Pág.2-Nº135-Fev/11
                                   

     
                                                                   Folhas Soltas Dentro De Nós.

     

    Como é pacificador ver folhas soltas no ar! É uma sensação de tranquilidade,
de leveza, olhar profundo penetrando no horizonte da vida. Quando caem, mostram
que a realidade é outra: não existe mais o verde esperança. Mas, pensando bem,
elas se despedem para dar lugar a um sentimento de  fé, de confiança na natureza
que se despe e se veste a cada ano para a humanidade.
   O mesmo acontece com o ser humano. Às vezes deixa voar, ir embora,
escapar de suas mãos o que lhe é mais precioso. Um dia tudo voltará, nem que
seja sob a forma de poesia, textos, trovas,  qualquer forma de expressão mais
íntima ou dentro da insistente saudade.
     Nas poesias, as folhas cairão em versos e rimas e trarão as inspirações para
serem revividas dentro de todas lembranças.
      As folhas soltas dentro da nossa inspiração poderão, ainda, ser transformadas
em trovas irrequietas, vadias, que seguirão perambulando levadas pelo vento em
filas de quatro versos, deixando no último o seu maroto recado.
      Nos textos, elas serão exploradas em vários tons esverdeados. Ficarão tontas,
formarão redemoinhos, mostrarão a natureza das mensagens antes despidas, e,
como as árvores revelarão a sua alma para todos.  Os brotinhos verdes surgirão sob
o formato de palavras. Elas cobrirão o nu, o vazio, para oferecer os seus escritos
já transformados na cor esmeralda para aqueles que serão os leitores.
     Assim, são mostradas as situações existentes nas folhas   do  tempo de
tantas pessoas. Às vezes,  sem nenhum prazer, outras cobertas pela vontade de
sempre recordar ou escrever. As lágrimas como chuva benfazeja, se esconderão
nas folhas dos pensamentos para que sejam escorridas através do tempo. Elas,
conformadas, anunciarão que a primavera da vida vai e volta para enfeitar o que
antes estava despido.
      O que se escreve ou o que se recorda – alegre ou triste – é sempre atapetado
pelas folhas poéticas que existem dentro de nós e, como um milagre, chegam
ao universo da inspiração para reciclar, se possível, as recordações que irão se
eternizando.
    Para você que transforma as folhagens existentes nos pensamentos em
constantes inspirações, qualquer que seja o seu estilo, oferecemos a nossa Rosa
cujas pétalas esperança continuarão a povoar a sua alma.  
  

                                                                                        

 
 
    
                                           EDITORIAL
   Ricarda Maria

 

                                                                              Contínuas Goteiras

             

       A chuva cai  insistentemente. Os moradores das casas cujos  forros  são  feitos com
madeiras e tendo por cima telhas, vivem constantemente esse problema: os espaços va-
gos entre elas vão cedendo e dão lugar as inconvenientes goteiras. Há sempre um corre-
corre para a cobertura dos móveis, a retirada dos mesmos dos seus lugares para que não
continuem molhados ou, ainda, o exaustivo dever de secar o chão.  Às vezes, o pinga,
pinga é  tanto que quase é necessário o uso do guarda chuva ou sombrinha dentro de
casa. São momentos desagradáveis. Passado o tempo da chuva, por mais que o pedreiro
queira sanar o problema, outros surgem e a complicação continua.
      Meu pai contava que havia um pedreiro que  trabalhava numa  fazenda e ele era o
responsável pela retirada das goteiras da sede.   Mas, no período que chovia  lá estava
mais uma em outro lugar ou cômodo. Seu fi lho cresceu e quis seguir a mesma profi ssão
do pai que estava velho e cansado.
      Choveu e quando apareceu o Sol,  lá foi o  jovem para a Fazenda. Trabalhou o dia
inteiro. À tarde, chegou a casa realizado e feliz, dizendo: - Eu tirei todas as goteiras. O
pai, macaco velho no assunto, respondeu:- Mas, você não deixou nem uma pra remé-
dio? – Não! Fiz o serviço direitinho. O pai retrucou: - Filho, todo bom pedreiro tem que
deixar pelo menos uma como chamariz. É questão de sobrevivência. Se eu não tivesse
feito assim, como poderia ter criado você?
       Será que o pedreiro sabe que esse problema é  irritante e precisa com urgência de
uma solução? E que causa um barulho cronometrado dentro dos nossos ouvidos? Sabe
ainda que  esses  instantes  repetitivos deixam qualquer um  fora de órbita? E que  eles
causam um transtorno dentro de casa: baldes, latas ou panelas são espalhados em cada
cômodo, aumentando o ruído dos sons?
        Já é um hábito: parou a chuva, veio o Sol, o pedreiro é chamado para deixar nossa
casa em segurança. Mas, quem se lembra da história contada por meu pai, fi ca sempre
com uma pulga atrás da orelha. Será que ele retirou todas ou fi cou alguma para garantir o seu sustento?
        Goteiras? Nunca mais. Assim todos nós esperamos.

                                                                                                                                    Ricarda Maria

                   

               Memória é a lembrança que alguém deixa de si, quando ausente ou
               após sua morte. Reminiscência é a imagem lembrada do passado ou
               fragmento que resta de algo extinto "(Houaiss)

                                   O (IN)VOLUNTÁRIO EXÍLIO (Final) 

                                                                                                                                                                                                                                                   

     Numa das férias, quando vim à Miracema com o Gordini que possuía, con-
videi o Jorge Pela Égua, meu saudoso amigo e colega de Tiro de Guerra, a me
acompanhar na viagem de volta. Disse-lhe que, além de convidado, seria meu
parceiro na direção do veículo e de grande valia na  longa viagem  (mais de
1.000km de Miracema), porque, excelente mecânico que era, poderia resolver
os problemas que eventualmente surgissem com o carro. Ele topou e convidou
o amigo Acácio. Assim, viajamos os três. Alertei a eles que fazia muito frio em
Vacaria e deveriam levar agasalho pesado. Pela Égua desdenhou, dizendo que
estava acostumado a viajar de caminhão pelo país e resistia a qualquer frio, ain-
da mais que estávamos no mês de novembro. Acácio se preveniu. Ao chegar-
mos em Vacaria, depois de pernoitarmos na estrada dentro do carro estacionado
em um Posto de gasolina, Pela Égua tremia. Emprestei-lhe alguns agasalhos e
foram eles aproveitar o que a noite de Vacaria oferecia, visitando o Cabaré. 
    Os funcionários do Banco, com função gratifi cada, eram obrigados a traba-
lhar duas horas na parte da manhã. Findo esse expediente extra,  retornava à
República. No  trajeto,  invariavelmente, parava no  laboratório do meu amigo
Airton, onde, junto com alguns médicos, mantínhamos uma boa conversa, sem-
pre rodando de mão em mão a cuia do chimarrão.
     Quando visitei Vacaria pela segunda vez, muitos anos depois de ter retornado
ao Rio de Janeiro, acontecia o Rodeio Crioulo. Eu e Christina estivemos na casa
do Airton e durante três dias mantivemos bons encontros com ele, a mulher e
os fi lhos. Depois, não mais tive contato com o amigo e guardo dele uma grata
recordação. Se outras razões não existissem para lembrar com saudade a minha
passagem pelo Rio Grande do Sul, essa amizade e o convívio dela resultante
seriam motivos para guardar um profundo sentimento de gratidão e dizer que
tudo valeu à pena.
                        
                                                                                           José Geraldo Antonio


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