|
Tema: Sombra
Pétalas voando com o vento. Deixa a varanda coalhada. Minhas dores acalento, Dentro da sombra rendada.
Tema: Dia
Mais um dia foi embora, Já virou águas passadas. Sigo outra vez mundo afora, Esperanças redobradas.
Tema: Mentira.
Brincadeira infantil, É pegadinha: confira. Chegou primeiro de abril, Todos caem na mentira.
Tema: Família.
A família sempre unida, Consegue vencer a batalha. Com fé não será vencida, Com Deus milagre não falha.
|
|
Tarde aquecida pelo sol, rua quieta me levou até ao portão para ouvir o silêncio de um domingo. Olhei para um lado e para outro, toda ela vazia dando a impressão de que as pessoas curtiam uma grande letargia de fim do dia. De repente, o sossego foi interrompido por um trotar. Lá pelo lado da praça apareceu um cavalo montado por um jovem e na garupa dele uma garota de longos cabelos dourados, esvoaçantes sobre uma blusa branca, transparente. Lembrei-me rápido de Lady Godiva quando cavalgou nua pelas ruas de COVENTRY na Inglaterra, a fim de que o nobre Leofric, seu marido, abaixasse os impostos com dó do povo. Conta a história, que seu marido duvidou sobre o comportamento dos moradores, achou que eles não deixariam de olhá-la. Enganou-se, todos fecharam suas casas em sinal de respeito àquela mulher que se sacrificava daquela maneira para favorecê-los. Acompanhei aquela cena com o olhar, até que eles desapareceram no final da rua em direção a Rodoviária. No mês de março, na fazenda do Coronel Amaral, o tempo corria tranquilo. Sua família vivia calmamente. Os dois filhos mais velhos já trabalhavam com o pai, os menores estudavam e as moças ajudavam no movimento da casa e também sonhavam, despertando para a vida e o amor. Todos os dias a filha mais velha, Leonora, professora formada em Belo Horizonte, após o almoço descia para a tulha, onde num canto tinha uma sala de aula que ela ensinava a ler e escrever aos filhos dos empregados e irmãos. A vida caminhava lentamente até que numa tarde, a marcha de um cavalo irrompeu o sossego do lugar e foi se aproximando da escadaria do casarão. As crianças se movimentaram e Leonora foi correndo ao portão. Ficou sem graça quando deu de encontro com o olhar do cavaleiro. Era um caboclo de olhos profundos, corpo esguio e porte forte, com a camisa aberta no peito, representando bem sua raça. Olhares foram trocados e o sorriso contido de Leonora a fez voltar para o interior da tulha e fitar o teto por vários minutos com o coração aos pulos. O caboclo apeou do cavalo, amarrou-o no balaustre da escada e bateu palmas. Lá de dentro veio uma senhora, trocaram algumas palavras e pegou o envelope que o rapaz havia levado. Em seguida, ele despediu-se e partiu galopando até a porteira. Parou, fitou o casarão e avistou a moça que o encantou e ela disfarçava olhando para ele enquanto brincava com a menina Tiana. A tarde terminou. Chegou à noite e Leonora ao deitar-se confidenciou as outras irmãs o acontecido. Após apagar o lampião, fechou os olhos e começou a sonhar. Ela nunca poderia imaginar que numa casa simples, iluminada à luz de lamparina o caboclo também não conseguia dormir, pois não tinha esquecido o olhar brejeiro daquela moça. A calmaria no solar do Coronel Amaral, antecedia a uma grande tempestade. O tempo se arrastava e as duas almas sonhavam e faziam planos em seus corações, pois só se viam de longe e com troca de bilhetes. Passado quase três meses voltou o rapaz à fazenda, pois não mais aguentava o amor que lhe apertava o peito, tomou coragem e foi falar com o pai de Leonora. Surpresa, decepção. Não querendo ouvi-lo, o Coronel convidou-lhe a retirar-se. Começava a intranquilidade. Cada trotar de animal que se aproximava a casa do fazendeiro era fechada, empregados armados na porteira e portões e a filha trancada no quarto. Coisas do destino. Uma noite, através da menina Tiana, foi cair nas mãos do Coronel um bilhete enviado pelo caboclo convidando Leonora para fugir com ela na garupa de seu cavalo, na primeira noite de lua cheia. Bastou isso e a decisão foi tomada. No dia seguinte, as malas já estavam arrumadas, a charrete com duas parelhas de cavalos e o olhar duro e frio do Coronel, que não se comovia com as lágrimas de dor da separação de sua mulher e filha. Levou-a para o Convento das Carmelitas em Minas. O caboclo quando soube foi entristecendo, perdeu aquele porte de homem trabalhador e sonhador, até que um dia vendeu tudo e se mudou e nem o Coronel Amaral ficou sabendo para onde ele tinha ido. O mesmo aconteceu com o caboclo, nunca lhe disseram para que lugar tivesse partido seu amor impossível. No convento bem mais tarde, Leonora recebeu o hábito e também outro nome: Irmã Tereza. O amor a fez com que se dedicasse aos doentes e em Belo Horizonte foi trabalhar em um hospital. A vida é de encontros e desencontros. Um dia, na enfermaria ela foi atender a um paciente que as outras irmãs o chamavam de demente, porque ele dizia não sentir nada apenas morria aos poucos e a muitos anos de tristeza por não ter sido aceito por culpa do preconceito. Ela se aproximou e o reconheceu. Era o caboclo do olhar profundo, de porte imponente e que lhe tinha inspirado um amor escondido, só ela e seu coração sabiam o que havia passado. Em vez do sorriso brejeiro, tinha apenas ficado em seus lábios as orações a Deus. Não houve o galope do cavalo e nem ela na garupa do amado iluminados pelo clarão da lua, não houve sequer uma explicação da separação, apenas a intolerância da raça acabando com o sonho de duas almas. Tudo isso me veio à mente quando vi o casal tão jovem, alegre, feliz naquele galopar desenfreado pelas ruas da cidade, na tarde vazia de um domingo. Parece romance, mas foi real contada por minha mãe numa noite estrelada, a qual podia ser vista da janela da cozinha da chácara da minha infância. Leonora era prima de nossa família que deixou uma lição de obediência (forçada), amor tolhido que se transformou em amor ao próximo e maior ainda a Deus. Tempos passados? Não. Ainda hoje assistimos preconceitos financeiros, raciais que matam a consciência das pessoas, embora muita gente faça apologia que não há. Tudo isso fez meu espírito refletir e ter uma doce, suave e eterna lembrança.
|