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MAIO DE 2009 ANO VIII Nº-114 - MIRACEMA-RJ- |
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A PROFESSORA RURAL OU MARIA ALBA ANTÔNIO
Sob a luz das estrelas, no terreiro da Fazenda Marselhesa, as crianças conversavam alegremente, aguardando a aula inaugural da Escola Rural criada para a Professora Maria Alba. Há muito tempo a região se ressentia da falta de uma escola e agora os colonos e os sitiantes poderiam educar seus filhos em lugar próximo aos seus lares e sem dispensá-los da ajuda no trabalho. Para tristeza das crianças que se divertiam naquele coletivo encontro, foram chamadas para a sala. Atônitas e curiosas, receberam da Professora todas as informações sobre o horário das aulas e sobre o material que deveriam usar. Os alunos foram classificados entre os que seriam alfabetizados e os que ficariam na primeira série primária. Os mais adiantados teriam as lições adequadas ao respectivo nível escolar, embora ficassem todos na única sala disponível. Terminada a aula inaugural, as crianças foram para os seus lares. Os que vieram de sítios mais distantes e dispunham de montarias voltaram em seus cavalos e se despediram dos demais, que retornaram a pé, a maioria descalça. Ainda sem espaço próprio, a Escola funcionaria em um compartimento que ficava na frente da sede da Fazenda, na parte inferior, utilizado, antes, para depósito de ferramentas, apetrechos e outros objetos de serventia no campo. Posteriormente, a Escola foi construída em área separada e afastada da sede da Fazenda, com a denominação Escola João Miguel, em homenagem ao avô de Maria Alba. Construída a Escola e com mais espaço, apesar de um único salão, mantendo-se o horário diurno, o número de alunos aumentou consideravelmente e, além da alfabetização, Maria Alba lecionava as primeira e segunda séries primárias. Freqüentavam-na, predominantemente, os filhos dos colonos da própria Marselhesa e das Fazendas e Sítios vizinhos. Dentre as filhas nascidas em Miracema, João Miguel e sua mulher Latife tiveram Júlia, que veio a se casar com Felício Antonio, libanês que chegou ao Brasil com nove anos de idade e, dentre outras atividades, se notabilizou como açougueiro, famoso pelo rigoroso asseio e o alegre trato com os fregueses. Felício e Júlia tiveram nove filhos e Maria Alba foi a primeira da prole. Muito festejada na infância, Mariazinha (apelido que a acompanhou pela vida toda) viveu, como as meninas da época de Shirley Temple, um mundo de sonho hollywoodiano. Na adolescência, dedicou-se fervorosamente ao estudo no Colégio Miracemense e sempre se destacava na turma, obtendo as maiores notas. Concluiu o curso normal e se habilitou para o magistério primário. Permaneceu em Miracema e foi nomeada para lecionar na Escola Rural da Marselhesa, criada com a interferência do influente chefe político da época, Altivo Linhares. Durante alguns anos, Maria Alba residiu na Fazenda com sua avó. Depois, combalida pela idade, Latife se despediu da casa, onde desfrutou uma longa e laboriosa existência. Com ela, também envelhecera a sede da Fazenda, que já não mais suportava as intempéries e os efeitos do tempo. Na iminência do desabamento do antigo casarão, foi morar com sua filha Almaza, viúva e que vivia com seus filhos na Rua das Flores. Mariazinha voltou para a casa dos seus pais na Rua Direita. A partir daí, Maria Alba fazia o percurso de quase 10 km até a Escola, indo e voltando a pé, de segunda a sexta-feira. Sob chuva ou sol, partia da sua casa, na Rua Direita, passava pela Rua do Café e subia o morro do hospital até chegar à Marselhesa. Esse despreendimento e essa dedicação foram exaltados por quantos a conheceram e mesmo depois, quando passou a usar o transporte de charrete, Maria Alba continuava a ser uma professora dedicada e admirada por todos. Católica fervorosa, como sua mãe e avó, dava aulas de religião e preparava os alunos para receberem a primeira comunhão na própria escola, ocasião em que organizava uma festa de comemoração, com a presença dos pais dos festejados e do Padre de Miracema. Na Páscoa, também patrocinava a festa para os alunos e os seus pais, com doces, bolo, chocolate e outras iguarias, a ela sempre comparecendo o Padre para a glorificação cristã. Em Miracema, não raro, escuto alguém dizer: “Eu fui aluno da D. Maria, na escola da roça, onde lecionava”. Muitas vezes vou à Marselhesa e quando passo na estrada e vejo a antiga construção com o letreiro “Escola João Miguel” vislumbro a imagem da minha irmã ensinando aos alunos de pés descalços os hinos de exaltação à Pátria, procurando infundir-lhes o sentimento de amor ao país e de esperança de uma vida melhor da que tiveram seus pobres e sacrificados pais.
MARIA ALBA ANTONIO ou Mariazinha, a D. Maria, PROFESSORA RURAL da Escola da Fazenda Marselhesa, morreu no dia 19 de abril de 2.005, aos 78 anos de idade.
José Geraldo Antonio
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