra, existe a última rosa do ano que é oferecida a todos os que lutaram por essa tranquilidade. E como o anjos, eles continuem cantando diante do presépio do Menino Deus: “Paz na Terra aos homens de boa vontade.” Feliz Natal para todos! “A vida é a única guerra, na qual ao fi nal saímos todos mortos”.
Natal e Ano Novo ocasiões para pensar, refletir: O que fizemos ou deixamos de fazer. Nossas palavras feriram ou serviram como bênçãos? Sabemos que é do silêncio que germinam as mais emocionantes poesias, as mais puras orações. É preciso falar pensando sempre que a escuta de alguém deve receber palavras santifi cadas. É gratifi - cante entornar palavras que ajudem ou que façam alguém crescer em todos os sentidos. Antes de falar, precisamos com urgência, medir as palavras e nos questionar: -Será que gostaríamos de escutar o que dissemos? Palavras que ferem, machucam que afastam uma amizade, que transformam a nossa face em máscara de desesperan- ça? -Nós acusamos, sem ter a certeza do que realmente aconteceu? Nossa consciência pesará muito, nossa cabeça não caberá em nosso travesseiro, se julgarmos alguém antes de uma solução esclarecedora. Ao invés de julgarmos, o mais importante é pensar mui- to, muito mesmo antes do julgamento. O oferecimento de nossa ajuda seria um reforço irresistível para que pudéssemos continuar uma amizade. “Ser pedra é fácil, difícil é ser vidraça”. -E a pessoa que levou o outro a agir dessa maneira, julgando, decepcionando até o desmoronamento de uma forte amizade, também, precisa se abrir, explicar, lutar para que tudo chegue ao normal. È um dever. “Não julgueis, para que não sejais julgados. ” disse Jesus. Se olharmos para dentro de nós, descobriremos que quantos teriam nos julgado pelos nossos inúmeros defeitos ou faltas, mas foram mais ponderados, mais caridosos e não nos feriram. O ano se tornaria realmente novo se abríssemos o nosso coração, mostrando a grandiosidade da nossa alma. É tempo de esquecer o ódio, a raiva, a vingança e penetrar na paz que nos traz o Menino Deus. Ele abrirá a corrente que amarra o coração e soltará para sempre a mágoa, a vaidade, o orgulho e o egoísmo. É tudo o que precisamos para viver todo o ano de 2011 plenamente libertador, iluminado... |

Memória é a lembrança que alguém deixa de si, quando ausente ou após sua morte. Reminiscência é a imagem lembrada do passado ou fragmento que resta de algo extinto "(Houaiss)
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O (IN)VOLUNTÁRIO EXÍLIO III
Dentre os acontecimentos vividos em Vacaria, há um inesquecível. Em agosto de 1965, numa tarde de sábado, estava na alfaiataria de um amigo. Identifi cávamos nas ideias políticas e sempre o procurava para conversar. Exercia virtuosamente o ofício e sua arte era proclamada na cidade. Quem nos apresentou foi o bioquímico Airton, fraternal amigo que revi muitos anos depois, quando visitei Vacaria com Christina, minha mulher. Conversava com o meu amigo Roveda, no seu ateliê, no terceiro andar de um prédio situado na praça principal da cidade. Fazia muito frio e o céu estava coberto de nuvem branca. O ar parado, as folhas das árvores inertes e a temperatura caindo vertiginosamente prenunciavam algum acontecimento. Roveda me perguntou: - O Zé! Tu já vistes neve? - Não, respondi. - Então, te prepara, porque não tarda a nevar. Logo em seguida, os granizos começaram a rolar no telhado vizinho que se avistava da ja- nela da Alfaiataria. Meu amigo fechou o ateliê e descemos. Várias pessoas estavam nas portas dos bares. Os flocos desciam do céu e descortinavam uma paisagem que eu só conhecia do cinema. Fiquei deslumbrado. Tornei-me criança e deixava a neve cair sobre meu corpo. O frio durante a neve não é tão intenso. No degelo, fica insuportá- vel. Depois de bebermos umas taças de vinho, caminhamos pelas ruas com a neve se acumulando no chão. Foram três dias de muita farra. Cessada a neve, o degelo trouxe muito desconforto para todos e, para os carentes de recursos, intenso sofrimento. Num daqueles dias, depois de encerrado o expediente bancário, não querendo perder um mi- nuto sequer do raro acontecimento, me dirigi à praça e sentei com uns amigos no bar, de onde passamos a olhar a neve cair, degustando croquetes de carne feitos na hora, acompanhados de conhaque e caipirinha. À noite, fomos até o cabaré que ficava afas- tado do centro da cidade. Ao som do bandônion, gaúchos de bombacha e bota, alegres e prosas, dançavam com as chinas os tangos e milongas, primorosamente executados por um argentino nativo, de idade avançada e amasiado com a dona do cabaré. Do lado de fora a neve continuava. Os fl ocos se refl etiam na luz dos postes e caíam levemente. Soltos, balançavam na brisa da madrugada e bailavam ao som da música vinda de dentro do cabaré. (continua)
José Geraldo Antonio |
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