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O IPÊ AMARELO Em homenagem à Profª Áurea Bruno
No dia dois de julho de 1981, depois de um século de existência, em pleno vigor físico, um ipê foi derrubado pela administração pública do município de Miracema. No momento em que ia ser cortado, uma professora, moradora da casa, em cujo quintal a árvore fora cultivada, num gesto patético, prostrou-se junto ao tronco do ipê e, comovida, mas resoluta, proclamou: “ NÃO CORTEM. O IPÊ CAIRÁ SOBRE MIM.” O então prefeito, que pessoalmente comandava a derrubada, insensível, ordenou: “ CORTA”. Esse acontecimento de triste memória completou 28 anos no último 2 de julho e dele me lembrei, ao ver as primeiras folhas surgirem nos ipês amarelos, antecipando a chegada da primavera, quando eles voltam ao seu exuberante e completo florescimento. Reli o texto que na época escrevi. O texto não foi publicado em jornal. Por se tratar de um tema que não se esgota e abordar a defesa da natureza, resolvi aproveitar o momento para publicá-lo em homenagem àquela professora que, apesar da fragilidade física, se agigantou com sua força moral e enfrentou o poder prepotente com a dignidade e a bravura da mulher consciente dos valores que merecem ser defendidos, até com a própria vida se preciso for, o que só não ocorreu porque foi retirada do local. Com o mesmo título deste artigo, escrevi: “Nascestes do amor e vicejastes com a sensibilidade dos que te cultivaram; - Crescestes sob os olhos dos que te amavam e tuas raízes alimentaram-se do solo fértil do sentimento pela natureza; - Deixastes de pertencer, apenas, àqueles que te cultivavam desde a primeira infância e passastes a ser admirado por todos os que habitavam esta terra, orgulhosos do teu esplendor; - Quando a primavera chegava e eras envolvido pelo manto amarelo de tuas folhas, os miracemenses, cheios de vaidade, exibiam-te como um símbolo da beleza esfuziante com que a natureza abençoou a cidade; - O teu florido incomum, de amarelo singular, ofuscava a própria lua e coloria as noites de Miracema; - Quando Setembro findava e abria o espaço para a entrada do verão, Tu, já desfolhado e adormecido, aguardavas sonhando o retorno da primavera para voltares a florir com a mesma exuberância; - Tua beleza, contudo, não foi suficiente para espancar o ódio, fruto da ignorância e da prepotência; - Impiedosamente, arrancaram-te do solo. O desamor violentou tuas entranhas e as raízes que te sustentavam foram trituradas pela insensibilidade e ignorância de um governante mentalmente enfermo; - A primavera em Miracema jamais seria a mesma e o mês de setembro na cidade ficaria marcado para sempre pelo cinzento da tua destruição; - Sem a cor alegre da copa amarela que deixava a própria lua enciumada, a primavera em Miracema sempre estará enlutada pela tua ausência; - O tronco do ipê certamente não irá brotar, mas suas folhas amarelas permanecerão florindo os corações dos que olham a vida com amor e poesia.” Como na vida não se há de ter tudo absolutamente ruim, devemos tirar lições dos fatos, por mais ignominiosos e cruéis que sejam, como o da inexplicável, injustificável e criminosa derrubada do Ipê Amarelo. Infelizmente a vida não é feita só de bondade. Há os que se alimentam do ódio e fazem do mal o seu norte. Dentre eles estão os depredadores da natureza e os demolidores da memória de um povo. Mas, esses não vencerão. O gesto heróico da Professora Áurea Bruno fez ecoar no espaço o grito da indignação, robustecendo a consciência dos que lutam pela preservação da natureza. À PROFESSORA ÁUREA BRUNO, com o respeito e o preito de gratidão por mais essa lição de vida emanada do seu profícuo magistério, dedico o texto que escrevi na ocasião, como forma de externar minha indignação pela violência e covardia do ato injustificável de um insano administrador público.
José Geraldo Antonio | |
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