Pág.3-Nº135-Fev/11
              

 

 

      

 

                                                         Trágica Transição

   Meu pai era médico. Eu e meu filho somos também. Vivi desde criança o  uni-
verso do relacionamento médico-paciente nas décadas de 50 e seguin-
tes do século passado. Presenciei a desvalorização paulatina do profi ssional e da
profi ssão. Os meios de diagnóstico foram fi cando cada vez mais caros da porta do
consultório para dentro e o povo cada vez mais pobre da porta para fora. Os im-
postos que seriam para a saúde são desviados para os Senadores, Deputados, para
os lobbies do Congresso, para os Governos Estaduais e destes para as Prefeituras.      
A sobra vai para o povo como esmola.
   Naquela época não existiam remédios prontos. Os sais com alto grau de pureza
e qualidade garantidas eram importados da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e
Estados Unidos. Os médicos escreviam as fórmulas e os farmacêuticos aviavam
as receitas. Não existia o moço do balcão que hoje chega a dar opiniões, indicar
ou  trocar  remédios, medir a pressão arterial nos  fundos de muitas  farmácias e
ainda receitam! O paciente pagava o médico como podia, em dinheiro, frango,
leitoa,  punha  na  conta,  um  simples muito  obrigado  e,  às  vezes,  nem  isto. Era
mantido o interesse mútuo. Este pagamento, mesmo simbólico, selava o compro-
misso. Havia educação, agradecimento e respeito.
   O  relacionamento médico/paciente  nunca  poderia  ter  intermediário. Mas  ele
apareceu a partir da década de 60, o SUS atual. O paciente passou a não ser mais
o paciente daquele médico e aquele médico não era mais o médico daquele pa-
ciente. Ambos pertenciam ao sistema. Passamos a suportar agentes do INAMPS
que, às vezes, falavam com os pés.
Em  seguida a publicação do Código das Doenças  (CID 9 e CID 10) deu uma
paulada no segredo médico, pela obrigatoriedade de serem nomeadas as diversas
doenças nas Guias de Internações Hospitalares (GIH) e, às vezes, nos atestados
médicos. Foi-se, então, o segredo médico.
    Poucos anos após, apareceu o terceiro obstáculo: os planos de saúde cobrando
preços absurdos dos associados e pagando regiamente a jogadores de futebol. Os
médicos empregados desses planos passaram a  ser vigiados e comandados em
seu atendimento. E os associados que são explorados fi nanceiramente vêm sendo
limitados em suas internações e exames por supervisores que obedecem as ordens
do patrão, não examinam o paciente no momento da admissão hospitalar e talvez
nem tenham competência para julgar! Cada doença tem seu tempo de internação
independente de sua gravidade.
    A proliferação desordenada de Escolas Médicas abarrotou o mercado com pro-
fi ssionais muitas vezes mal formados, desequilibrando a balança oferta/procura,
fazendo com que muitos aceitem trabalhar por preços aviltantes. Já se fala inclu-
sive em venda de vagas no vestibular!
   Fechou-se o cerco? Não, era pouco, faltava ainda o aparecimento dos medica-
mentos genéricos e dos similares! Quem garante a honestidade destes medica-
mentos? O governo? O governo não tem condições de garantir é nada!
E para completar hoje se  fala em “Máfi a de Branco”,  termo chulo que ofende,
desanima e desestimula o profi ssional sério, generalizando uma acusação injusta
e irresponsável, pois tenho certeza de que no Brasil a maioria dos médicos é ho-
nesta, estudiosa e se interessa pelos pacientes. E agora a ameaça de contaminação
pelo HIV pondo em risco as vidas dos médicos e suas famílias!
   As salas de espera dos consultórios transformaram-se em antessalas dos tribu-
nais. Está sendo criada uma classe de pedintes agressivos. Os médicos das Perí-
cias que o digam! Hoje, os médicos dos serviços públicos têm que trabalhar em
vários locais para seu sustento e de suas famílias, sempre sob ameaça de intrigas
e processos. Pacientes e médicos estão completamente desprotegidos.
   Até quando?

