Pág.3-Nº115-Jun/09
                                                                                                  JUNHO DE 2009
        
                       
                   
                                                     ANO VIII Nº-115 - MIRACEMA-RJ-                                                                                                                                    
                                   
                              


 

Sombreiro



 Uma das recordações mais agradáveis de minha infância em Miracema ainda é a do “Sombreiro”. Provavelmente os mais jovens nem sabem onde fica e nunca ouviram falar dele. Os mais velhos que não se divertiram ali na adolescência estão perdendo uma boa oportunidade de hoje recordar com saudade um dos lazeres preferidos dos meninos da década de 1950/60. Não está como naquela época, mas ainda vale a pena
 Não sei de onde veio este nome. Deveria ser originalmente um lugar cheio de árvores e com muita sombra. Talvez ninguém saiba com certeza, porque hoje já quase não se vê mais árvores no local. Apenas uma ponte artesanal e um curral de gado no outro lado do córrego. Da nascente para baixo temos a ponte do “Moura” e em seguida o curso d'água serpenteia no sítio que na ocasião era chamado de “Nicomedes”, pronúncia popular do nome de antigo proprietário. Em seguida vem o sombreiro. Hoje são locais de raros banhos e pescarias.
 Fica na zona sul da cidade, nas imediações do “Conde”. Pode-se chegar lá por uma íngreme subida na rodagem ou diretamente através de uma estrada de terra um pouco à frente, empoeirada, mas sem subida. Por esta são três quilômetros da Praça Dona Ermelinda até lá: dois de paralelepípedos e um de terra, sendo que os últimos trezentos metros estão bem esburacados. Ali é o “Sombreiro”. Era programa obrigatório aos domingos depois da missa das sete horas da manhã. Chegava-se até lá “a pé”. Farra gostosa!
 Na década de 50 era muito freqüentado para banhos e pescarias. Na minha época não, mas dizem que já houve afogamentos no local. Naquele tempo, devido à sua profundidade, pulava-se da pedra, em mergulhos sensacionais. O riacho (que ajudou a abastecer a cidade durante o acidente ecológico do Rio Paraíba) é hoje uma imitação do que era e já não causa medo, nem dá mais para mergulhar, a profundidade é pouca. É afluente do Santo Antônio.
 Nada se compara a um banho de rio! A água corrente é sempre fresquinha. Lá não havia poluição. Dizem que hoje a água é contaminada. O barulho, as conversas, as gritarias inundavam o ambiente. Hoje tudo é silêncio. Ouve-se o silêncio. Mas a aragem é a mesma. Se você fechar os olhos e colocar sua imaginação para funcionar, terá a sensação de que tudo ainda é real, parecendo que se escuta até a algazarra da molecada pulando “de ponta” e brincando de “porca”. As “bingas” de cigarro eram repartidas e, às vezes, disputadas a socos e safanões.
 A maioria tomava banho pelado porque se na volta para casa a roupa estivesse molhada o castigo era severo - “olha menino, já morreu gente lá”- diziam as mães, e o coro cantava. Como no clube da Luluzinha – mulheres não entravam! Mas de vez em quando uma moradora das imediações vinha chegando e todo mundo ia para dentro d'água num corre-corre desesperado. Sempre era destacado um menino para vigiar intrusos na estrada, em turnos de 15 minutos. Não me lembro de como calculavam este tempo porque ninguém tinha relógio. A vigília era compromisso de honra. Havia organização! Se o substituto se distraía ou atrasava era briga na certa. Brigava-se por qualquer motivo. Se não havia motivo arranjava-se um. Interessante é que não permanecia inimizade. Às vezes ficava-se “de mal” permitindo até dialogar com o oponente, só não podia chamá-lo pelo nome. O problema era pronunciar o nome, vejam só que molecada estropiada! Era “filho de seu fulano prá lá e prá cá”. Isto podia! Hoje existe uma cerca de arame farpado e uma porteira com uma placa proibindo ultrapassar a ponte. Parece desabitado. Uma tristeza.
 É bom voltar ao velho “Sombreiro”. Mata as saudades. Com sua natureza bucólica e sua simplicidade está esperando você para uma visita. Não deixe de fazê-lo. Você vai encontrar ali um pedacinho de sua infância. Eu me considero um felizardo porque guardo na memória a imagem inesquecível do Sombreiro no álbum de recordações perenes da minha infância.
 Eu já fui até lá. Vá você também. Vale a pena!



                           

 

                 

 - O exagero é um departamento da mentira. (Baltasar Gracian)

 - O exagero é a verdade que perdeu a calma. ( Gebran Kahlil Gibran)

 - Existem pessoas tão afeitas ao exagero que não sabem dizer a verdade sem mentir. ( Josh Billings)

 - O exemplo não é a principal coisa da vida: é a única coisa. (Albert Schwcitzer)

 - A esperança é o maior dos riscos e a mais difícil vitória que o homem consegue sobre a sua alma. (Georges Bernanos)

 - Esperança é a capacidade de manter o ânimo em circunstâncias que sabemos serem desesperadoras. ( Chesterton)

 - O conselho raramente é bem recebido, e quem dele necessita é quem menos o aprecia. (Chesterfield)

                            

 


Ausência

 Cada minuto vivido apressa a nossa aproximação. Quero sentí-la pouco a pouco, para me conformar com a ideia, numa tentativa mais interessante, permeando com dignidade essa proximidade. Continuando em estradas paralelas eu a espreito, assistindo sua fama de renegada, mal falada, combatida, mas mesmo assim, temos que nos fazer amigas. Eterna, única, verdade necessária, que faz sua hora certa indistintamente, mas, às vezes, horrorosa mesmo no caminho certo. Você é implacável nos encurralando em um paradoxo entre o desejo da preservação e a incapacidade de conter a derrota. É dilaceradora de sonhos, comprometendo-nos com o pavor da realidade, embrutecendo o espaço de nossas emoções. No seu rastro fatal, incomplacente, sempre nos deixa uma cratera dolorida, cruel, e, um brilho a menos na vida dos que ficam para trás.
 Portanto, vejo-me muito frágil constantemente diante dessa vida tão complexa, tornando-me algumas vezes somente lógica e objetiva.
 Nunca serei capaz de medir a distância que nos separa, mas a certeza de que serei arrebatada e consumida por você, apavora-me ou induz-me à meditação.
 Talvez não seja tão ruim falar com naturalidade dessa realidade, quando se imagina distante dela:

 Amanhã o sol estenderá sua luz
 desprezando a chuva.
 A panela ferve,
 O homem briga,
 Bandeiras se estressam,
 A vida se ergue!
 A tarde conspira com a noite,
 fechando contrato feliz,
 Mas... eu não estarei mais aqui.



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