             

 

  

- “Amor Divino: Não somos amados por Deus por sermos
bons, Somos bons porque somos amados por Deus”
- Entender o amor verdadeiro é conhecer o Amor Divino: um
oceano que toca a terra, mesmo que não haja ninguém para
navegar em suas águas.
                                                                                                
(Bhama Kumaris).
- O amor humano permite que se passe do amor ao ódio,
enquanto o Amor Divino é imutável. (Tostoi).
- A essência do amor de Deus está no desejo que tem a
alma por seu Criador, pela unidade com a sua luz mais alta.
(Talmud)
-  Quando a dor tem que ser suportada, um pouco de cora-
gem ajuda mais que o conhecimento; um pouco de simpa-
tia humana mais do que a coragem, e a menor migalha do
amor de Deus mais do que tudo
                                                                                                        
(C.S. Lewis)
- A felicidade plena só será alcançada quando perdermos o
medo de amar a todos. (Jeremias Estevão).
 

               

                
FUNDO DE PALCO
         Neide Freitas Gutterres
                

                               Sapatos Velhos

          

      Sapatos  caminham  levados  pela  nossa  energia  e  força,  chegando  até
onde queremos. Por  serem objetos,  são  levados para  lá e para cá, nunca
sabendo onde irão parar.
      Quantas vezes aparecem na praia vindos do mar empurrados pelas on-
das! Quem sabe? Às vezes, se desprenderam dos pés de alguém que morre-
ra afogado ou simplesmente rolando por enxurradas ou enchentes, cortaram
rios até encontrarem o mar. Uma visão simples, ao mesmo tempo emocio-
nante, contendo uma história que não somos capazes de decifrar.
      Muitas vezes são doados quase novos porque não coincidem mais com
a numeração ou até mesmo por exigências fúteis de seus donos. Assim vão
para outros pés, tendo outro fi m, poderão ser aproveitados ou não.
      Outros sapatos marcam presença fi rme em determinadas sapateiras. Jun-
to aos seus donos os acompanham com fi delidade, dando de si até a exaus-
tão. Vão muitas vezes para  consertos, voltam à sua forma e continuam até
não sei onde...
      Já vi certa vez, sapatos de saltos que foram cortados com o machado e
serem reutilizados por mais algum tempo.
      Já vi em outra ocasião, alguém utilizar sapato masculino como se fosse
um par de colegial, por não poder comprar novos para a cerimônia de sua
formatura.
      Como vi  também  comprarem galochas  (de borracha) por  serem mais
baratas e se sentirem calçados.
      Também existiu compra de sapatos com a numeração grande por econo-
mia, prevendo o aumento do pé, com possibilidade de maior duração.
      Como também presenciei sapatos não servirem aos seus donos, porque
foram guardados para uma ocasião especial que nunca aconteceu.
      Não me esquecendo de sapatos seminovos serem rifados e a apuração da
grana ser aproveitada em necessidades mais importantes.
      Já vi bastante coisa, vocês não acham? Se quiserem podem completar
com outras narrativas...
      Se sapatos falassem nos diriam histórias de sucesso, carinho, esplendor,
infortúnio assim como nós.
     Às vezes um “cromo alemão” foi desprezado, sucumbindo em pés de
executivos sem tempo de exibi-lo em uma festa.
 
     O certo é que eles nos calçam, nos protegem, proporcionando equilíbrio,
nos dando a sensação de bem estar. São eles coloridos, foscos ou brilhosos.
Todos nos encantam e são apreciados.
     Existem os que vão para o lixo e aí têm realmente o seu fi nal. Mas, os
que mesmo velhos protegem os pés dos necessitados, esses são amigos in-
separáveis e acarinhados.
     É claro que gostamos de variedades de sapatos, para ostentação ou sim-
plesmente para harmonizar com os nossos trajes.
     Mas, sempre existem aqueles que fi cam velhos porque são os preferidos,
pela maciez, cor, formato e durabilidade. Como tudo na vida é preservado
pelas suas qualidades.
 



Página 1Página 2Página 3Página 4Página 5Página 6Página 7Página 8Mural de RecadosGaleria de ImagensExpediente